MANUEL JOÃO RAMOS
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Festarolas

27/3/2025

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No seu livro Os Jardins de Adónis, o historiador-antropólogo Marcel Detienne relata que, durante o solstício de Verão, os jovens atenienses ofereciam às suas amantes-amadas tabuleiros de ervas aromáticas a que chamavam, precisamente, “jardins de Adónis” em memória da lenda do amor entre o belo Adónis e a deusa Atenas. Proeminente entre essas ervas era o manjericão que, como sabemos é a erva rainha da cozinha mediterrânea. 
Durante a Idade Média, desenvolveu-se na Península Ibérica o hábito de os jovens oferecerem pequenos poemas amorosos às suas amadas acompanhados de uma pedra semi-preciosa, um tipo de granada avermelhada conhecida como “piropo” (do grego pyropos, “flamejante”). À medida que o culto e as festas de Santo António se começaram a sobrepor em popularidade à procissão do Corpo de Deus, que era a festa mais antiga e mais pomposa de Lisboa, estabeleceu-se o hábito de os jovens alfacinhas fazerem poemas às suas namoradas-noivas, acompanhados de um manjerico envazado. 
Em Córdova – e diz-se que também em Toledo -, a prática ancestral da decoração dos pátios comuns com flores e ervas aromáticas deu lugar, nos anos trinta do século passado, a um processo de folclorização e oficialização que redundou nos concursos para premiar o melhor pátio da cidade. Semelhante processo se deu com os arraiais dos largos do casco antigo da cidade de Lisboa, onde as decorações com flores de papel (um gosto desenvolvido durante o séc. XIX) se espraiaram em concursos de marchas populares oficializadas pela propaganda do Estado Novo, por iniciativa de António Ferro e do então presidente do município lisboeta Duarte Pacheco. 
Quem hoje compra um manjerico no supermercado durante as “festas de Lisboa” – uma reconceptualização do Santo António que muito contribuiu para a gentrificação da cidade velha e para a sua mercantilização para o consumo turístico internacional – não tem de se perguntar de onde vem tal hábito. Faz-se assim porque sim, e para que a tradição se mantenha e reinvente há que não a interrogar demasiado. 
Como tinha de ser e porque não há melhor que fazer, percorri este Verão as festas da região: a de Vila Fresca, a de Vendas, a de Vila Nogueira, e as de Coina a Velha e Pedreiras. Estas últimas, por sinal, coincidiram este ano porque a procissão a El Carmen foi antecipada). Quem opina publicamente tem uma grande responsabilidade, que vem com o poder de abusar do dever de estar calado. Por isso, hesito em dizer o que vou dizer (mas digo na mesma, esperançado em que ninguém esteja a ler estas palavas, aborrecido que ficou com o início do texto): a festa de que mais gostei foi a das Pedreiras porque é a menos gentrificada de todas; sem polos, calções e sapatos de vela, sem topes descascados e leggingues angustas, sem filas intermináveis para a ficha da cerveja, e um bilião de carros mal-estacionados nas bermas e valados. 
A festa de Nossa Senhora da Conceição, em Coina a Velha, já foi assim (na era A.C, Antes do Covid): pacata, com acordeonistas e casais dançantes, rifas de bibelots de cerâmica industrial que assim circulavam de casa em casa, e de família em família. Hoje em dia, transformou-se, como a de Vila Nogueira e outras, em versão miniaturizada das “Festas de Lisboa”, descaracterizada romaria que pouco mais oferece que batida do kuduro e borracheira de cerveja. É provável que o mesmo venha a acontecer à festa das Pedreiras, mais ano, menos ano. Mas, por enquanto, ainda oferece o prazer da viagem no tempo, o tempo em que as festas azeitonenses eram pacatas, tinham casais dançantes e rifas de bibelots. 
Ouvi dizer que, como em anos anteriores, os novos donos do palácio e convento d’El Carmen, nas faldas da serra, quiseram impedir a procissão e convívio que fecha a festa das Pedreiras, junto à igrejinha de Nossa Senhora d’El Carmen. Mas, interessante afirmação do direito comunitário do povo comum, os portões tiveram de ser abertos à passagem do andor, a igreja abriu-se para receber a santa, o acordeão tocou, e o piquenique aconteceu. No altar-mor da igreja seiscentista, lá estava a Senhora d’El Carmen cheia de notas de cinco euros na vestimenta, a cópia processional trazida das Pedreiras com o Menino cheio de anéis de ouro e pendentes de cérebro de corvina e, no altar lateral esquerdo, mais modesta e mais gótica, a santa original: a Nossa Senhora da Pinha. 
Conta a lenda que o seu milagre foi ter, ali no arvoredo da falda da serra, impedido um marido ciumento de matar a sua mulher adúltera, lançando-lhe uma pinha para a mão que segurava o punhal, quando ele preparava para desferir o golpe. Conta a história que as festas da procissão eram tão licenciosas que, no séc. XVIII, foram proibidas pelas autoridades eclesiásticas azeitonenses. Ninguém liga muito à Senhora da Pinha e fazem bem em esquecê-la, porque a tradição é assim mesmo.  Mas a imaginação cavalgante dos antropólogos exegetas não se consegue impedir de ver fios e laços a ligar o Verão às licenciosas intenções dos amantes atenienses, aos jardins de flores e ervas aromáticas, aos piropos medievais que a censura do politicamente correcto veio proibir, às noivas de Santo António e manjerico, à bebedeira e ao milagre algo malicioso da Senhora da Pinha. 

Jornal de Azeitão, Setembro 2024 ​ 
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Os “estrangeiros”

4/6/2024

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De uma conversa de café:

“Eles [os estrangeiros] vêm para cá cheios de massa e compram as melhores quintas. E quando morrerem, como é que vai ser?  Vai voltar tudo à mesma, na é? Que os filhos deles não vão querer saber disto aqui.”

A palavra “retórica” tem, ao longo da sua longa história, recebido imerecida má fama. Talvez porque Platão, supostamente seu pai, a concebeu como epíteto insultuoso no diálogo Górgias. Rhētorikē, dizia, era o discurso lisonjeiro e persuasivo que ele atribuía ao grupo dos fi lósofos sofi stas a quem se opunha. Comparava-o às artes culinárias que mascaram o mau alimento com sabores apetecíveis. Nascida com tal fardo, múltiplos foram quem, desde o seu discípulo Aristóteles, a procuraram redimir, sobretudo evidenciando a importância do seu estudo como técnica argumentativa.

Sendo a argumentação inerente à expressão verbal do pensamento, compreender o seu escopo, entender as suas possibilidades e variações, e prevenir as suas falhas – as falácias – são as bases essenciais de qualquer interpretação, análise e crítica da comunicação humana. A retórica é, portanto, simultaneamente uma arte (a arte da persuasão) e uma ciência (o estudo da argumentação). Sendo assim, em tal perspectiva, não se limita à oratória, mas infi ltra toda a acção social humana. Formular bons argumentos é um passo vital para uma persuasão saudável – porque a rhētorikē é aliada do logos –, assim como saber identificar maus argumentos é a primeira linha de defesa contra o abuso do psevma (inverdade).

Tristemente, nem a oratória nem a análise argumentativa merecem acolhimento nos programas educativos em Portugal, do ensino básico ao universitário. Um minuto de visionamento do canal Parlamento ou de qualquer debate e comentário político tornam claro que a classe política lusa, espelho aumentado da nação, não tem qualquer preparação ou inclinação para formular argumentos, contrapor ideias, modular discursos, de forma elegante, persuasiva e coerente. Seja na política, nos tribunais, ou nas conversas de café, o diabo da falácia esvoaça livremente, reinando incontestado sobre a comunicação verbal. E, tal como acontece com a palavra falada, também a escrita portuguesa não se sabe submeter ao rigor do entimema. Qualquer historiador diplomado da literatura comparada poderá confirmar que as letras portuguesas são um deserto onde o bom tropo não medra, e que o Padre António Vieira não foi exemplo, mas antes foi solitária excepção – se ele foi o “imperador da língua portuguesa”, foi-o na total ausência de súbditos e seguidores.

Vem tudo isto a propósito de duas coisas. Sendo eu o pior dos etnógrafos, raramente me engajo em interacções sistemáticas com informantes nativos que me permitam extrair informações relevantes com valor heurístico, sobre matérias sócio-culturais. Mas, ainda assim, não perco ocasião para “me pôr à conversa” com gentes locais, e ouvir com atenção e deleite o seu fluir discursivo, entremeado como está habitualmente de falácias, umas óbvias, outras subtis. São, frequentemente, parte de um processo de averiguar, sem pretender ser conclusivo, a validade do anteriormente aprendido. Um tópico que ressurge cada vez mais é o do “estrangeiro”. Ele são os “franceses”, que se instalam na vila e se reúnem na patisserie; os “holandeses” que preferem as aldeias e as hortas, os “suecos” e “americanos” que exsudam ouro, e por aí fora. Cada episódio anedótico sobre a presença dos “estrangeiros” nas terras azeitonenses vem complementar outros dez, e ajuda a medrar novas ideias feitas. De algum modo, os “estrangeiros” são um pouco como os monstros dos bestiários medievais: na sua etimologia, o termo “monstro” é significa “mostrar” – os “monstros” eram (e são ainda) imaginados como o espelho que se encontra para além dos limites da normalidade humana. A imaginação azeitonense do “estrangeiro” tem a mesma qualidade: é uma possibilidade retórica renovada em cada conversa, um tropo que ajuda a determinar a identidade sempre escorregadia do que é ser nativo.

A generalidade dos epistemólogos das ciências sociais olha para os métodos e resultados do labor dos antropólogos com medidas várias de desconfiança. Irrita-os a repugnância destes em relação aos métodos quantitativos, a sua tendência para o barroco literário, o gosto de circular braviamente entre o infinitamente pequeno e local e o grande modelo explicativo. Sem me querer estender aqui sobre o tema, direi apenas que duas das fórmulas argumentativas preferidas da escrita em antropologia são a “comparação” e a “ilustração”. Sendo que a primeira assenta sobre um dogma virtualmente indemonstrável, que é o de que é possível comparar o incomparável que são as múltiplas variações da vida social, a segunda é um pecadilho sem perdão, que supõe que a informação proveniente de uma conversa com um “nativo” pode magicamente ser convertida em asserção de natureza indutiva com valor geral. Os antropólogos são useiros e vezeiros nesta prática: recolher asserções “no terreno” e assentar nelas teses abstractas, sem se preocuparem com a falácia óbvia que é inerente a tal processo argumentativo.

Ainda bem que me reconheço como fraco etnógrafo. Caso contrário, poderia tentar-me a concluir coisas completamente disparatadas sobre o modo como os azeitonenses vêm os “estrangeiros” que por cá se instalam. Mas a pergunta em epígrafe não deixa de ter interesse – retórico, pelo menos.

 Jornal de Azeitão, Março 2024
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A suportável irrealidade da guerra

4/6/2024

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Mais quilómetro, menos quilómetro, a Faixa de Gaza tem uma extensão equivalente ao território que, de norte a sul, vai do estuário do Tejo à linha de costa da Arrábida e, de oeste para leste, dos areais da Costa da Caparica ao curso da Ribeira de Coina. Mais ou menos os mesmos 365 quilómetros quadrados. Não é difícil imaginar que dois milhões de pessoas possam viver nesta fatia da Margem Sul do estuário do Rio Tejo. Têm ambas uma longa linha de praias, a mesma hidrografia escassa, e uma orografia parecida – se exceptuarmos as arribas sedimentares da serra da Arrábida. E, claro, a sul, Gaza confina com o vasto deserto do Sinai e não a imensidão do oceano Atlântico.
 
Imaginemos que eram largadas, em três semanas, 30 mil bombas e mísseis sobre esta faixa da Margem Sul, que era mobilizado em seu redor um número de soldados equivalente à capacidade de cinco estádios do Benfica, mortas 10 mil pessoas e feridas outras 20 mil. Independentemente das emoções políticas, do horror ético e da mobilização social que um tal acontecimento catastrófico suscitaria, não custa pensar que as rotinas da vida em Lisboa ou em Alcoentre – a escassos quilómetros da fronteira da Ribeira de Coina –, continuariam a decorrer com normalidade. Malgrado o incómodo ruído dos bombardeamentos e o desagradável cheiro da pólvora, dos incêndios e dos corpos calcinados, os cafés e restaurantes para além dessa faixa continuariam abertos, as escolas continuariam a funcionar, e o combustível continuaria disponível nas estações de serviço.
 
O sentimento de irrealidade da guerra não seria muito distinto daquele que um europeu sente hoje face à tragédia de Gaza. Seria também um sentimento de impotência e de alheamento, independentemente da solidariedade, ou ausência dela, para com as vítimas do desastre humanitário. Não se trata de uma questão de insensibilidade porque “não é nada comigo”, mas de necessária compartimentação mental entre, por um lado, difusas emoções e racionalizações políticas e, por outro, as prementes necessidades de prover o dia-a-dia.
 
Estive, há anos, a poucos quilómetros de uma frente de batalha no norte da Etiópia. Vi hospitais sobrelotados, gente mutilada, mobilizações apressadas de milhares de jovens arrancados das famílias, e o crocitar das armas para além do horizonte. E, aí, confrontei-me com esta mesma irrealidade e com esta mesma dissonância cognitiva entre a terrível violência da guerra e a normalidade possível da vida do lado de fora do perímetro da batalha. As crianças continuavam a ir para a escola, as lojas continuavam abertas, e as rotinas diárias adaptavam-se às inúmeras restrições impostas – dos blackouts aos cortes de água, das estradas cortadas à penúria de mantimentos, do choro e da raiva individual à lavagem cerebral colectiva levada a cabo pela propaganda governamental.
 
Quem, em Lisboa, no Cairo ou em Reiquiavique, se emociona hoje com a tragédia de Gaza porque ela entra pelos olhos dentro graças à profusão de notícias provenientes de múltiplas plataformas de comunicação social, tem normalmente a quase certeza de que ela não altera os seus ciclos de vida diária (pelo menos, até ao dia em que sim). Poderá racionalizar e emitir opiniões, manifestar a sua indignação ou não, mas, não havendo transbordar do perímetro ritual da guerra para a sua zona de conforto, não deixará de estar atento às promoções do supermercado da sua vizinhança.
 
Tal como podemos duvidar que uma folha de árvore tenha caído se ninguém a vir cair, desdenhamos das tragédias que ocorrem todos os dias quando a comunicação social não nos oferece num prato de morbidez o testemunho da sua violência. Por extraordinário passe de magia, o horror de Gaza (complementado pelo horror menor da Cisjordânia) eclipsou nas nossas mentes o horror da Ucrânia. Mas esses horrores existem para nós porque no-los injectam. Todos os outros simultâneos horrores que pontuam a vida humana no planeta não têm direito à nossa comiseração ou sequer ao nosso reconhecimento.
 
Agora que o ano de 2023 se aproxima do seu termo, o inefável manto da irrealidade desce sobre várias outras guerras e conflitos violentos silenciados e, por isso, desconhecidos dos europeus. Não é concedido nem um momento de pânico moral pelos mais de 10 mil mortos em Myanmar, no Magrebe e no Sahel, no México, na Etiópia ou no Sudão; nem para os menos de 10 mil mortos na Colômbia, no Afeganistão, na Somália, na Nigéria, no Congo, no Iraque, no Sudão do Sul, na Síria, no Iémen ou no Haiti. Tudo porque morreram sem reportagens em directo, e longe da tribalização geoestratégica.
 
O Público, 6 Novembro 2023

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esta terra não é para estranhos

3/8/2023

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Li há pouco uma curiosa (auto)reflexão sobre o carácter russo.  A tradução dizia mais ou menos isto:
 
Quando as pessoas no Ocidente falam dos russos e da Rússia, citam frequentemente a célebre frase de Churchill: “A Rússia é uma charada, envolvida em mistério, dentro de um enigma”. É uma citação elucidativa: a Rússia era e é incompreensível para um ocidental.
Como lutavam os europeus na Idade Média? O meu primo Ludovico, proprietário da quinta vizinha, embebedou-se e chamou-me idiota. Não posso aceitar o insulto, por isso junto os meus quatro vassalos, distribuo paus e forquilhas aos habitantes do meu domínio, e parto em guerra contra ele. Hurra!... Vitória. E, quando estou prestes a cortar a cabeça do maldito Ludovico, o bispo meu primo, as minhas tias e os meus tios, e mais não sei quantas pessoas intervêm, dizendo que a minha resposta não é proporcional – ele só me chamou imbecil. Em resultado, eu não mato o Ludovico.
Esta moderação feita por parentes da classe dirigente funcionava a todos os níveis, dos conflitos entre quintas vizinhas às guerras entre estados. Daí, um estranho culto da proporcionalidade desenvolveu-se no Ocidente: se eu te esfaqueio mas não te mato, tu não me cortas a cabeça.
Os eslavos e, em particular, os russos nunca lutaram assim. A guerra era “ou nós ou eles”. Sem alternativas, era uma guerra com os infiéis, sem “proporcionalidade”. Era uma guerra pela sobrevivência. Em resultado, os eslavos desenvolveram uma tradição diametralmente oposta: ou não reagir de todo ou então resolver o problema de uma vez por todas. A transição da primeira opção para a segunda é instantânea, sem aviso, definitiva e irrevogável. A linha vermelha, ela própria, para além da qual está o “matem os sobreviventes e tenham um bom dia” variava, do “é para já” dos polacos ao “quando o sol se transformar num gigante vermelho” dos búlgaros.
Os russos estão algures no meio e, para quem nasceu na tradição cultural ocidental, este “meio” é precisamente “uma charada, envolvida em mistério, dentro de um enigma”. O ocidental não se consegue impedir de espicaçar o urso com um pau para ver onde está a linha vermelha. E fará isto apesar de todas as histórias que o seu avô lhe contou sobre o seu próprio avô, que também espicaçou o urso em Estalinegrado ou em Borodino.
A este respeito, o Ocidente não é nunca capaz de aprender. A memória histórica da Idade Média é mais forte que a memória do que se passou nos últimos três séculos. (@Slaviangrad)
 
Em Sesimbra, era comum um pexito dizer que as gentes do Campo se batem por um metro quadrado do terreno do vizinho, que respondem violentamente aos seus abusos, embora estejam sempre prontos a cobiçar, eles próprios, a sua propriedade. O espírito do mar não permite estes luxos. No mar é fácil morrer porque a natureza é infinitamente mais inclemente que os humanos. Por isso, talvez, os pescadores apreciam mais a vida e respeitam mais o outro. Não que não haja competição pelo bem comum que é o peixe, mas precisamente o bem é comum, não privado.
 
O Campo é agora, em grande medida, a Vila. Ainda assim, como dizia o russo, a memória dos tempos antigos é muito forte, encastra-se, encasqueta-se, como uma marca indelével. Hoje em dia, na Vila, os conflitos do metro quadrado de terreno passaram para as moradias geminadas sem que a memória do comportamento ancestral se perca. Abusa-se de novas maneiras: subindo muros e construindo anexos ilegais, disfarçando puxadas de água, fazendo barulho, estacionando o carro sobre o passeio público, fazendo cavalinhos em cima de motas, deixando os cães a ladrar dia e noite no quintal. O resultado é uma constante tensão colectiva, nascida de um sobranceiro desinteresse pelo direito privado dos outros e pelo bem comum que são os espaços públicos (e pelo ar que se respira).
 
Quem vem de fora desespera com esta maneira de viver agressiva e disfuncional. Ao fim de algum tempo a tentar socializar e conviver nesta Vila em permanente estado de bulha de aldeia de gauleses, acaba por desistir e rumar a outras paragens. Mas há que ver as coisas pelo lado positivo: é bom para o comércio imobiliário porque há sempre casas à venda para o próximo forasteiro incauto, e garante que a tradição cultural não se perde. Quem não gosta dela, que vá para Sesimbra.
 
 
 Jornal de Azeitão, Junho 2023​
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À Escuta no Café

19/7/2023

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A figura da velha de lenço negro que espreita pela janela e controla tudo o que se passa na vizinhança é um estereótipo famoso sobre o qual assenta uma longa história de coscuvilhice e censura social. Menos conhecida é a figura do etnógrafo que, com um ar fingidamente cândido e distraído, ouve tudo o que se diz à sua volta. Leite de Vasconcellos, ele próprio, conta que de modo a poder recolher elementos do dialecto barranquenho que os locais se recusavam a falar na presença de estranhos, se encostava às portas e colocava a orelha junto à madeira para os poder ouvir sem que eles se apercebessem.
 
Não tenho os dotes e a persistência do grande etnógrafo, mas volta não volta surpreendo-me a mim próprio a olhar para o vazio do ecrã do telemóvel enquanto aprecio o sol sentado na esplanada do café e – involuntariamente, claro – fico de ouvido à escuta do que se diz na mesa do lado. Basta que um tom de voz destoe do burburinho geral ou que uma palavra solta me prenda a atenção para que eu entre em modo velha de lenço negro.
 
Há alguns dias, bebia eu o meu café matinal numa esplanada ensolarada da vila quando, atrás de mim, ouvi alguém falar do ladrar de cães por trás de portões. A voz era pausada, feminina, e relatava um episódio ainda fresco. Pelo que percebi, a senhora tinha assentado arraiais na vila há dois ou três anos, vinda da metrópole, e adquiriu o hábito de levar o seu cão ao parque das oliveiras. O que seria normalmente um passeio higiénico e quase pastoral é, pelo que me pareceu, uma dolorosa expiação. Para chegar ao parque tem de atravessar uma zona de moradias, a maior parte das quais guardada por cães que, mal pressentem uma presença na rua, desatam a ladrar e a rosnar em coro, infernalizando-lhe o passeio porque o seu cão é tomado de pânico.
 
Naquela mesma manhã, ao passar com ele numa rua onde, por trás de um muro alto, vivem cinco cães de ladrar especialmente vigoroso, foi subitamente abordada pela dona da casa fronteira. Agitada, a senhora, que se exprimia num forte sotaque gálico, pediu-lhe por tudo que deixasse de passar por ali. A cara da viandante lisboeta terá evidenciado tal pasmo que a moradora francesa se desfez então em explicações e justificações. Teria chegado à vila, como a passeadora, há coisa de três anos, na expectativa de poder aproveitar uma imagino que legítima reforma tranquila em terras azeitonenses. Tinha comprado aquela moradia, feito obras, trazido de França os seus haveres e o marido, mais que disposta a viver entre os berberes católicos que nós, portugueses, somos.
 
O problema da compra de casa é que, ao contrário do que acontece com a compra de carro, não dá para fazer um test run, isto é, dormir nela um par de noites antes de entregar o cheque para sinalizar o contrato de compra e venda. Comprada, restaurada e mobilada a casa, só quando para lá foi viver se apercebeu que tinha chegado, não ao paraíso, mas ao inferno: faça dia ou noite, verão ou inverno, o ladroar dos três cães da moradia em frente nunca pára e multiplica-se quando alguém, particularmente alguém que passeia incauto o seu cão, passa pela rua. Há três anos que a senhora se queixa em vão aos vizinhos, à junta de freguesia, à GNR e, mais recentemente, à psicoterapeuta.
 
Cansada de tanto encolher de ombros das autoridades e de tanto receituário de anti-depressivos, optou desesperada por aquele inaudito último recurso: pedir a quem passa pela rua que por ali não passe, para que os cães enclausurados na moradia fronteira não se manifestem tanto; suplicar aos viandantes que aceitem prescindir do seu direito ao espaço público porque os vizinhos não prescindem de abusar de um mais que duvidoso direito privado a prender cães ruidosos no seu quintal.
 
Fiquei sem perceber qual a resposta ao pedido porque, entretanto, um grupo de motoqueiros chegou ao café e as conversas foram abafadas pelo ronronar dos motores de grande cilindrada. O ruído e o cheiro que as motas exalavam ditaram a minha fuga precipitada do local. Contente por não ter cão que entrasse em pânico com as motas, fui passear pela rua direita cogitando sobre o pedaço de história que tinha ouvido. Até que alguém me apresente argumento em contrário, vou assumir que Azeitão é uma vila onde, com dificuldade, coabitam três castas: os “locais”, os “lisboetas” e os “estrangeiros”, que interagem mas não se confundem, se confrontam mas não dialogam. Vou também assumir que esta dinâmica social é bem conhecida das “autoridades” que, face às tensões que a coabitação gera, optam por fazer o que os enforcers do Estado costumam sempre fazer: alhear-se quando as normas legais ameaçam alterar o frágil equilíbrio das relações de força entre as castas em confronto.
 
 
Jornal de Azeitão, Abril 2023
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​Dos Cães e de outros objectos

21/3/2023

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Não é só o título que chama a atenção do leitor. A primeira frase é também crucial. É um apelo à imaginação, uma indicação do tom, do género e do estilo da escrita. E é também a presença material da intencionalidade criativa do autor. Ele há muitas maneiras de começar a contar uma história. Há o “Era uma vez, há muitos, muitos anos...” dos contos tradicionais, e o “No tempo em que os animais falavam...” das fábulas infantis. A partir daqui a literatura tornou possíveis infinitas variantes. O “Chamem-me Ishmael”, do Moby Dick de Melville, e o camusiano “A minha mãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não tenho a certeza”, anunciam relatos pseudo-autográficos. O pressagiante “Era um dia frio de Abril, e os relógios batiam as treze” do 1984 de Orwell, contrasta com o afirmativo “É uma verdade universal que um homem de fortuna necessita uma esposa”, do Orgulho e Preconceito de Jane Austen. O “Quando Gregor Samsa despertou na sua cama uma manhã após uma noite de pesadelo, descobriu que se tinha transformado num insecto gigante” oferece logo a chave do que vem a seguir. O “Numa galáxia muito, muito longe...” e o “Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia de irredutíveis gauleses resiste ainda e sempre ao invasor...” estabelecem de imediato o contexto temporal e espacial da história que se vai desenrolar.
Imagino que, para muitos urbanos lisboetas, uma viagem a Azeitão possa ter o refrescante sabor do exótico ao lado de casa. É, em pequena escala, equivalente à descoberta dos aromas e cores de Marrocos. Perto, mas ainda assim muito longe. Azeitão, tão plácida e incaracterística, parece, em certas coisas, um minúsculo planeta vogando numa galáxia, muito, muito longínqua. E, nessas certas coisas, evoca também o espírito irredutível dos companheiros de Asterix, o famoso herói da banda desenhada de linha clara franco-belga.
Uma viagem a Marrocos – ou a qualquer outro lugar excêntrico – é sempre um jogo de selecção do olhar e da atenção, um balanço frágil entre o apetecível e o repulsivo, que forma a nossa experiência do lugar. Dependendo do nosso gosto, da nossa tolerância à diferença, da nossa adaptabilidade, é uma experiência que, em casos extremos, pode levar-nos ao êxtase (e ao desejo de eterno retorno) ou ao abismo da repugnância. Mais normalmente, leva-nos ao meio do caminho: um gosto amargo de pessoas e coisas que preferimos esquecer, a tingir o gosto doce das pessoas e coisas que queremos lembrar.
Assim também Azeitão: o urbano lisboeta regressa todos os primeiros domingos do mês ao terreiro da feira porque, mesmo que tenha sido enganado na qualidade da toalha ou na frescura do melão, deseja reinventar a experiência, e voltar a saborear a confusão da mole humana, os gritos do “Três slipes ao preço de um”, e as bifanas mal assadas. Regressa volta e meia à pastelaria que serve “as mais típicas” tortas, e à fonte dos pasmados de água eternamente insalubre. Faz alegre e regularmente o caminho da cruz que, pela serra, leva aos parques de estacionamento sem lugares vagos no Portinho e no Creiro. Se for audaz, aventura-se num trilho pedestre, entre a caruma, as ortigas, as lagartas do pinheiro e as carraças das ovelhas. E depois, ala, regressa à cidade, que não há muito mais que ver na terra que, pensa ele, tem mais fama que proveito.
 
Há, de facto, em Azeitão algo de aldeia que resiste ainda e sempre ao invasor. E, até certo ponto, tem também algo de galáxia muito, muito longínqua. Explico-me:
Há leis da capital que não têm valor ou obediência na vila, e muito do que lá é apreciado é cá liminarmente rejeitado. Presumo que não seja por isso que os turistas lisboetas fazem por reviver experiências de exotismo, mas ainda assim convido o leitor (e, como se diz agora, num cúmulo de redundância politicamente correcta, a leitora) a passear a pé pelo meandro de ruas onde se alinham moradias de geometria perturbante, versões lusas do sonho suburbano americano. Não é conveniente fazê-lo em dia de feira, porque aí só os loucos o conseguem fazer, tal é a dimensão do engarrafamento automóvel. Nos outros dias, passear a pé obriga a andar pela rua porque os passeios estão em permanência ocupados por uma multitude de carros cujos donos são demasiado preguiçosos para os estacionar nas garagens das suas moradias. É verdade que, ficando escondidos por trás dos portões, não servem como mostra do estatuto económico do morador. Ou, porventura, as garagens estão demasiado atafulhadas de motas de grande cilindrada, para uso nas reuniões do Lavadouro e na estrada do Portinho.
Por outro lado, andar pelo meio da rua, pelo asfalto dessas ruas que, consciente ou inconscientemente, evocam o cenário do Eduardo-Mãos-de-Tesoura, é a melhor garantia de não ficar ensurdecido pelo arraial de cães de guarda das mesmas moradias, que se lançam raivosamente contra as grades e frestas dos portões, ameaçando abocanhar pernas, braços e traqueias dos viandantes. Cães que não saem à rua, e que não entram na porta. São uma espécie de imigrantes refugiados que comem e calam – quer dizer, não calam porque o seu trabalho escravo é ladrar e uivar até à loucura ou ensurdecimento da vizinhança.
 
Azeitão é um minúsculo planeta de uma galáxia de maus costumes que resiste incompreensivelmente às leis da capital. Seja as leis do ruído (obrigado, motoqueiros), as normas do Código da Estrada (obrigado, donos de SUV mal-estacionados), e as regras básicas da protecção dos animais (obrigado, donos de cães abandonados em casa própria). Talvez a razão pela qual os urbanos lisboetas gostem de regressar regularmente a Azeitão seja para ver se conseguem entrever, no topo de uma escada de alumínio, o Eduardo-Mãos-de-Tesoura, ele próprio, a desbastar violentamente as oliveiras da vila. Mas ai deles se se metem a andar a pé pela vila.
 
 ​Jornal de Azeitão, Março 2023

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La Dulce Vita

6/10/2022

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Está a vila, a região e o país cheios de imigrantes franceses. São parte não menosprezável da nouvelle vague que tem aspergido, em anos recentes, as costas lusas. Muita água passou desde as invasões napoleónicas de má memória e esta nova presença nada deve a ensejos de expansão militarista. Antes, se quisermos enveredar por paralelismos históricos, evoca mais o súbito cosmopolitismo do país no início da era de quinhentos. As razões do fenómeno e as motivações dos novos migrantes serão, como sempre são, variadas. Mas pesou certamente a liberalização cavalgante do mercado imobiliário, a força do rent gap, o reencaminhamento do turismo de um norte de África tomado por instabilidade política, e o escandaloso programa de isenção de impostos a reformados europeus (somado ao ainda mais escandaloso programa dos vistos gold).
 
Certo é que o pendulo migratório oscilou em sentido contrário ao da histórica rota da emigração tuga com uma mão à frente e a outra atrás. A integração da diáspora lusa no tecido urbano multi-cultural francês fomentou, por lá, percepções a uma vez nostálgicas, exóticas e paternalistas em relação ao país de origem dos maçons, carreleurs e concièrges. Viemos assim a ser tomados, não propriamente como europeus, mas como simpáticos, brandos e submissos magrebinos católicos. Para as massas que tinham ganho o hábito de viajar para as kasbahs marroquinas ou argelinas, a vida em Campo de Ourique ou na Vila Rica é encarada como uma alternativa soft, com metade das moscas e o dobro do saneamento de Marrakesh e Monastir. E, além disso, há vinho castiço, queijo imitadiço, café barato nas esplanadas, e cada vez mais filmes francófonos nos canais televisivos.
 
Uma discreta torrente de filmes, romances, documentários, e álbuns de fado fusion muito contribuiram também para apimentar a curiosidade gálica pelo país do passtel dê natá. E nós correspondemos, mas – digamo-lo abertamente – com subtis “empoderamentos”. Somos os primeiros na fila das novas patisseries, mas deixámos de nos vergar à língua de Molière, cheios que estamos com a língua de Shakespeare e Eminem. Não nos deixamos impressionar pela cuisine française, sabemos que um DOP da Península de Setúbal vale dez Côtes du Rhone, preferimos ostentar Gucci a Viuton, e apoiar o Barça contra o PSG.
 
Misturados neste enxame migratório do além-Pirenéus vêm também os retornados das cages dorées, primeiras, segundas e terceiras gerações da diáspora lusitana. Vêm reformados, retirados, retratados, simplesmente saudosos, ou então desempregados do mercado de trabalho francês.
 
(Uma palavra breve sobre o sentido de chômeur em francês: trata-se de um termo que remonta à Idade Média e que significava, na origem, alguém que devido ao calor estival fazia uma pausa no trabalho (caumare, em occitano e latim); com a crise económica de 1846, passou a designar os muitos milhares de desempregados que vieram a participar na revolução de 1848 contra a chamada monarquia de Julho).
 
Na fronteira entre os concelhos de Setúbal e Sesimbra, na urbanização cogumelo do Alto das Vinhas, tive a muito grata surpresa de conhecer a Dulce, alentejana de afável olho azul e desarmante sorriso que, após 40 anos a trabalhar como maquilhadora para a TF1, a Arte e a M6, deu uma volta à vida e fez o caminho de regresso ao país natal. Percorreu o litoral em busca de pouso para o negócio que decidiu abraçar: a confecção e venda de pizzas caseiras num moderníssimo foodtruck. Aparcou brevemente na Fonte da Telha mas, porque o casario é ali todo ilegal, continuou a procurar até que encontrou uma moradia mignone com jardim entre os pinheiros do Alto das Vinhas. Quando a Câmara Municipal de Sesimbra lhe recusou licença para instalar o foodtruck em espaço público da vila, não desarmou. Perguntou ao funcionário: “mas posso instalá-lo no meu jardim?”. Como o regulamento municipal parecia ser omisso quanto à possibilidade, a resposta veio positiva e, desde então, a Dulce serve deliciosas pizzas soberbamente maquilhadas ao gosto do cliente no seu cuidado jardim, testemunho da estética fusion alentejano-parisiense.
 
E, como inevitável bónus, os clientes caem apaixonados pelas doces modulações do seu sotaque.
 
 Jornal de Azeitão, Outubro 2022
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A VERNISSAGE

6/10/2022

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A noção de preservação do património é espinhosa. Assim como o é o entendimento do que é criação artística. Segundo os padrões da europeidade – geralmente estabelecidos nas margens do Sena, do Tamisa e do Elba (vá lá, também do Tibre) -, os portugueses são fracos preservadores do património arquitectónico. Sintra e Óbidos não competem na mesma liga que Tivoli e Rocamadour. Grão Vasco e Joana Vasconcelos passam por meros copistas das tendências da Casa Médici florentina e da Documenta de Kassel. É ponto assente pela “inteligência” alfacinha que rebocar palacetes a cimento, instalar janelas de alumínio na Casa dos Bicos, e “estragar” centros históricos com construções moderno-brutalistas é sinal de vandalismo cultural típico do vernáculo da nossa boçalidade.
Por mim, prefiro ver as coisas de outra maneira. Não me aflige substituir calçada “à portuguesa” por lajetas de cimento se isso melhora o conforto dos viandantes. Atrai-me mais o melting pot de São Teotónio que o de Óbidos, o Bairro das Fontainhas em Setúbal que a Rua Cor de Rosa e o Campo de Ourique em Lisboa. E quanto à fraca criatividade artística portuguesa... acho que os estetas procuram a musa nos lugares errados. Se queremos ver boa arte em Portugal, há que fugir da Galeria 111 e do Museu do Chiado, e percorrer as aldeias, vilas, e bordas de estrada lusas para bem apreciar a explosão de criatividade autóctone. Os portugueses não produzem Picassos, Beuyses, Pollocks ou Damien Hirsts, porque não precisam deles em cima da lareira. Antes, dedicam a sua energia, o seu ethos e o seu pathos, à produção de formas geométricas complexas a que dão o nome de “moradias”. Não há uma igual a outra, e nenhuma arquitectonicamente aborrecida, sobretudo desde que a Revolução dos Cravos veio dar rédea livre à imaginação individual e colectiva pátria. No Reino Unido diz-se que “a minha casa é o meu castelo”. Em Portugal, país de estetas espontâneos, “a minha casa é a minha obra-prima”.
Vem isto a propósito do facto da renovação de uma casa do largo da Piedade onde, no andar térreo ficava (e voltou a ficar) o café e mercearia da aldeia. Foi há coisa de dois anos que publiquei aqui um texto chamado “A morte da aldeia”. Falava sobre o encerramento iminente do café, e sobre o impacto previsível que isso teria sobre a vida dos seus habitantes, tanto os usuais como os de arribação. A verdade é que as quarentenas e outras várias restrições destruíram  o negócio do Norberto e da Olga e desde aí a aldeia ficou sem café, sem mercearia, e por isso sem um ponto certo onde as conversas podiam ser postas em dia, a terra da lavoura e o pó das obras podiam ser lavados com minis, o passado e o futuro podiam ser presentes a público.
O edifício foi posto à venda, e veio a ser comprado por um jovem casal holandês que tomou como ponto assente que tanto a mercearia como o café haviam de voltar a abrir, em parceria com a Alexandra, de raíz local. As obras são como são, as licenças camarárias são como sempre serão mas, após meses de expectativa, os sinais da renovação começaram a acumular-se. À porta do prédio, o tijolo e o cimento foram dando lugar às latas de tinta e aos materiais de pavimentação, os pedreiros deram lugar aos estucadores, e estes aos canalizadores e electricistas. No supermercado da vila, uma vizinha confidenciou-me “está para breve”, na rua da Escola outro comentou “agora é que vai ser; o café vai voltar”. Finalmente um dia, frente ao portão de ferro, apareceu um letreiro grafitado a giz tratando o leitor com uma inconfundível familiaridade empática holandesa: “Olá, aldeia! Vamos abrir  o café no dia 15 de Agosto”. E assim foi. Uma maneira diferente de fazer a festa na aldeia.
Sim, dia 15 de Agosto é, tradicionalmente, o dia final da Festa de Nossa Senhora da Conceição, na capela de São Pedro, que este ano mereceu apenas cerimonial religioso. A comissão de festas alegou que, à semelhança de 2020 e 2021, ainda se aplicavam as restrições do COVID e que, por isso, os bailes, rifas e bifanas só regressarão à aldeia no Verão de 2023. Pouco importa mais bailarico, menos bailarico. O que interessa mesmo é que o café e a mercearia estão de regresso e a vida da aldeia sente-se renascer.
Renasce diferente, como é óbvio, assim como o café. Nestes dois anos, mais ou menos, não foi só o Norberto e a Olga que deram uma volta à vida. A pandemia foi má para muita gente, mas boa para certos negócios, em particular o imobiliário. Várias quintas, moradias e casinhas de aldeia mudaram de mãos e de destino. Os casarões foram recuperados, os jardins ganharam novos ciprestes, os alojamentos locais multiplicaram-se e, com eles, as matrículas estrangeiras dos carros. Será incipiente a alteração demográfica, mas já se faz sentir na via pública: há mais passeadores de cães, mais licra a fazer jogging nos trilhos, mais sotaques de terras protestantes.
Dias antes da inauguração do café, a Sabina chamou-me do lado de lá do portão para anunciar de viva-voz a boa nova. Na parede rebocada e pintada de fresco, o novo nome foi aposto sobre o branco alvo, em ferro forjado negro: “LIMA”. Duas pipas e três mesas apareceram a decorar a entrada do café. Tudo pronto para o grande dia, portanto.
Ao chegar ao café, na segunda de manhã, já havia um grupo de fiéis lá dentro, e o Arnauld, a Sabina e a Alexandra cumprimentavam os recém-chegados de sorriso aberto e sentimento de dever cumprido. A vernissage foi um retumbante êxito: entre croquetes, fatias de bolo de laranja, galões e minis, o público apreciou a obra de arte, comentando em detalhe os materiais usados, a disposição dos espaços, não esquecendo nunca de enquadrar a peça na linha histórica da arte local. O café “Lima” é sem dúvida a nova obra-prima da fusion art azeitonenese: a forma tradicional do edifício manteve-se inalterada, mas foi convenientemente rebocada a cimento e pintada de branco; o limoeiro no topo das escadas foi podado; as barricas vieram dar à entrada um alegre toque germânico; os matraquilhos e as rifas foram-se, assim como as fraldas Lanidor e o Baygon para formigas, mas agora há um terminal multibanco muito chique e uma máquina de café reluzente; os bancos e mesas toscos do interior foram substituídos por cadeiras de ferro forjado e mesas de pedra; o pátio interior foi reaberto, prometendo noitadas de poesia francesa e fado corrido. Em suma, um primor de gentrificação suave, que alegra toda a gente, na aldeia e arredores. Só falta uma tabuleta a substituir o antigo “Aqui não se fia”: “Os críticos de arte contemporânea não são bem-vindos”.
 
Jornal de Azeitão, Setembro 2022
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A Tragédia dos Comuns

30/5/2022

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A Quinta da Periquita, na Aldeia da Portela, hoje um “alojamento local” propriedade de investidores estrangeiros para uso de clientes também maioritariamente estrangeiros, não é propriamente um exemplo de quinta histórica ao contrário, por exemplo, da Quinta de Santo Amaro, da Quinta das Donas, ou do Casal do Bispo (a antiga Herdade da Infanta). O edifício foi reconstruído há pouco mais de 40 anos, pelo Juiz Francisco Rolão Preto, filho e homónimo do polémico monárquico integralista.
 
A quinta e o edifício em si não têm nada de particularmente notável, tirando a vista magnífica dos contrafortes da Serra da Arrábida. Para mim, uma parte do seu charme está na ligação indirecta a Rolão Preto pai. De cada vez que passo pela Estrada dos Barrancos, à saída do Largo da Portela, relembro-o, não tanto porque foi o fundador dos Camisas Azuis, o entusiasmado jovem de inclinações falangistas que conviveu com a família de Primo de Rivera, mas porque, enquanto fundador da Convergência Monárquica e posteriormente do Partido Popular Monárquico, foi um dos principais representantes do desditoso movimento comunitarista português. De facto, a mais interessante parte da sua obra literária é precisamente aquela que ele dedica à longa história do comunitarismo em Portugal e à defesa desse ideal.
 
Essa corrente silenciosa e grandemente silenciada pretende (ou pretendeu, porque hoje pouca coisa de discussão política corre ou sequer escorre em Portugal) reviver ideias e práticas seculares de organização social local de tendências colectivistas que se cristalizaram durante a Idade Média e foram progressivamente desarticuladas à medida que o Estado se centralizava e o Direito perdia o seu tertium genus, que era o direito comum para vantagem do binómio público/privado.
 
O direito ao uso comum de terras foi consagrado juridicamente nas Ordenações Manuelinas: para “os haverem por seus ou por seus os coutarem e defenderem em proveito dos pastos e criações e logramento de lenha e madeira para as suas casas e lavouras”, porque “proveito comum e geral é de todos haver na terra abastança de pão e outros frutos”. Desde então, foi retrocedendo até praticamente desaparecer do Direito Civil durante o Estado Novo, ressurgindo timidamente na legislação posterior ao 25 de Abril de 1974.
 
No norte do país, como na Galiza, o uso comunitário dos baldios e a defesa da propriedade comunal está ainda viva, mas o facto de o poder autárquico se poder imiscuir na sua gestão tem resultado em infelizes atropelos ao direito comum, em benefício dos cofres de juntas de freguesia que cedem os baldios para, por exemplo, colocação de parques de eólicas em elevações ventosas. Sem estruturas, ideias ou pessoas que o defendam, o espaço do direito comunitário (que os ingleses designam como law of the commons, distinta da common law) é consumido pelo direito público e pelo direito privado.
 
A Serra da Arrábida está cheia de espaços baldios, de práticas comunitárias (ou pelo menos da sua memória). Mas, num mundo em que prevalecem os interesses públicos e privados, não podemos senão assistir saudosos à lenta morte trágica dos comuns. O caso, reportado nos jornais, da polémica em torno dos direitos comunitários no que respeita ao uso colectivo de espaços nas margens e interior da Herdade da Comenda (o parque das merendas junto à Ribeira da Ajuda, o acesso à praia, o caminho de Santiago) é claro sinal do estado comatoso em que se encontram hoje os ideais comunitaristas. A indignação popular contra as vedações instaladas pelo novo dono da Comenda, o fundo imobiliário Seven Properties, da Mirpuri Foundation, levou a que os setubalenses se concentrassem para gritar “A Comenda é nossa!” em 2019, numa manifestação em defesa do interesse comum. Mas rapidamente a autarquia se acaparou do processo, que a partir daí se transformou num jogo político no qual o direito público (nomeadamente o do embargo) tem digladiado contra o direito privado dos fundos de investimento turístico. E, por esta via, o direito dos comuns se vai esboroando até desaparecer, como uma praia sem areia na maré cheia.
 
 Jornal de Azeitão, Maio 2022
 
 
 
 

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​Azeitolândia

16/6/2021

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Se bem me lembro... foi há 15 anos, mais ano menos ano, que me sentei no gabinete do vereador da mobilidade da Câmara Municipal de Setúbal para lhe expor entusiasmado revolucionárias ideias de pedonalização da Rua José Augusto Coelho, o principal eixo viário de Vila Nogueira de Azeitão. Falei-lhe da importância de atender aos utentes frágeis na regeneração urbana, da urgência de melhorar a qualidade dos espaços públicos, da necessidade de revivificação do centro da vila. Citei-lhe, como se deve quando se pretende impressionar políticos portugueses, exemplos de grande sucesso vindos de fora, do estrangeiro. E saí da reunião certo de que tudo o que eu lhe tinha dito havia entrado por um ouvido e saído pelo outro, intocado por qualquer sinal de actividade neuronal. Na altura, admito, movia-me o fervor missionário e civilizador do arauto pregando a sustentabilidade urbana e a bondade da mudança de paradigma na gestão dos espaços públicos viários.
 
Alguns anos depois, por volta de 2012, começou a falar-se de planos de reabilitação urbana para Azeitão, com voluntariosas exposições na Casa do Povo por parte de políticos e técnicos camarários. Em 2013, a Assembleia Municipal aprovou uma deliberação definindo a área de reabilitação urbana de Azeitão (isto é, a área a intervencionar), passo prévio necessário para ser alterado o PDM e criar o plano estratégico da ORU (Operação de Reabilitação Urbana), o que veio a acontecer em 2016. O diagnóstico apresentado no preâmbulo do documento diz o óbvio para quem conhece um pouco a vila: população envelhecida, imobiliário degradado e 24% do casario devoluto. E ancora claramente toda a operação de reabilitação, não em preocupações com a melhoria da qualidade de vida da população, mas nas virtudes da promoção turística da região. Ou seja, o casco antigo da vila é olhado como isso mesmo: um casco. Um casco que, convenientemente esvaziado através de incentivos fiscais à transmissão imobiliária – nomeadamente por via da isenção do IMI e do IMT – poderá ser objecto de “reabilitação” para fazer do centro da vila uma Disneylândia para usufruto das turbas de turistas em busca do “produto Arrábida” (sic) e dos aromas de Baco. Toda a intervenção está pensada para fazer de Azeitão uma máquina de moedas. Para tal, há que lançar mão ao “património”, para o pôr a render: embelezar fontes, polir brasões, limpar fachadas, e decorar tudo a arvoredo e calçada “à portuguesa”. E lá está, preto no branco do plano estratégico, a inevitável referência à pedonalização da área.
 
O que o vereador da mobilidade não quis ouvir vindo de mim em 2005, vem agora o plano apregoar triunfantemente. Mas o entendimento do que é a função da pedonalização de espaços públicos viários alterou-se profundamente: a intervenção, segundo o ORU, não é feita a pensar em quem vive na vila, mas sim em quem a virá visitar; não serve para reter a população da vila, mas para a substituir por outra população mais afluente, provavelmente falante de francês ou de outra língua, europeia ou não. O plano estratégico da Câmara de Setúbal não é um plano de reabilitação mas sim de gentrificação e de turistificação da vila. E o que se passa no pequeno microcosmo de Azeitão, sabemos que se tem passado um pouco por todo o país – um país que pouco produz a não ser sol, que pouco vende a não ser “património”.
 
Vão longe os tempos em que, ingenuamente, me batia por melhor qualidade dos espaços públicos crendo que a pedonalização de ruas podia ser entendida pelos políticos portugueses como a atribuição (ou melhor, a reposição) dos direitos dos peões à rua. Na gíria da política nacional, a palavra “pedonalização” está intimamente ligada a visões de cifrões ganhos à custa do tolo turista que, sem ter aprendido as valiosas lições da pandemia do Covid19 e da necessidade de reduzir as emissões carbónicas das viagens aéreas, insiste em vir cá apanhar sol, afugentando dos centros urbanos os habitantes locais a que eles parecem achar tanta graça.
 
 Jornal de Azeitão, Junho 2021
 

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    Manuel joão ramos

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