MANUEL JOÃO RAMOS
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A Loucura Líquida

24/1/2026

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No capítulo de abertura do seu livro Into That Darkness, a escritora e jornalista austro-húngara Gitta Sereny descreve o episódio que, de alguma forma, inaugurou a obsessão de toda uma vida, a tentativa de compreender a moralidade do mal. Muito jovem, regressava em Setembro de 1934 de um internato em Inglaterra. O comboio que a levava de volta a Viena ficou parado na pequena cidade de Nuremberga, precisamente no dia final do congresso do Partido Nazi, imortalizado por Leni Riefenstahl no clássico propagandístico Triumph des Willens. Sem saber bem como nem porquê, acabou por ir ouvir Adolf Hitler discursar para uma plateia fanatizada num espectáculo nocturno iluminado por centenas de milhares de tochas. Conta que, não sabendo nada de Hitler e sem qualquer interesse pela política alemã, se surpreendeu a gritar e a cantar em uníssono com a multidão, chorando a ouvir as palavras do ditador. O que se tinha passado, como tinha acontecido que tivesse sido irresistivelmente absorvida pela loucura da multidão? As suas aturadas investigações do “trauma alemão” no pós-guerra, as suas longas entrevistas a personagens como Franz Stangl, o comandante de Sobibor e Treblinka, e a Albert Speer, o “arquitecto de Hitler”, são como que tentativas de compreender o que lhe tinha acontecido naquele estranho e longínquo dia.
A loucura das multidões, a submissão das massas, a força da propaganda, são temas que fascinam. Percebo a incredulidade e a perturbação que Gitta Sereny terá sentido, ao ver-se absorvida – dissolvida – por uma massa humana que lhe era completamente alheia. No mesmo café em que li, absorto do mundo, várias das suas obras, ouvi desprendidamente esta conversa:
 - Bem, ontem à noite às três, parecia uma festa. Eram uns porcos [javalis] a virar caixotes. Andam por todo o lado. Tá toda a gente velha de saber dos que vão tomar banho ao Creiro. Vão até lá baixo, vão à água, e voltam. Não chateiam a gente. Eles vão mas é aos caixotes, fuçar no lixo."
- O [...] deu conta de uns deles no terreno dele. Pegou da carabina e... pás! Quando foi ver, estavam dois estendidos, tava um ao lado do outro. Varou-os. Quando chegou lá, Olha, são dois. Foi bala de carabina. É uma bala que é uma coisa assim!. Eu também as tenho lá em casa.
- O porco mata-se é com zagalote. Com zagalote é que é! E não soubeste do rapaz, no topo das Necessidades? Há uns meses, pr'aí. Ficou todo esfacelado mas é, e mota foi p’á sucata. Bateu num e ia-se partindo todo."
- Às vezes tou na minha casa, lá no [...], e é um zumbido de balas, que faz favor. O [...] organiza montadas, e estão os homes no mato, nos esconderijos, ou nos postos ou lá o que é, à coca da saída das varas. Quando os cães começam a correr para os porcos, é só tiros por todo o lado. Não dá para dormir a noite toda!
- Parece qu'agora a licença é todo o ano, p'rós porcos.
Após um silêncio:
"O cunhado do [...], quando foi isto do apagão, dizia que vinham aí os russos. O gajo queria ir para a serra qu'a gente tinha lá as armas. Olha, pera aí, a gente pega na G3 e limpa os russos todos. Isto não há luz, eles vão atacar...
- A outra também dizia que o apagão era os russos que já tavam a invadir a Alemanha. Eles andaram p'raí com os navios à procura dos cabos da internet, isso andaram. Vamos a ver s'isto do apagão não tem mão deles. Se calhar é um aviso, é os russos a fazer testes!
- Sim, isto pode ter sido um ataque que apaga a luz! Eu ouvi dizer que foi. Ouvi tanta coisa. O que é que eles ainda não disseram que não foi?
Como é que a conversa, que girava em torno dos javalis, passou tão imperceptivelmente para o “apagão” e para o “perigo dos russos”? Terá sido a ideia de invasão? Afinal, os javalis, que andavam extintos há muitas décadas, ressurgiram e têm-se multiplicado na serra. São “porcos”, mas “porcos selvagens”, que roubam, destroem, danificam, e contra os quais, como ucranianos em trincheiras, os caçadores disparam. As histórias locais, os rumores sobre os javalis, entrecruzam-se com as notícias do mundo, e os ecos do tiktok. Elias Canetti, no seu livro Masse und Macht, categorizou as multidões pelos seus impulsos emocionais: de caça, de fuga, de festa. Ali no café, porém, estas categorias fundem-se numa tessitura ambígua. Canetti via na caça um acto de união, mas aqui, a cacofonia de métodos e motivações revela uma ansiedade difusa, onde o verdadeiro alvo não é o javali, mas o espectro da desordem. Do inimigo tangível a conversa derrapou para o inimigo intangível, o fantasma geopolítico, o espectro da Guerra Fria redivivo em tempos de fake news. A preparação para “limpar os russos” com G3, como se fossem a personificação de javalis, é uma narrativa líquida, nas palavras de Zygmunt Bauman.
A genialidade perversa destas "multidões discursivas" reside na sua capacidade de metabolizar ansiedades estruturais (o declínio rural, a dependência tecnológica) em inimigos palpáveis. Os javalis que reviram caixotes de lixo personificam a rebelião da natureza contra a domesticação da serra. Já os russos, cortando cabos no fundo do mar, encarnam o medo do invisível, do que sabota à distância. Ambos funcionam como bodes expiatórios metafóricos, absorvendo culpas que ninguém ousa nomear. A análise, porém, esbarra numa contradição. Para Canetti (e para Sereny), a multidão requer proximidade física, densidade corporal. Na Arrábida, porém, a “multidão” é etérea, dispersa em conversas de café, posts de Facebook e sussurros nas esquinas. É uma multidão que enlouquece não pela partilha de espaço, mas pela circulação de rumores.

Jornal de Azeitão, Junho 2025
O Público, 28 Maio 2025

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conversa ao espelho

24/1/2026

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Olhei-me ao espelho e perguntei: “espelho, espelho meu, como é escrever como eu?” Explico-me: “fui ao Chat”. A tentação que é “pedir-lhe” que pense por mim é o princípio da mais global pandemia que o mundo dos humanos alguma vez experimentou. E foi isso mesmo que fiz, agora mesmo: introduzi na linha de prompt: “escreve uma crónica para O Público mais ou menos críptica, com uma nota de humor final. Escreve em português europeu, não brasileiro, e no estilo de Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”. Se é verdade que o algoritmo deste “modelo de linguagem grande” (LLG, o nome técnico do que, para efeitos de marketing, nos é impingido como “inteligência artificial”) modela o “estilo Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”, então devo uma sentida desculpa aos meus dois ou três incautos leitores porque parece evidente, pelo resultado obtido – em segundos –, que a minha escrita é banal e entediante. Não há dúvida que o texto obtido é competente, gramaticalmente correcto (valha-me Deus), e o argumento relativamente escorreito, embora sinuoso. “Pedi-lhe” de seguida que analisasse o texto que produziu: aparentemente, o meu espelho fantasma escreveu num “estilo marcado pela reflexão filosófica, poética e misteriosa, imbuída de uma linguagem profunda e cheia de simbolismo”, promovendo a ideia de que “questões como ‘Será que, na tentativa de percebermos o que é realmente importante, não estamos a perder tudo o que importa?’ são questões que destacam a inquietação de um mundo cheio de incertezas”; explorando a “contradição e a incerteza” numa “linguagem poética e ritmada”, o texto exprime uma “musicalidade peculiar” que encerra com uma nota de humor irónica”. Em resumo, “o tom é denso e multifacetado, mas também há uma leveza no final, que traz uma perspectiva humorística à seriedade da reflexão anterior.”
Se lhe “pedirmos” que produza uma versão surreal da sua interpretação do seu próprio texto, após criar dez versões progressivamente absurdas, arriscamo-nos a receber como resposta algo como: “O rio não existe, o sol já se apagou, mas ainda se sente. O mercado vende silêncio e nuvens que caem para cima. A moeda é feita de tempo perdido e o riso vem da ausência. As sombras dançam com as coisas que nunca foram, enquanto o abismo se engole a si próprio. Estamos todos a rir daquilo que nunca aconteceu e a procurar o nada numa rua que já não existe. O ciclo é o fim de uma linha que nunca começou.” Se lhe pedirmos que continue a transformar-se usando os princípios da patafísica e pelo menos um constrangimento oulipiano (repetição de vogais, por exemplo), e fabrique uma quadra e uma equação não-euclidiana no final, isto é um resultado possível:
Vento onde as sombras se enredam,
o riso repete-se, lento, e treme.
Sol sem eco, sem vida, desmedido,
nuvens, umbigos do céu, esfraldam.
Equação Não Euclidiana com Repetição de Vogais: 𝑉 + ( 𝑉2) = (𝑁)1+(𝑁−2)
Em que:
𝑉 = Vogal do vento, o que se arrasta.
𝑁 = Nuvem num ponto de curvatura excessiva.
 
É de prever que em menos de cinco anos, vai ser impossível distinguir a escrita humana da escrita por LLM, e que entraremos definitivamente na era da escrita artificial, da exteriorização-esvaziamento da mente individual. Será um apocalipse da cultura o nascimento glorioso de um mundo pós-humano? Não faço, claro, ideia e o “Chat” também não, por enquanto. O que sei é que, de cada vez que uso o prompt e lhe “peço” que produza um texto (ou uma imagem fixa ou animada, uma canção, etc.), estou a despender algo como 0,5 kWh por resposta, contra os 0,003 kWh que custa uma busca num browser da internet. Uma interacção com o “Chat” tem um custo ambiental de 0,02 kg de CO2, significativamente maior que uma interação simples num browser: 0,002 kg de CO2. Multiplicando por biliões as interacções com LLMs, à medida que eles se substituem às consultas em browser, a pegada ambiental das infraestruturas de servidores é hoje já equivalente ao do conjunto de veículos automóveis com motores de explosão (gasolina e gasóleo): bastam dez a vinte interacções simples com o “Chat” para produzir tantas emissões de CO2 quanto as de um automóvel a gasolina por km (0,12 kg de CO2).
A consequência deste estado de coisas é que as grandes companhias que operam as infraestruturas de dados digitais se encontram numa inesperada corrida à construção e reabilitação de centrais nucleares, como única solução rentável para o problema energético com que se confrontam. O paradoxo inerente às políticas de sustentabilidade ambiental e à retórica da transição energética não podia ser mais estarrecedor. Mas, como sabemos, as políticas ambientais portuguesas conseguem ser ainda mais patafísicas que a interacção que descrevi acima: o governo central declara ufano que Portugal é já hoje “um hub de interconexão de dados global”, esquecendo-se convenientemente de informar o país, e os cidadãos consumidores de dados e de electricidade, que os chamados data centres instalados e a instalar irão consumir a quase totalidade da capacidade hidroeléctrica do país; para remediar a esperada penúria energética, cobrir-se-ão as poucas terras férteis do país com parques de painéis solares, eclipsando assim qualquer aspiração a um mínimo de segurança e soberania alimentar.
Tendo em consideração que o surrealismo  ambiental é especialmente inventivo na área protegida do Parque Natural da Arrábida, que alberga há anos uma cimenteira e várias pedreiras no seu território, não me admiraria se um dia, no perímetro do Convento da Arrábida, fosse instalada uma central nuclear com o propósito de alimentar o triunfal projecto de criação de um “Chat” português.
Bem nos podemos olhar ao espelho. O reflexo é um monstro.

(Nota: este texto não foi corrigido pelo ChatGPT)

Jornal de Azeitão, Janeiro 2024 ​
O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 20 Janeiro 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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Festarolas

27/3/2025

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No seu livro Os Jardins de Adónis, o historiador-antropólogo Marcel Detienne relata que, durante o solstício de Verão, os jovens atenienses ofereciam às suas amantes-amadas tabuleiros de ervas aromáticas a que chamavam, precisamente, “jardins de Adónis” em memória da lenda do amor entre o belo Adónis e a deusa Atenas. Proeminente entre essas ervas era o manjericão que, como sabemos é a erva rainha da cozinha mediterrânea. 
Durante a Idade Média, desenvolveu-se na Península Ibérica o hábito de os jovens oferecerem pequenos poemas amorosos às suas amadas acompanhados de uma pedra semi-preciosa, um tipo de granada avermelhada conhecida como “piropo” (do grego pyropos, “flamejante”). À medida que o culto e as festas de Santo António se começaram a sobrepor em popularidade à procissão do Corpo de Deus, que era a festa mais antiga e mais pomposa de Lisboa, estabeleceu-se o hábito de os jovens alfacinhas fazerem poemas às suas namoradas-noivas, acompanhados de um manjerico envazado. 
Em Córdova – e diz-se que também em Toledo -, a prática ancestral da decoração dos pátios comuns com flores e ervas aromáticas deu lugar, nos anos trinta do século passado, a um processo de folclorização e oficialização que redundou nos concursos para premiar o melhor pátio da cidade. Semelhante processo se deu com os arraiais dos largos do casco antigo da cidade de Lisboa, onde as decorações com flores de papel (um gosto desenvolvido durante o séc. XIX) se espraiaram em concursos de marchas populares oficializadas pela propaganda do Estado Novo, por iniciativa de António Ferro e do então presidente do município lisboeta Duarte Pacheco. 
Quem hoje compra um manjerico no supermercado durante as “festas de Lisboa” – uma reconceptualização do Santo António que muito contribuiu para a gentrificação da cidade velha e para a sua mercantilização para o consumo turístico internacional – não tem de se perguntar de onde vem tal hábito. Faz-se assim porque sim, e para que a tradição se mantenha e reinvente há que não a interrogar demasiado. 
Como tinha de ser e porque não há melhor que fazer, percorri este Verão as festas da região: a de Vila Fresca, a de Vendas, a de Vila Nogueira, e as de Coina a Velha e Pedreiras. Estas últimas, por sinal, coincidiram este ano porque a procissão a El Carmen foi antecipada). Quem opina publicamente tem uma grande responsabilidade, que vem com o poder de abusar do dever de estar calado. Por isso, hesito em dizer o que vou dizer (mas digo na mesma, esperançado em que ninguém esteja a ler estas palavas, aborrecido que ficou com o início do texto): a festa de que mais gostei foi a das Pedreiras porque é a menos gentrificada de todas; sem polos, calções e sapatos de vela, sem topes descascados e leggingues angustas, sem filas intermináveis para a ficha da cerveja, e um bilião de carros mal-estacionados nas bermas e valados. 
A festa de Nossa Senhora da Conceição, em Coina a Velha, já foi assim (na era A.C, Antes do Covid): pacata, com acordeonistas e casais dançantes, rifas de bibelots de cerâmica industrial que assim circulavam de casa em casa, e de família em família. Hoje em dia, transformou-se, como a de Vila Nogueira e outras, em versão miniaturizada das “Festas de Lisboa”, descaracterizada romaria que pouco mais oferece que batida do kuduro e borracheira de cerveja. É provável que o mesmo venha a acontecer à festa das Pedreiras, mais ano, menos ano. Mas, por enquanto, ainda oferece o prazer da viagem no tempo, o tempo em que as festas azeitonenses eram pacatas, tinham casais dançantes e rifas de bibelots. 
Ouvi dizer que, como em anos anteriores, os novos donos do palácio e convento d’El Carmen, nas faldas da serra, quiseram impedir a procissão e convívio que fecha a festa das Pedreiras, junto à igrejinha de Nossa Senhora d’El Carmen. Mas, interessante afirmação do direito comunitário do povo comum, os portões tiveram de ser abertos à passagem do andor, a igreja abriu-se para receber a santa, o acordeão tocou, e o piquenique aconteceu. No altar-mor da igreja seiscentista, lá estava a Senhora d’El Carmen cheia de notas de cinco euros na vestimenta, a cópia processional trazida das Pedreiras com o Menino cheio de anéis de ouro e pendentes de cérebro de corvina e, no altar lateral esquerdo, mais modesta e mais gótica, a santa original: a Nossa Senhora da Pinha. 
Conta a lenda que o seu milagre foi ter, ali no arvoredo da falda da serra, impedido um marido ciumento de matar a sua mulher adúltera, lançando-lhe uma pinha para a mão que segurava o punhal, quando ele preparava para desferir o golpe. Conta a história que as festas da procissão eram tão licenciosas que, no séc. XVIII, foram proibidas pelas autoridades eclesiásticas azeitonenses. Ninguém liga muito à Senhora da Pinha e fazem bem em esquecê-la, porque a tradição é assim mesmo.  Mas a imaginação cavalgante dos antropólogos exegetas não se consegue impedir de ver fios e laços a ligar o Verão às licenciosas intenções dos amantes atenienses, aos jardins de flores e ervas aromáticas, aos piropos medievais que a censura do politicamente correcto veio proibir, às noivas de Santo António e manjerico, à bebedeira e ao milagre algo malicioso da Senhora da Pinha. 

Jornal de Azeitão, Setembro 2024 ​ 
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O que está por baixo

24/3/2025

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​“Senhor Manuel! Venha aqui que eu quero comentar uma coisa. Já estava para lhe dizer isto há um tempo... Já reparou que ali depois da curva da oliveirinha foram tapar a boca de incêndio onde os ciclistas costumam parar para beber água na subida? Agora cimentaram aquilo, que deve de ser por causa da nova plantação dos que compraram o terreno baldio, dizem que é para vinha, mas as estacas são muito altas e os rebentos que lá estão são vermelhos, há-de ser outra coisa. O certo é que por baixo da pedra basta raspar um bocadinho e começa logo a subir a água, aquilo está ali uma obra mal feita!”
Calhou bem a conversa com a minha vizinha, agora mesmo. Eu estava para falar desta coisa que é raspar um bocadinho a superfície da pacatez aparente da vida na vila para descobrir um subterrâneo mar revolto. É ponto assente não se falar publicamente das dores e do sofrimento das vidas perdidas ou desgraçadas pelos desastres de mota que assolam a região, como o é não questionar o porquê do culto das quartas-feiras à noite que chama à vila chusmas de motoqueiros de aquém e além Coina. E, no entanto... basta raspar um bocadinho a face triste de pais, mães e irmãos, e lá está a memória de lutos mal resolvidos, o trauma de viver com uma dor que não desaparece, o enigma de um Deus que não responde às perguntas que assaltam a consciência.
E no entanto... basta dar o passo certo na direcção da empatia e partilhar. Não é coisa que azeitonenses, que portugueses no geral, diga-se, tenham por hábito fazer – que o hábito é o contrário: calar, reprimir, silenciar. Não é que eu esteja a advogar sermos como não somos, fazermos como não fazemos, só porque lá fora se é ou faz assim. Mas não faz mal nenhum trazer o assunto à baila da consciência, que pelo menos estamos avisados que somos e fazemos assado e não assim.
A serra é a mesma coisa: a pacatez feita suave rocha coberta de ralo manto vegetal. Mas raspe-se um pouco a superfície e logo saltam à vista casarões construídos com licenças mais que dúbias, querelas de extremas e abusos de posse; detestações familiares amamentadas de geração em geração; arreigadas desconfianças do que vem de fora, que hoje em dia suplanta já o que vem de dentro.
Raspar, raspo pouco, que sou discreto e nada inquisitivo. Mas, se ouço o que ouço, à mesa do café ou na curva do caminho, fico como a Virgem que, tendo concebido, pode continuar virgem mas não pode deixar de ter concebido (eu sei, é um aparte erudito: São Tomás de Aquino dixit, a páginas tantas da Summa Theologica). E, como não sou como Tomé, o Dídimo, acredito em tudo sem ter visto, porque sim. Acredito nas fantásticas histórias dos helicópteros que cirandam na serra e depositam caixotes de droga que são logo enterrados nas fragas, nos casinos ilegais onde se faz mais dinheiro que no Estoril, nos bandos juvenis que nunca são apanhados em flagrante assalto pelos militares da GNR, nas armas automáticas com silenciador que chegam à península por via de Odessa, na coca que está a suplantar a heroína na rebaldaria das festas nocturnas que, na profundeza dos vales arrabidinos, unem estrelas das novelas, futebolistas e acompanhantes de origens variadas. Acredito em tudo como o jornalista do filme The man who shot Liberty Valance – quando James Stewart lhe pergunta se vai publicar a verdade, ele responde com uma máxima que se tornou lenda: “This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend”. Raspar, sim, mas não demais.
 
​Jornal de Azeitão, Agosto 2024 

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O interregno

21/3/2025

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Não é coisa de todos os dias, subir a Serra da Arrábida palmilhando o carreiro que leva dos Picheleiros ao Alto do Formosinho. Com as pernas a doer, o coração a latejar e o fôlego a mingar, aqueles últimos metros que nos separam do cume testam o corpo e desafiam a vontade. A recompensa, entretanto, é valiosa e inolvidável. Lá em cima, entre o rochedo, o mar e o céu, podemos em paz fazer a paz com o mundo, lembrando a lição de Frei Agostinho da Cruz:
Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.
Ao fundo da longa estreita língua de terra arenosa, vislumbra-se em dia claro a ponta de Sines. E quem diria que ali, naquela ponta, naquele bico, os impérios do mar chocaram um dia tão desalmadamente com os impérios da terra? Meta final da laboriosa Nova Rota da Seda (Yidai Yilu, no original chinês) que atravessa a vastidão da imensa Eurásia, Sines é, também, a porta aberta à penetração do poderio marítimo anglo-saxónico na massa da “Ilha-Mundo”, na expressão de Harold Mckinder, o inventor britânico dos estudos de geoestratégia.
Foi há coisa de oito meses que, em drama farrusco e embaçado, se demitiu um primeiro-ministro, caiu um governo, e terminou uma legislatura. Com meia dúzia de escutas e envelopes de dinheiro escondidos numa qualquer estante, se fabricou o que aparentava ser uma farsa canhestra, mas na realidade foi um magistral passe de mágica com a força de mil Oudinis. No essencial, a intriga ditou que, em voz muito alta, se invetivassem políticos, se esgrimissem insultos e se escavassem suspeitas, para que o inocente público não visse, não apercebesse, a clamorosa batalha de titãs que se travava entre interesses multinacionais contraditórios em torno de fontes energéticas críticas, plataformas logísticas de transporte e redes de transmissão de dados. Como se fora o mostrengo de Pessoa, tinha subido à superfície da ponta de Sines um Golem, amálgama disforme feita de lítio, LNG, hidrogénio e fibras ópticas ostentando, tal Janus, duas faces antitéticas: uma oriental, e a outra ocidental, cada uma querendo comer a sua contraparte. E, maravilha das maravilhas, o magno manto da prestidigitação cobriu o monstro da cabeça aos pés de barro, e fê-lo esvanecer-se perante os nossos incrédulos olhos e apagar-se da nossa apequenada memória colectiva.
O restolhar excêntrico das ondas que se propalaram do remergulho do Golem na baía de Sines terá certamente atingido, ao de leve, o areal da praia do Creiro, cujo recorte em meia-lua se vislumbra a partir do quebrado marco geodésico do Alto do Formosinho. Mas o mar está manso, o ar é meigamente salgado e, lá ao fundo, a vila de Sines parece ter retomado a sua pacatez centenar. A muda paisagem conversa connosco aqui no cume da serra; sob o céu benevolente, o diálogo silencioso entre a fixura ctónica e o fluor pelágico ensina-nos a degustar o interregnum de que falava Gramsci, aquele longo momento em que o mundo velho definha e o novo aguarda por nascer.
O Portugal contemporâneo – que o era já na prosa das Farpas – é o lugar onde a crise assentou com tal conforto que se fez crónica. E, como nos “interregnos”, culminares de estados de crise, despontam sempre neutrões oportunistas, o nosso bojo tem sabido expelir para o mundo, nas últimas décadas, vários ínclitos personagens, que Eça e Ortigão designaram um dia como “Eleutérios”, gente que, tendo evidenciado sábia incompetência, era agraciada com postos sempre mais elevados na fazenda real. Salutar doutrina esta, que determina que um primeiro-ministro que tropece antes da meta e não complete o mandato da legislatura seja alçado a cargos de relevo internacional. Para um Eleutério, nenhum cargo é inalcançável: Durão na presidência da Comissão Europeia, Guterres como secretariado-geral das Nações Unidas, e agora Costa no Conselho Europeu… Mas a história recente também conta que o país produz génios para os quais nenhum cargo mundial é sapato suficientemente largo para a grandeza do pé: a estatura de um José Sócrates ou de um Pedro Santana Lopes é de tal munificência que as instituições internacionais não puderam ainda inventar agraciamento suficiente para os acolher.
Era nestes mistérios místicos da natureza humana que eu cogitava absorto, acariciado pela brisa marítima no cume da Arrábida, quando de súbito senti nas narinas abertas uma baforada de fish and chips.

 Jornal de Azeitão, Julho 2024 
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Os “estrangeiros”

4/6/2024

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De uma conversa de café:

“Eles [os estrangeiros] vêm para cá cheios de massa e compram as melhores quintas. E quando morrerem, como é que vai ser?  Vai voltar tudo à mesma, na é? Que os filhos deles não vão querer saber disto aqui.”

A palavra “retórica” tem, ao longo da sua longa história, recebido imerecida má fama. Talvez porque Platão, supostamente seu pai, a concebeu como epíteto insultuoso no diálogo Górgias. Rhētorikē, dizia, era o discurso lisonjeiro e persuasivo que ele atribuía ao grupo dos fi lósofos sofi stas a quem se opunha. Comparava-o às artes culinárias que mascaram o mau alimento com sabores apetecíveis. Nascida com tal fardo, múltiplos foram quem, desde o seu discípulo Aristóteles, a procuraram redimir, sobretudo evidenciando a importância do seu estudo como técnica argumentativa.

Sendo a argumentação inerente à expressão verbal do pensamento, compreender o seu escopo, entender as suas possibilidades e variações, e prevenir as suas falhas – as falácias – são as bases essenciais de qualquer interpretação, análise e crítica da comunicação humana. A retórica é, portanto, simultaneamente uma arte (a arte da persuasão) e uma ciência (o estudo da argumentação). Sendo assim, em tal perspectiva, não se limita à oratória, mas infi ltra toda a acção social humana. Formular bons argumentos é um passo vital para uma persuasão saudável – porque a rhētorikē é aliada do logos –, assim como saber identificar maus argumentos é a primeira linha de defesa contra o abuso do psevma (inverdade).

Tristemente, nem a oratória nem a análise argumentativa merecem acolhimento nos programas educativos em Portugal, do ensino básico ao universitário. Um minuto de visionamento do canal Parlamento ou de qualquer debate e comentário político tornam claro que a classe política lusa, espelho aumentado da nação, não tem qualquer preparação ou inclinação para formular argumentos, contrapor ideias, modular discursos, de forma elegante, persuasiva e coerente. Seja na política, nos tribunais, ou nas conversas de café, o diabo da falácia esvoaça livremente, reinando incontestado sobre a comunicação verbal. E, tal como acontece com a palavra falada, também a escrita portuguesa não se sabe submeter ao rigor do entimema. Qualquer historiador diplomado da literatura comparada poderá confirmar que as letras portuguesas são um deserto onde o bom tropo não medra, e que o Padre António Vieira não foi exemplo, mas antes foi solitária excepção – se ele foi o “imperador da língua portuguesa”, foi-o na total ausência de súbditos e seguidores.

Vem tudo isto a propósito de duas coisas. Sendo eu o pior dos etnógrafos, raramente me engajo em interacções sistemáticas com informantes nativos que me permitam extrair informações relevantes com valor heurístico, sobre matérias sócio-culturais. Mas, ainda assim, não perco ocasião para “me pôr à conversa” com gentes locais, e ouvir com atenção e deleite o seu fluir discursivo, entremeado como está habitualmente de falácias, umas óbvias, outras subtis. São, frequentemente, parte de um processo de averiguar, sem pretender ser conclusivo, a validade do anteriormente aprendido. Um tópico que ressurge cada vez mais é o do “estrangeiro”. Ele são os “franceses”, que se instalam na vila e se reúnem na patisserie; os “holandeses” que preferem as aldeias e as hortas, os “suecos” e “americanos” que exsudam ouro, e por aí fora. Cada episódio anedótico sobre a presença dos “estrangeiros” nas terras azeitonenses vem complementar outros dez, e ajuda a medrar novas ideias feitas. De algum modo, os “estrangeiros” são um pouco como os monstros dos bestiários medievais: na sua etimologia, o termo “monstro” é significa “mostrar” – os “monstros” eram (e são ainda) imaginados como o espelho que se encontra para além dos limites da normalidade humana. A imaginação azeitonense do “estrangeiro” tem a mesma qualidade: é uma possibilidade retórica renovada em cada conversa, um tropo que ajuda a determinar a identidade sempre escorregadia do que é ser nativo.

A generalidade dos epistemólogos das ciências sociais olha para os métodos e resultados do labor dos antropólogos com medidas várias de desconfiança. Irrita-os a repugnância destes em relação aos métodos quantitativos, a sua tendência para o barroco literário, o gosto de circular braviamente entre o infinitamente pequeno e local e o grande modelo explicativo. Sem me querer estender aqui sobre o tema, direi apenas que duas das fórmulas argumentativas preferidas da escrita em antropologia são a “comparação” e a “ilustração”. Sendo que a primeira assenta sobre um dogma virtualmente indemonstrável, que é o de que é possível comparar o incomparável que são as múltiplas variações da vida social, a segunda é um pecadilho sem perdão, que supõe que a informação proveniente de uma conversa com um “nativo” pode magicamente ser convertida em asserção de natureza indutiva com valor geral. Os antropólogos são useiros e vezeiros nesta prática: recolher asserções “no terreno” e assentar nelas teses abstractas, sem se preocuparem com a falácia óbvia que é inerente a tal processo argumentativo.

Ainda bem que me reconheço como fraco etnógrafo. Caso contrário, poderia tentar-me a concluir coisas completamente disparatadas sobre o modo como os azeitonenses vêm os “estrangeiros” que por cá se instalam. Mas a pergunta em epígrafe não deixa de ter interesse – retórico, pelo menos.

 Jornal de Azeitão, Março 2024
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Ocupação selvagem

4/6/2024

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Faz semanas, pela tarde, num caminho que meandra mais ou menos paralelo à estrada do Parral, ouvi um piar no pinhal – um piar que era mais um assobio assoprado, como de gato assanhado. Não tenho dons de ornitólogo, nem vocação de bird-watcher, mas suspeitei que fosse de cria de coruja. Como cheguei à suspeição, não tenho bem ideia; não sou fã de programas televisivos sobre o mundo natural, nem faço por guardar registo fonográfico de sons de aves. É verdade que, nas minhas caminhadas, vou inconscientemente retendo a profusão de piados, chilreados, cantos e ululares da multitude de espécies de pássaros que têm conseguido sobreviver à omnipresença da praga planetária que é o ser humano. É verdade também que tenho amigos adictos à observação da fauna de tetrápodes avianos, mas não faço por resumir as minhas flanagens florestais ao propósito de classificar plumagens, formas de bico ou desenhos de vôo. O certo é que meti na cabeça que tinha ouvido uma coruja-bebé a chamar pela progenitura.
 
Não terá sido imaginação despropositada. Salta aos olhos – e aos ouvidos – que a fauna ornitóidea arrabidina tem, mal ou bem, resistido aos tiros de caçadeira, aos gases automóveis e à crescente mancha de cimento e tijolo que a assola. Não é como agulha em palheiro o achamento de melros, gaios, piscos, rabirruivos, cotovias, rolas, perdizes e abelharucos; ou de falcões, gaviões, bufos, noitibós e corujas, e, se preferirmos as escarpas e as praias, de gaivotas, maçaricos, mergulhões e cagarras. Mal nos afastamos do bulício urbano e da zoeira dos motores de combustão, mal o manto da desarmonia humana dissipa, logo retomam os cantares dos passeriformes – no fundo do jardim, para lá dos arbustos, ou sob a copa das árvores.
 
Nunca assisti à folclórica visitação das varas de javardos à praia de Galapos, mas posso atestar – por ter visto em primeira mão – que há na serra raposas, gatos bravos, sacarrabos, genetos e doninhas, andorinhões, bufos, peneireiros e até uma outra rara águia de Bonelli, ouriços, cobras rateiras e víboras cornudas. Isto fora a legião de piscos, melros, e carriças.
 
Não é todos os dias, contudo, que nos deparamos com certos ninhos. Há semanas atrás, quando, pela tarde no bastio do vale do Parral, levantei os olhos na direcção da origem do piar que surpreendi e me surpreendeu, deparei com uma colossal e inaudita estrutura de galhos bem no topo de um pinheiro-bravo. Era o ninho de onde o piar assoprado provinha, um ninho visivelmente vetusto e musguento, com vestígios de várias reparações. Ora, sendo que a coruja das torres, a mais comum na zona da serra, é uma ave oportunista, que em vez de fazer ninho se aproveita dos que encontra abandonados, e considerando a dimensão daquele alcandorado nas ramagens da conífera, a conclusão óbvia impôs-se-me: tinha encontrado um velho ninho de águia.
 
Uma vez por outra, é possível avistar, planando nos céus da Arrábida, uma águia de Bonelli. Mais comum, claro, são os falcões e gaviões, e agora mais que há uns anos corvos negros. A presença de um seu ninho abandonado em zona de vale diz, ao amador pelo menos, que o alimento, antes suficiente para que ela ali se fixasse, agora escasseia. Tal como o silêncio dos canários na escuridão das minas sinaliza que o ar está impregnado de monóxido de carbono, o piar de uma coruja-bebé num ninho feito por outrem merece ser tomado, não tanto como garante da saúde da floresta, mas como sintoma de doença grave. Razão de sobra, portanto, para que quem se toma por amante da natureza se abstenha de fazer passeios pela serra.


 Jornal de Azeitão, Fevereiro 2024
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A arte da observação participante

4/6/2024

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Nos dias finais de 2023 dediquei-me a fazer um levantamento etnográfico nas imediações dos contentores de lixo de Azeitão e arredores. Por efeito de problemas mecânicos e burocráticos do sistema de recolha de resíduos dos serviços autárquicos (aparentemente porque vários camiões avariaram e não puderam ser reparados de imediato), os contentores de lixo deixaram de ser esvaziados com regularidade e todo o tipo de objectos indesejados foi acumulando em seu torno, causando forte impressão visual e olfactiva em quem por eles passava. Não houve qualquer comoção, revolta ou manifestação de desagrado colectiva. Entredentes, aqui e ali, ouvi comentários, geralmente curtos e pouco abonatórios sobre a situação, o que não desincentivou ninguém, claro, de continuar a dar o seu contributo pessoal diário para a acumulação de lixo junto aos contentores.
A listagem, por categorias, dos objectos que se acumularam nesses dias junto aos contentores, em Vila Nogueira, em Vendas, nos Brejos, em Oleiros, ou na Piedade, é longa e não a vou reproduzir aqui. Por outro lado, admito que me foi difícil estabelecer um quadro completo dos actos de reciclagem – de recuperação de objectos descartados – dado o seu carácter furtivo (quem retira de um monte de lixo um objecto que considera não-lixo tende a fazê-lo de forma discreta, para não se tornar objecto de crítica social e ser, assim, “descartado”).
Mas é, ainda assim possível fazer algumas considerações sobre os modos de vida, a variedade dos gostos, a capacidade económica das populações nas várias localidades. Naturalmente, para que a investigação possa ter valor heurístico será necessário proceder de forma mais sistemática e prolongada no tempo – o que implicará a redacção e candidatura de um projecto de estudo a uma entidade financiadora, já que o trabalho amador, não remunerado, é hoje em dia visto como suspeito pela comunidade científica e os seus resultados sejam, por isso, “descartados” como lixo indesejável.
Um dia, talvez, coligirei os resultados do meu levantamento etnográfico junto dos contentores de lixo de Azeitão, e até os poderei publicar caso haja um editor com visão e também previsão de que o público leitor terá interesse no tema.
 
Em antropologia, ao contrário do que se pode pensar, os inquéritos de terreno não se limitam ao inquérito e entrevista de informantes. A chamada “observação participante”, popularizada por Bronislaw Malinowski e pelos seus discípulos britânicos para designar os métodos imersivos de recolha etnográfica, é um termo inicialmente concebido pelo americano Edward Lindeman em 1924. Como método de estudo, a sua história precede a fundação da antropologia: viajantes e exploradores praticaram-no desde tempos remotos. Já o Barão de Gérando escrevia em 1800, no seu Considérations sur les diverses méthodes à suivre dans l’étude des peuples sauvages, que “a melhor maneira de conhecer os índios é tornarmo-nos como eles; e é aprendendo a sua língua que nos tornamos seus concidadãos”. A “observação participante” tem sido erigida em mais que um método de estudo; tornou-se como que uma iniciação mística, uma porta de entrada do antropólogo nos segredos profundos da vida cultural das populações que estuda. Como tal, supõe que se valorize não apenas o conhecimento transmitido verbalmente, mas também – e talvez sobretudo – os saberes e os hábitos colectivos que não chegam à consciência e não necessitam ser expressos através das palavras.
O estudo aturado das técnicas que as populações desenvolvem para se desfazer do dejeto, do lixo, do resíduo, do remanescente, do tornado desnecessário, requer o que o antropólogo Tim Ingold designou como a “arte de prestar atenção”. Estarmos disponíveis para observar, apreciar, examinar, e simultaneamente atentos à nossa própria posição como parte subjectiva do todo em que imergimos, é um importante requisito para a compreensão dos hábitos culturais relacionados com a materialidade dos objectos, e com os processos de selecção do que é de reter e preservar, e o que é de descartar, de abandonar, de excluir, de rejeitar.
As minhas observações dos contentores e seu entorno suscitam uma questão epistemológica fundamental: dada a ubiquidade, variedade e infinitude do lixo produzido pela comunidade azeitonense, que imagino não seja manifestação única no país, é de nos perguntarmos se não estamos perante um acto performativo de natureza artística. Com efeito, o modo como cada habitante contribui individualmente para a modelação de um monte de lixo colectivo implica uma intenção, uma vontade de participar num acto de harmonização escultórica colectiva que – quando, por sorte, os serviços camarários deixam de fazer a sua recolha diária – se revela em toda a sua glória estética. Toda Azeitão pôde, durante algumas semanas, apreciar – gratuitamente – uma muito interessante exposição de arte popular espontânea que, no meu ver, competiu dignamente com as melhores mostras de arte plástica internacional.
E eu orgulho-me de nela ter participado activamente, fiel aos requisitos do método da observação participante em antropologia.
 
 Jornal de Azeitão, Janeiro 2024
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Redução a pó

4/6/2024

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 Habituei-me, nestas páginas, a reportar instantâneos de Azeitão, vila, freguesia e região; a relatar impressões sobre rituais do presente e memórias do passado, a partir do que vejo, ouço e leio.
 
Vou procurando acompanhar, tal astronauta, as labutas, as festividades, e os diz-que-disse de quem por cá vive, por cá passa e, por vezes, quem trespassa. O casario, as pedras, árvores e caminhos têm histórias para contar, e faço-me disponível para os observar e tentar compreender. Diverte-me inquirir os sinais fugazes de passados longínquos, que se manifestam em coisas que se dizem, em pedras que se preservam, e espaços que se sacralizam. Séculos, milénios, de vidas vividas, aspirações, esperanças e desenganos, engajam-nos, inspiram-nos e assombram-nos como fantasmas imateriais.
 
Trazê-los à vida e dar-lhes sentido, convocando-os pela palavra, é ajudar a dar-nos a nós mesmos sentido.
 
Ao admirar a serra, ao apreciar o arvoredo, e ao perscrutar os vários estratos da mancha urbana construída, cismo frequentemente sobre o que restará do passado e do presente no futuro. Há por aí pedras seculares que nos prometem perseverar caso a mão da natureza ou da iconoclastia não as derrubem abruptamente. Há árvores e geografias que, tendo muito presenciado, se mostram disponíveis para continuar sendo testemunhas mudas e paradas do fervilhar da vida em sua roda. E há provérbios e narrações que, escritas ou contadas, nos irão sem dúvida sobreviver. Mas, e tudo o mais? Quanto do que julgamos hoje ser tão importante e valioso estará cá depois de depois de amanhã?
 
O século XXI não reverteu, antes reforçou, a natureza efémera do que marcou a acção humana no século anterior. Somos muitos, muitos mais do que éramos antes, a reclamar o direito a bens materiais, e a um módico de conforto. Uma exigência colectiva que a ideologia do consumo de massas abraçou e exponenciou. O tempo da contemporaneidade – do hoje – é o da produção imparável de lixo – que é o estado final dos desejos, aspirações, produções, aquisições, transações de coisas materiais. Um carro durará 15 anos com um pouco de sorte, uma casa feita de cimento 75. O plástico degrada-se a partir dos 7 anos. O asfalto soçobra aos 30. As telhas – se não forem em placa sanduiche – durarão muito mais, mas quem quer um telhado sem casa por baixo?
 
De património físico, os nossos antepassados deixaram-nos muito pouco, para além do que os ricos e poderosos quiseram que ficasse: paços senhoriais celebrando a assimetria social, igrejas opulentas consagrando o poder do sacerdócio, caminhos consolidados com o suor e o sangue do povo e das muares. Deixaram-nos também intocado o gentil recorte da serra da Arrábida. E nós, que vamos deixar para quem – se é que alguém haverá – nos sobrerrestará? Vidros partidos, estradas esburacadas, paredes arruinadas pela degenerescência do cimento, microplásticos omnipresentes, invisíveis a olho nu, e uma serra ferida de morte por cimenteiras e pedreiras que – como o carcinoma explosivo – se alastram pelas encostas e reduzem a pó a pedra do tempo dos dinossauros e das conchas marinhas. E, por seu lado, a voragem das redes sociais, o tumor da internetização da comunicação humana, reduzirão sem dúvida a pó algorítmico as memórias, os hábitos, os costumes, os saberes que herdámos de quem nos precedeu neste pedaço de superfície terrena. O símbolo maior do mundo de hoje não é, como alguém escreveu, o deleite, mas sim o “delete”.
 
Jornal de Azeitão, Outubro 2023​

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Divagações termais

4/6/2024

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Não me consigo lembrar do nome do café fronteiro ao Clube Sesimbrense (agora Grémio), no Largo José António Pereira, em Sesimbra. Era ali que o Rafael Monteiro tomava o seu café, quando não estava a cirandar pela vila ou por Santana. A barba longa albergava migalhas das torradas de vários dias, e os dedos que seguravam o cigarro sem filtro tinham uma tonalidade castanho-nicotina. Não havia segredo que ele não conhecesse, nem opinião que não tivesse, pelo menos no que a Sesimbra concernia. Foi ele que descobriu, na Quinta da Aiana de Baixo, uma lápide de seis medalhões igual à que ostenta a fonte de Aldeia Rica, em Oleiros, e a uma outra, proveniente da Quinta da Arca de Água, em Alferrar, Setúbal, que entretanto foi vendida por um sobrinho do visconde de Montalvo ao coleccionador Jorge de Brito nos anos sessenta.
A Fonte de Aldeia Rica é contemporânea da Fonte dos Pasmados, cuja construção, ordenada pelo juíz de fora Agostinho Machado de Faria em 1787, esteve envolta em polémica. Originalmente, a fonte situava-se num pátio interior da Quinta da Nogueira, que hoje é das Caves José Maria da Fonseca, mas o “Pombal Azeitonense”, como o juíz ficou conhecido, ordenou a sua deslocação para o espaço público, tendo a população trabalhado “de noite e em dias feriados não auferindo qualquer remuneração”. A obra causou controvérsia, tendo o proprietário da quinta apresentado queixa contra o juíz por a deslocação ter “causado graves prejuízos para o cunhal e muro da casa nobre da Quinta” e “o dito ministro” foi denunciado pelo “malévolo animo” de ter explorado “o suor e trabalho dos pobres”, e “para o efeito de que não faltem (...) são presos e manietados todos aqueles que faltem”.
Ainda assim, o chafariz causou tal impressão de pasmo na população que daí resultou o seu nome. Já quanto à “lenda” que conta que “quem das suas águas beber não deixa de Azeitão regressar”, creio que devemos dar certo desconto, já que essa parece ser uma frase feita usada para caracterizar um sem-fim de fontes e chafarizes em Portugal e no mundo.
Hoje, estão secas ou insalubres muitas das nascentes, fontes e olhos de água de onde antigamente fluíam as águas subterrâneas das serranias da Península de Setúbal. E, no entanto, elas foram a um tempo apreciadas e louvadas pela sua qualidade. A de São Simão, a da Quinta do Anjo, a cisterna do “Castelo dos Mouros” em Coina Velha, até a da Califórnia, na praia de Sesimbra... Uma das mais desconhecidas e misteriosas é a Fonte da Rocha, anichada na encosta sul do Vale dos Barris, perto de Palmela e ainda mais perto do Convento das Irmãs da Apresentação de Maria. Foi, em tempos, uma fonte férrea, com efeitos curativos. Em Portugal são raros estes pontos de água, de características termais. Quase nada se sabe hoje da história da Fonte da Rocha, vítima da perda da capacidade de retenção das águas de uma Serra da Arrábida cada vez mais árida.
As águas férreas são especialmente indicadas para tratar problemas da circulação sanguínea, curando anemias e restituindo o equilíbrio das plaquetas. Pelo que aprendi ao visitar a fonte de Vale da Mó, nas faldas do Luso, era hábito os pastores procurarem nascentes férreas porque tinham um efeito miraculosamente reconstituinte para o gado. Não custa imaginar que a Fonte da Rocha tivesse sido um ponto de paragem de rebanhos de ovelhas e cabras – como acontecia em Vale da Mó, antes da expulsão das ordens religiosas no final da monarquia, quando as irmãs ursulinas doaram à aldeia os terrenos do mosteiro e o célebre químico francês Charles Lepierre analisou as águas da fonte e determinou a sua qualidade como água termal.
Não provei a água da Fonte da Rocha, no Vale dos Barris, mas provei a da Fonte do Vale da Mó. Posso assegurar que sabe muito mal, e que a sua cor me fez lembrar os dedos do Rafael Monteiro, de saudosa memória.

Jornal de Azeitão, Setembro 2023​
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