MANUEL JOÃO RAMOS
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A Loucura Líquida

24/1/2026

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No capítulo de abertura do seu livro Into That Darkness, a escritora e jornalista austro-húngara Gitta Sereny descreve o episódio que, de alguma forma, inaugurou a obsessão de toda uma vida, a tentativa de compreender a moralidade do mal. Muito jovem, regressava em Setembro de 1934 de um internato em Inglaterra. O comboio que a levava de volta a Viena ficou parado na pequena cidade de Nuremberga, precisamente no dia final do congresso do Partido Nazi, imortalizado por Leni Riefenstahl no clássico propagandístico Triumph des Willens. Sem saber bem como nem porquê, acabou por ir ouvir Adolf Hitler discursar para uma plateia fanatizada num espectáculo nocturno iluminado por centenas de milhares de tochas. Conta que, não sabendo nada de Hitler e sem qualquer interesse pela política alemã, se surpreendeu a gritar e a cantar em uníssono com a multidão, chorando a ouvir as palavras do ditador. O que se tinha passado, como tinha acontecido que tivesse sido irresistivelmente absorvida pela loucura da multidão? As suas aturadas investigações do “trauma alemão” no pós-guerra, as suas longas entrevistas a personagens como Franz Stangl, o comandante de Sobibor e Treblinka, e a Albert Speer, o “arquitecto de Hitler”, são como que tentativas de compreender o que lhe tinha acontecido naquele estranho e longínquo dia.
A loucura das multidões, a submissão das massas, a força da propaganda, são temas que fascinam. Percebo a incredulidade e a perturbação que Gitta Sereny terá sentido, ao ver-se absorvida – dissolvida – por uma massa humana que lhe era completamente alheia. No mesmo café em que li, absorto do mundo, várias das suas obras, ouvi desprendidamente esta conversa:
 - Bem, ontem à noite às três, parecia uma festa. Eram uns porcos [javalis] a virar caixotes. Andam por todo o lado. Tá toda a gente velha de saber dos que vão tomar banho ao Creiro. Vão até lá baixo, vão à água, e voltam. Não chateiam a gente. Eles vão mas é aos caixotes, fuçar no lixo."
- O [...] deu conta de uns deles no terreno dele. Pegou da carabina e... pás! Quando foi ver, estavam dois estendidos, tava um ao lado do outro. Varou-os. Quando chegou lá, Olha, são dois. Foi bala de carabina. É uma bala que é uma coisa assim!. Eu também as tenho lá em casa.
- O porco mata-se é com zagalote. Com zagalote é que é! E não soubeste do rapaz, no topo das Necessidades? Há uns meses, pr'aí. Ficou todo esfacelado mas é, e mota foi p’á sucata. Bateu num e ia-se partindo todo."
- Às vezes tou na minha casa, lá no [...], e é um zumbido de balas, que faz favor. O [...] organiza montadas, e estão os homes no mato, nos esconderijos, ou nos postos ou lá o que é, à coca da saída das varas. Quando os cães começam a correr para os porcos, é só tiros por todo o lado. Não dá para dormir a noite toda!
- Parece qu'agora a licença é todo o ano, p'rós porcos.
Após um silêncio:
"O cunhado do [...], quando foi isto do apagão, dizia que vinham aí os russos. O gajo queria ir para a serra qu'a gente tinha lá as armas. Olha, pera aí, a gente pega na G3 e limpa os russos todos. Isto não há luz, eles vão atacar...
- A outra também dizia que o apagão era os russos que já tavam a invadir a Alemanha. Eles andaram p'raí com os navios à procura dos cabos da internet, isso andaram. Vamos a ver s'isto do apagão não tem mão deles. Se calhar é um aviso, é os russos a fazer testes!
- Sim, isto pode ter sido um ataque que apaga a luz! Eu ouvi dizer que foi. Ouvi tanta coisa. O que é que eles ainda não disseram que não foi?
Como é que a conversa, que girava em torno dos javalis, passou tão imperceptivelmente para o “apagão” e para o “perigo dos russos”? Terá sido a ideia de invasão? Afinal, os javalis, que andavam extintos há muitas décadas, ressurgiram e têm-se multiplicado na serra. São “porcos”, mas “porcos selvagens”, que roubam, destroem, danificam, e contra os quais, como ucranianos em trincheiras, os caçadores disparam. As histórias locais, os rumores sobre os javalis, entrecruzam-se com as notícias do mundo, e os ecos do tiktok. Elias Canetti, no seu livro Masse und Macht, categorizou as multidões pelos seus impulsos emocionais: de caça, de fuga, de festa. Ali no café, porém, estas categorias fundem-se numa tessitura ambígua. Canetti via na caça um acto de união, mas aqui, a cacofonia de métodos e motivações revela uma ansiedade difusa, onde o verdadeiro alvo não é o javali, mas o espectro da desordem. Do inimigo tangível a conversa derrapou para o inimigo intangível, o fantasma geopolítico, o espectro da Guerra Fria redivivo em tempos de fake news. A preparação para “limpar os russos” com G3, como se fossem a personificação de javalis, é uma narrativa líquida, nas palavras de Zygmunt Bauman.
A genialidade perversa destas "multidões discursivas" reside na sua capacidade de metabolizar ansiedades estruturais (o declínio rural, a dependência tecnológica) em inimigos palpáveis. Os javalis que reviram caixotes de lixo personificam a rebelião da natureza contra a domesticação da serra. Já os russos, cortando cabos no fundo do mar, encarnam o medo do invisível, do que sabota à distância. Ambos funcionam como bodes expiatórios metafóricos, absorvendo culpas que ninguém ousa nomear. A análise, porém, esbarra numa contradição. Para Canetti (e para Sereny), a multidão requer proximidade física, densidade corporal. Na Arrábida, porém, a “multidão” é etérea, dispersa em conversas de café, posts de Facebook e sussurros nas esquinas. É uma multidão que enlouquece não pela partilha de espaço, mas pela circulação de rumores.

Jornal de Azeitão, Junho 2025
O Público, 28 Maio 2025

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O Mundo Reenquadrado

24/1/2026

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Da cáustica pena de Mark Twain nasceu um retrato inolvidável: Tom Sawyer, obrigado pela tia a pintar a cerca do quintal, sabia que iria ser alvo de chacota do seu grupo de amigos; por isso, quando estes se aproximaram dele para lhe fazer inveja por não poder ir brincar nas margens do rio, ele decidiu reenquadrar a situação dizendo que a tia lhe tinha dado o privilégio exclusivo de pintar a cerca; imediatamente, os amigos lhe começaram a pedir que os deixasse também pintar e ele, após múltiplas súplicas, acabou por aceder, cobrando a cada um pelo privilégio de colaborar na tarefa; no final, não apenas os amigos fizeram todo o trabalho por ele, como arrecadou um pequeno tesouro: um papagaio de papel, um rato morto, doze berlindes, um giz, uma harmónica, um soldado de chumbo, dois girinos, entre outras preciosidades.
Paul Watzlawick, brilhante psicólogo da comunicação humana, ilustra com este episódio a sua tese sobre a “gentil arte do reenquadramento” como forma criativa de resolução de problemas, que ele contrapõe à prática do “mais do mesmo”, que pode ser descrita também como “insistir em soluções que não funcionam na expectativa de vir a obter resultados diferentes”. Não temos de concordar com Donald Trump para admitir que há nele algo de Tom Sawyer. Nestes três anos de guerra mortífera no leste da Ucrânia, o mundo pareceu estar, em várias ocasiões, perto do apocalipse; e durante este tempo os líderes europeus e norte-americanos foram repetindo o mantra do apoio ao governo ucraniano as long as it takes. À medida que os seus arsenais e recursos financeiros se esgotavam e que, simetricamente, a máquina industrial militar russa se fortalecia, começaram a tornar-se evidentes as desvantagens logísticas e a escassez de recursos humanos do lado ucraniano. A fantasia auto-complacente da guerra económica à Rússia com o objectivo último de conseguir uma “mudança de regime” e uma fragmentação do maior e mais auto-suficiente país do mundo, acabou por revelar sobretudo a fragilidade dos pilares das economias europeias e acelerar o desmantelamento há muito previsto da hegemonia unilateral norte-americana.
Durante três anos, a insistência em “soluções que não funcionam” lançou para mortes horríveis centenas de milhar de ucranianos e de russos, sacrificados na “luta pelos nossos valores”, preservando-se assim cinicamente as valiosas vidas europeias e norte-americanas – dos privilegiados habitantes do “jardim”, na tristemente memorável descrição do estulto ex-vice-presidente da Comissão Europeia, Josep Borrell. Pressenti em Fevereiro de 2022 que a vítima última desta guerra seria a “Europa”; escrevi até que a consequência do confronto seria, não a europeização da Ucrânia, mas a ucranização da Europa (ukraijna significa, nas línguas eslavas, “periferia” ou “terra de fronteira”). Três anos passados de elevadas expectativas, insuficiente capacidade de auto-análise, e inenarrável déficit de realismo, eis onde estamos: o centro nevrálgico do mundo deslocou-se inexoravelmente para leste, a Europa perdeu uma oportunidade de ouro de aceitar que não passa de uma modesta península da massa euroasiática, a interferência norte-americana nos assuntos europeus tornou-se um resquício do aparelho imperial anglo-saxónico.
Perante a evidência de que os equilíbrios resultantes do sistema geopolítico nascido da 2ª Guerra Mundial estavam a estalar, e de que o pêndulo da política norte-americana começava a cair para o lado da chamada doutrina Monroe, o aparelho da oligarquia burocrata de Bruxelas revelou não ter capacidade intelectual e anímica para produzir outra coisa que não “mais do mesmo”. E eis que Donald Trump regressa ao palco da política mundial e tira da manga a carta Tom Sawyer: com um telefonema ao seu homólogo russo, o problema das ligações transatlânticas foi reenquadrado no contexto do grande quebra-cabeças das relações russo-sino-americanas. O peão ucraniano foi sacrificado, o cavalo europeu foi chutado para um canto do tabuleiro, e o rei fez roque. O grande jogo prossegue agora, com os pusilânimes belicistas europeus sentados no banco dos suplentes.
Há uma expressão popular na Rússia cuja origem se encontra na comédia de Gogol, O inspector governamental: англичанка гадит, traduzível como “a inglesa caga”. Na essência, remete para a ideia comum de que os estrangeiros são sempre a causa dos problemas russos. No final do século XIX, a “inglesa” era a Rainha Vitória, e a sugestão era de que a Grã-Bretanha recorria aos bons ou maus ofícios dos turcos e dos franceses para conseguir os seus objectivos estratégicos de invadir as zonas de influência do império russo. De acordo com o historiador Alexander Dolinin, nesta e noutras expressões russas ecoa um tema perene no pensamento filosófico russo: o da decadência do Ocidente. Desde pelo menos a guerra da Crimeia de meados do séc. XIX que as correntes anglofóbicas na Rússia se alimentam em espelho da russofobia britânica. Não admira que, na visão do Kremlin, a guerra da Ucrânia seja vista, em grande medida, como um ardiloso projecto britânico para o qual tanto a União Europeia como os EUA foram estupidamente arrastados. Não admira também que a chegada de Donald Sawyer Trump à Casa Branca seja vista com alívio, como sinal de que a ressurreição da velha anglofobia inerente à identidade norte-americana desde a independência pode congelar temporariamente as eternas ambições territoriais anglo-europeias face à Rússia.
Face a este grande reenquadramento, juro que não me admirarei se alguém me disser que os EUA poderão vir a aderir aos BRICS e que a União Europeia cessará funções antes de 2030.


Jornal de Azeitão, Janeiro 2025 ​
O Público, 26 Fevereiro 2025
L'Accent, 23 Março 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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La dérision, nouvelle langue du pouvoir

24/1/2026

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L’humoriste d’avant-garde Andy Kaufman, en brouillant les frontières entre fiction et réalité, a involontairement préparé le terrain pour la persona politique hyperréelle de Donald Trump. Tous deux ont exploité le spectacle médiatique, la confusion du public et l’auto-mythification pour transformer la croyance en arme de pouvoir
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L’humoriste d’avant-garde américain Andy Kaufman a, dans les années 1970 et 1980, inventé des stratégies performatives radicales qui ont involontairement ouvert la voie à la persona politique hyperréelle de Donald Trump. Bien que séparés par plusieurs décennies – Kaufman mû par la provocation artistique, Trump par la conquête du pouvoir – tous deux ont su construire des identités abrasives et auto-mythologiques. Ils ont exploité la confusion entre réalité et fiction, tiré parti du spectacle médiatique et prospéré grâce à l’énergie transgressive. En examinant les performances de Kaufman (notamment Tony Clifton) parallèlement aux tactiques de Trump, et à la lumière du cadre d’analyse de James Poniewozik sur l’évolution des médias, on peut retracer une filiation directe : Kaufman a disséqué l’authenticité télévisuelle, révélant des vulnérabilités perceptives que Trump exploita plus tard avec un effet politique dévastateur. Comprendre cette lignée est essentiel pour diagnostiquer la fragilité démocratique contemporaine.
Andy Kaufman refusait les formes conventionnelles du stand-up ; il transformait clubs, plateaux de télévision et rings de catch en laboratoires pour interroger l’identité et la vérité. Comme le note son biographe Bill Zehme, Kaufman « vivait dans le point d’interrogation », laissant le public incertain de la sincérité ou de la satire de ses actes. Sa fusion entre interprète et personnage annonçait les théâtralités hyperréelles de Trump.
Au cœur de sa méthode se trouvait Tony Clifton, chanteur de cabaret grotesque et arrogant. Kaufman affirmait qu’il s’agissait d’une personne réelle, réservait des spectacles à son nom et restait dans le rôle hors scène. Clifton, exigeant et insultant, offrait une caricature du narcissisme ; ses vantardises rappellent celles de Trump : « Je suis le plus grand showman du monde » devenant « Je suis le seul à pouvoir le faire ».
Kaufman révéla la puissance de la télévision à fabriquer la croyance, refusant d’exposer un « vrai moi » et utilisant la confusion du public comme matière artistique. Là où Jean Baudrillard écrivait que « le simulacre devient vérité », Trump, des décennies plus tard, exploita cette faille : mensonges sur les foules, mythes complotistes, faits alternatifs.
Les farces de Kaufman, comme sa querelle mise en scène avec le catcheur Jerry Lawler, troublaient si bien la frontière du réel que le public y crut. Ce jeu du « C’est vrai ? » annonce la politique post-vérité que Lee McIntyre décrit comme un appui sur des affirmations « ressenties comme vraies » sans fondement factuel : instrument comique pour Kaufman, politique pour Trump.
Trump transforma ces stratégies en dispositif de masse : son émission The Apprentice en fit une autorité absolue, et ses meetings devinrent des performances émotionnelles plutôt que des débats. Comme Kaufman, il fit des médias un théâtre malléable, transformant tweets et conférences en événements.
Les deux figures reposent sur l’ambiguïté : Kaufman par ses provocations scéniques, Trump par ses mensonges systématiques. Les publics, chez l’un comme chez l’autre, participent activement au spectacle : rires ou huées chez Kaufman, cris de ralliement chez Trump. Cette complicité normalise la transgression et fragilise les garde-fous démocratiques.
Cependant, la divergence d’intention est décisive. Kaufman limitait sa subversion au champ artistique ; Trump l’appliqua au pouvoir réel. L’un incitait à réfléchir, l’autre à obéir. La confusion fut, pour Kaufman, un outil critique ; pour Trump, une arme politique. Là où l’art de Kaufman révélait les illusions médiatiques, Trump exploita ces failles pour miner la vérité partagée et menacer les institutions démocratiques.
Ainsi, la filiation entre la provocation d’Andy Kaufman et la démagogie de Donald Trump met en lumière la vulnérabilité de la réalité démocratique lorsqu’une stratégie de performance, dépouillée de toute visée critique, devient instrument de domination.


Textes à l'appui:
Baudrillard, Jean. Simulacra and Simulation. University of Michigan Press, 1981.
Bump, Philip. “Trump’s False Claims About the Inauguration Crowd.” The Washington Post, January 24, 2017, p. 45.
Carroll, Noel. Andy Kaufman: The Truth, Finally. BenBella Books, 2014.
Eslen-Ziya, Hande. “Populism and Trump: A Performance Perspective.” Society Register 4, no. 3 (2020): 7–24.
Gompertz, Will. Andy Kaufman: Wrestling with the American Dream. University of Minnesota Press, 2005.
Kellner, Douglas. American Nightmare: Donald Trump, Media Spectacle, and Authoritarian Populism. Sense Publishers, 2016.
Levitsky, Steven, and Daniel Ziblatt. How Democracies Die. Crown, 2018.
 

MediaPart, 12 Novembro 2025

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o rei trump

24/1/2026

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Duas obras que fornecem importantes pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45.o Presidente dos Estados Unidos da América:
Da quantidade de livros, artigos, podcasts e documentários que compõem a área multidisciplinar dos estudos trumpológicos, destacam-se duas obras de invulgar perspicácia e abrangência, ambas de 2016: Hypernormalisation, de Adam Curtis, e Trump, The Greatest Show on Earth, de Wayne Barrett.
A primeira é um retrato cáustico do maelstrom mundial espoletado pelo que o documentalista inglês descreve como a devastadora usurpação pela alta finança das actividades e funções próprias da acção política, no contexto da mundialização neoliberal. A segunda é um aturado estudo biográfico da família Trump, incidindo sobre os paralelos e contrastes entre a evolução do pai Fred e a do filho Donald. Tomadas em conjunto, as duas obras – um longo documentário de mais de duas horas e um livro de 525 páginas – fornecem boas pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45º Presidente dos Estados Unidos da América.
As duas obras revelam como é intelectualmente redutor retratá-lo seja como simples sobressalto extemporâneo na vida política norte-americana ou como manifestação proto-hitleriana dos fantasmas do nativismo, racismo e isolacionismo, e anunciador de futuros perigos cataclísmicos. Demonizá-lo poderá oferecer conforto psicológico e sentido de missão a quem vê na sua figura moralmente desprezível o íman de forças anti-liberais, xenófobas, ultra-conservadoras que urge combater, em nome da dignidade humana e de uma inabalável crença no progresso social. Mas o risco que corre quem o faz é perder de vista a magnitude do facto histórico de ele ocupar a sala oval da Casa Branca e, daí, lançar o caos fazendo descarrilar ordens estabelecidas, invertendo normas e valores, alterando, como um tufão, o curso esperado da história, mentindo, enganando, deturpando, desesperando, vitimizando.
Apesar das óbvias diferenças de personalidade e percurso, Donald Trump é como o seu pai um homem que floresceu e prosperou no insanável lodaçal da corrupção nova-iorquina, onde os tentáculos da criminalidade organizada abraçavam (e abraçam) os da política partidária, do aparelho judicial, do mundo empresarial e das instituições financeiras. Wayne Barrett, o falecido jornalista de investigação do Village Voice, desfia um extraordinário rosário de íntimas ligações dos Trump às máfias alemãs, italianas e judias, aos conglomerados impessoais, aos exércitos de advogados, às administrações públicas e ao enxame de ambições políticas que assolam a sociedade norte-americana. O não menos extraordinário rosário de transformações ideológicas e de progressivo descontrolo político e económico mundial a que Bill Clinton presidiu é a matéria do documentário de Adam Curtis. Juntos, dão-nos a ver um Trump simultaneamente mais humano e mais epopeico.
Um Trump mimado, temerário, frenético, cruel, vingativo, aldrabão, ganancioso e mesquinho. Mas também mais transcendente, e que não queremos reconhecer: a personificação monstruosa de tropos mitológicos cuja função é obrigar-nos a olhar ao espelho para ver o que não queremos ser, o horror ilógico que está em nós. Donald Trump, o ser híbrido onde a pessoa, o actor e o pesadelo se confundem, ocupa no ritual mediático em que estamos inelutavelmente submergidos a figura do personagem mítico do trickster, o enganador cuja energia criativa produz novos sentidos e dá a conhecer novas realidades. Improvável congregação do anão Rumpelstiltskin, do gigante Pantagruel e do eterno mestre Woland, Trump encarna num arrepiante registo kitsch a imagem do mundo ao contrário, o absurdo deleuziano que desmonta as ilusões do sentido. Da imensa galeria de tricksters fantasiados ao longo dos séculos pela literatura mundial, talvez nenhum assente melhor a Donald Trump do que a criação de Alfred Jarry: a do hediondo Rei Ubu. Confrontados com o teatro surreal em que ele tem imperado, somos como o revoltado público parisiense da noite de estreia da peça de Jarry, em 1896: atiramos-lhe memes à cara sem perceber que a anedota somos nós, as nossas expectativas utópicas e os nossos medos apocalípticos. 

O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 14 Outubro 2020
​MediaPart, 18 Outubro 2020

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O interregno

21/3/2025

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Não é coisa de todos os dias, subir a Serra da Arrábida palmilhando o carreiro que leva dos Picheleiros ao Alto do Formosinho. Com as pernas a doer, o coração a latejar e o fôlego a mingar, aqueles últimos metros que nos separam do cume testam o corpo e desafiam a vontade. A recompensa, entretanto, é valiosa e inolvidável. Lá em cima, entre o rochedo, o mar e o céu, podemos em paz fazer a paz com o mundo, lembrando a lição de Frei Agostinho da Cruz:
Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.
Ao fundo da longa estreita língua de terra arenosa, vislumbra-se em dia claro a ponta de Sines. E quem diria que ali, naquela ponta, naquele bico, os impérios do mar chocaram um dia tão desalmadamente com os impérios da terra? Meta final da laboriosa Nova Rota da Seda (Yidai Yilu, no original chinês) que atravessa a vastidão da imensa Eurásia, Sines é, também, a porta aberta à penetração do poderio marítimo anglo-saxónico na massa da “Ilha-Mundo”, na expressão de Harold Mckinder, o inventor britânico dos estudos de geoestratégia.
Foi há coisa de oito meses que, em drama farrusco e embaçado, se demitiu um primeiro-ministro, caiu um governo, e terminou uma legislatura. Com meia dúzia de escutas e envelopes de dinheiro escondidos numa qualquer estante, se fabricou o que aparentava ser uma farsa canhestra, mas na realidade foi um magistral passe de mágica com a força de mil Oudinis. No essencial, a intriga ditou que, em voz muito alta, se invetivassem políticos, se esgrimissem insultos e se escavassem suspeitas, para que o inocente público não visse, não apercebesse, a clamorosa batalha de titãs que se travava entre interesses multinacionais contraditórios em torno de fontes energéticas críticas, plataformas logísticas de transporte e redes de transmissão de dados. Como se fora o mostrengo de Pessoa, tinha subido à superfície da ponta de Sines um Golem, amálgama disforme feita de lítio, LNG, hidrogénio e fibras ópticas ostentando, tal Janus, duas faces antitéticas: uma oriental, e a outra ocidental, cada uma querendo comer a sua contraparte. E, maravilha das maravilhas, o magno manto da prestidigitação cobriu o monstro da cabeça aos pés de barro, e fê-lo esvanecer-se perante os nossos incrédulos olhos e apagar-se da nossa apequenada memória colectiva.
O restolhar excêntrico das ondas que se propalaram do remergulho do Golem na baía de Sines terá certamente atingido, ao de leve, o areal da praia do Creiro, cujo recorte em meia-lua se vislumbra a partir do quebrado marco geodésico do Alto do Formosinho. Mas o mar está manso, o ar é meigamente salgado e, lá ao fundo, a vila de Sines parece ter retomado a sua pacatez centenar. A muda paisagem conversa connosco aqui no cume da serra; sob o céu benevolente, o diálogo silencioso entre a fixura ctónica e o fluor pelágico ensina-nos a degustar o interregnum de que falava Gramsci, aquele longo momento em que o mundo velho definha e o novo aguarda por nascer.
O Portugal contemporâneo – que o era já na prosa das Farpas – é o lugar onde a crise assentou com tal conforto que se fez crónica. E, como nos “interregnos”, culminares de estados de crise, despontam sempre neutrões oportunistas, o nosso bojo tem sabido expelir para o mundo, nas últimas décadas, vários ínclitos personagens, que Eça e Ortigão designaram um dia como “Eleutérios”, gente que, tendo evidenciado sábia incompetência, era agraciada com postos sempre mais elevados na fazenda real. Salutar doutrina esta, que determina que um primeiro-ministro que tropece antes da meta e não complete o mandato da legislatura seja alçado a cargos de relevo internacional. Para um Eleutério, nenhum cargo é inalcançável: Durão na presidência da Comissão Europeia, Guterres como secretariado-geral das Nações Unidas, e agora Costa no Conselho Europeu… Mas a história recente também conta que o país produz génios para os quais nenhum cargo mundial é sapato suficientemente largo para a grandeza do pé: a estatura de um José Sócrates ou de um Pedro Santana Lopes é de tal munificência que as instituições internacionais não puderam ainda inventar agraciamento suficiente para os acolher.
Era nestes mistérios místicos da natureza humana que eu cogitava absorto, acariciado pela brisa marítima no cume da Arrábida, quando de súbito senti nas narinas abertas uma baforada de fish and chips.

 Jornal de Azeitão, Julho 2024 
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​Reparações imBRICadas

4/6/2024

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Soaria bem clamar que “à história o que é da história, à política o que é da política”. Mas, sabemos, a apropriação da história é um dos mais concorridos truques do receituário da prestidigitação governativa. Não me consta que as teses de Antonio Gramsci ou de Mikhail Bakhtin tenham sido consultadas em preâmbulo ao presente processo de revisão da mitologia histórica nacional, cujas fagulhas foram recentemente agitadas pelo nosso estúrdio presidente e parecem estar a incendiar o pequeno nicho da burguesia bem-pensante lisboeta. Um e outro teriam de imediato feito notar que, no que respeita aos discursos auto-expiatórios favoráveis à reparação histórica que propugnam uma reforma radical da mensagem identitária do mito da expansão portuguesa, os seus arautos não se situam propriamente do lado de lá da cerca da “hegemonia cultural”. Não é o “povo” oprimido, excluído e marginalizado que, nos musseques, nas tabancas e nas favelas, reclama reparação, expiação e reescrita da história nacional lusa. Esse “povo”, lá longe, tem uma média de idade 25 anos e não revela preocupação em reavivar memórias do período colonial. O grito pela reparação provém das nossas paternais elites auto-proclamadas defensoras de direitos alheios. Pessoalmente, suscita-me fortes dúvidas a mensagem da redenção civilizacional pela expiação da consciência. Até ao dia em que Marcelo Rebelo de Sousa aceite ou seja forçado a trocar a sua mansão cascalense com uma família alargada da Cova da Moura, ou que os lustrosos académicos pró-reparação aprendam a manejar uma espátula e uma talocha de pedreiro, não vejo como dar crédito à celeuma.

Mas, havendo desejo urgente de reescrever, para efeitos políticos domésticos, a estafada história da glória da nação, então façamo-lo com maior desassombro e ensinemos logo nos bancos da escola primária que, identidade nacional à parte, a razão da continuada existência do estranho parcelamento territorial que delimita o rectângulo português no conjunto geográfico da Península Ibérica se deve, em grande medida, à perenidade da interferência geopolítica das elites anglo-britânicas nos assuntos da Hispânia. Perguntemo-nos se Portugal não será porventura o mais antigo domínio colonial britânico, e se não terá sido aqui que a técnica administrativa da indirect rule foi inicialmente afinada. Os cruzados ingleses saquearam Lisboa antes que Afonso Henriques pusesse um pé no castelo de São Jorge; o fundador dos “Descobrimentos” era mais Henry que Henrique; e, de todos os Braganças, só D. Maria I fez realmente frente aos interesses britânicos, ao acordar com a Czarina Catarina da Rússia a nossa entrada na Liga dos Neutros; não há como explicar as misérias do séc. XX português sem contabilizar a dívida catastrófica do período da Regeneração à banca britânica – dívida que só foi liquidada, diz-se, em 2015. Matéria, diria, para reclamar reparações históricas a Downing Street e a Westminster.

Se nos vamos dispôr a rever colectivamente o passado nacional, e não há mal nenhum nisso, devemos então, para manter um módico de coerência e sanidade, aceitar repensar o presente e reimaginar o futuro. Que eu saiba, o “povo” de cá, de Cevide à Culatra e do Corvo à Paradela, não foi nem tido nem achado no processo de adesão à CEE, nem indagado à boca do Tratado de Lisboa. No discurso oficial de glorificação da União Europeia não consta uma palavra sobre as evidências da dominação política, financeira e económica do sul da Europa pelo Norte protestante, e muito menos um reconhecimento de que a Península Ibérica é tanto o extremo sul do Atlântico Norte como o extremo ocidental do milenar mundo mediterrânico. O projecto “europeu” é, desde a nascença, uma lobotomização ideológica de continuidades históricas e geográficas, seja para sul, seja para leste. A bem dizer, a “Europa” não é um continente, é até menos subcontinente que a Índia: é um anexo estridente e ególatra da grande massa asiática.

Actualmente, perante a transformação evidente da União Europeia em organização vassala dos interesses geoestratégicos da NATO, e da perda da sua função original de instrumento de resolução de conflitos, é legítimo perguntarmo-nos se vale mesmo a pena continuarmos a vender tão barato a nossa soberania aos interesses do atlantismo anglo-saxónico.

Não há um economista honesto que, sem se rir, possa dizer que Portugal é um “país desenvolvido”. Numa curiosa inversão da mensagem de Thomas Moore, que imaginou os habitantes da ilha da Utopia a transitar do estado de barbárie ao estado de perfeição social sem ter de sofrer as dores das desigualdades civilizacionais, os portugueses transmutaram-se de pobres subdesenvolvidos a pós-industrializados, sem terem verdadeiramente experimentado um momento de contrato social rousseauniano. Com um passe de mágica, Bruxelas convenceu-nos que, se e enquanto formos “bons alunos da Europa”, aclaramos a pele, azulamos os olhos e alouramos o cabelo. E, com complacente paternalismo, os “verdadeiros europeus” aceitam-nos no clube e até acedem a vir cá comprar o melhor que temos para oferecer: sol, mansões e pastéis de nata.
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Seria engraçado acordarmos uma manhã e reconhecermos que, náufragos de uma jangada feita de pedra-pomes, nos agarramos irreflectidamente à boia da União Europeia sem repararmos que os seus furos aumentam de tamanho a cada dia que passa. Talvez então nos olhássemos ao espelho e nos perguntássemos por que razão é tabu nacional discutir uma possível adesão à parceria dos BRICS+ como parceiro júnior do “país irmão” e abraçar assim, de forma positiva, a história imbricada das nossas ligações a África, à Ásia e à América Latina. Seria uma maneira mais razoável de proceder a uma reparação histórica que andarmos a gastar hóstias em murmúrios de auto-expiação.
 
Diário de Notícias, 5 Maio 2024
O Público, 7 Maio 2024


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Dar que Pensar

4/6/2024

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São múltiplas e infinitamente variáveis as motivações dos mais ou menos 250 milhões de seres humanos convocados para, nos 27 países da “União Europeia”, praticar no dia 9 de Junho um ritualizado acto de fé.
Deixo aqui de lado a espinhosa questão de definir a palavra “democracia”, não sem primeiro notar que o filósofo holandês Matthijs van Boxsel a descreveu como a suprema expressão da estupidez humana: o povo, chamado a afirmar uma voz colectiva através do acto eleitoral, dissolve-se, eclipsa-se, desaparece, no exacto momento em que é suposto manifestar-se, porque é substituído no acto pelo eleitor que se encontra sozinho na cabine de voto a defender o seu interesse individual.
Giorgio Agamben, um outro filósofo, desta vez italiano, publicou recentemente um ensaio que dá que pensar. Intitulado “Europa ou a Impostura”, o texto argumenta que quase nenhum dos referidos 250 milhões de indivíduos eleitores se questiona sobre o significado político do seu acto, já que o chamado “parlamento europeu” não é, a bem dizer, um parlamento no sentido em que os parlamentos nacionais o são. O “parlamento europeu” não é um órgão legislativo com poder de produzir leis. Esse poder repousa exclusivamente nas mãos da Comissão Europeia, uma instituição de carácter burocrático que o autor define como uma impostura que se exime ao sufrágio democrático.
Nem poderia ser de outra maneira, já que – como notou o famoso constitucionalista Dieter Grimm -, não existe a bem dizer um “povo europeu” que alguma vez se tenha expresso no sentido de aprovar uma constituição comum. Deste modo, a União Europeia não tem realidade legal e política legítima à face do Direito Internacional, e o “parlamento europeu” não resulta de um verdadeiro poder constituinte. A “Europa”, lembra Agamben, é uma impostura que simula que o “parlamento europeu” é uma fonte do Direito, quando na verdade o poder constituinte foi acaparado por uma burocracia de não eleitos que, com o objectivo de se perpetuar, criou uma entidade pseudo-legislativa com existência fantasmática.
De mil e uma formas, a nossa insignificante rotina diária é tocada pela ciclópica máquina de produção de regras e normas que é a “União Europeia”. Como acontece com o governo nacional, também o poder local é excessivamente esvaziado de autoridade legítima e se resume ao papel de veio de transmissão obediente e passivo do poder eurocrático. Esse poder é imensamente complexo e tornou-se demasiado entranhado para podermos imaginar a possibilidade de construir vida política para lá do seu âmbito. Mas, como também nota Agamben, a “União Europeia” é o principal obstáculo à materialização de uma Europa política.
Presos por votar, presos por não votar, lá nos encaminharemos no dia 9 para as cabines de voto a pensar como resolver os nossos problemas pessoais, familiares e comunitários: o fim do dinheiro antes do fim do mês, a espiral interminável da perda do poder de compra, a ausência de luzes no túnel infindável da nossa impotência. Assim como assim, acho mais bonito o acto de fé que é a missa dominical – aí, ao menos, sentimo-nos reconfortados na nossa pequenez pela natureza colectiva da comunhão ritual. E, se nos der para isso, podemos rezar para que, se se desagregarem  o euro e Schengen – as inefáveis colas que vão segurando as tábuas da geringonça da EU –, o Céu não nos caia na cabeça com demasiada força.
 
Diário de Notícias, 27 Maio 2024
 
 
 

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​Dar que Pensar

4/6/2024

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São múltiplas e infinitamente variáveis as motivações dos mais ou menos 250 milhões de seres humanos convocados para, nos 27 países da “União Europeia”, praticar no dia 9 de Junho um ritualizado acto de fé.
Deixo aqui de lado a espinhosa questão de definir a palavra “democracia”, não sem primeiro notar que o filósofo holandês Matthijs van Boxsel a descreveu como a suprema expressão da estupidez humana: o povo, chamado a afirmar uma voz colectiva através do acto eleitoral, dissolve-se, eclipsa-se, desaparece, no exacto momento em que é suposto manifestar-se, porque é substituído no acto pelo eleitor que se encontra sozinho na cabine de voto a defender o seu interesse individual.
Giorgio Agamben, um outro filósofo, desta vez italiano, publicou recentemente um ensaio que dá que pensar. Intitulado “Europa ou a Impostura”, o texto argumenta que quase nenhum dos referidos 250 milhões de indivíduos eleitores se questiona sobre o significado político do seu acto, já que o chamado “parlamento europeu” não é, a bem dizer, um parlamento no sentido em que os parlamentos nacionais o são. O “parlamento europeu” não é um órgão legislativo com poder de produzir leis. Esse poder repousa exclusivamente nas mãos da Comissão Europeia, uma instituição de carácter burocrático que o autor define como uma impostura que se exime ao sufrágio democrático.
Nem poderia ser de outra maneira, já que – como notou o famoso constitucionalista Dieter Grimm -, não existe a bem dizer um “povo europeu” que alguma vez se tenha expresso no sentido de aprovar uma constituição comum. Deste modo, a União Europeia não tem realidade legal e política legítima à face do Direito Internacional, e o “parlamento europeu” não resulta de um verdadeiro poder constituinte. A “Europa”, lembra Agamben, é uma impostura que simula que o “parlamento europeu” é uma fonte do Direito, quando na verdade o poder constituinte foi acaparado por uma burocracia de não eleitos que, com o objectivo de se perpetuar, criou uma entidade pseudo-legislativa com existência fantasmática.
De mil e uma formas, a vida de todos os dias em Azeitão é tocada pela ciclópica máquina de produção de regras e normas que é a “União Europeia”. Como acontece com o governo nacional, também o poder local é excessivamente esvaziado de autoridade legítima e se resume ao papel de veio de transmissão obediente e passivo do poder eurocrático. Esse poder é imensamente complexo e tornou-se demasiado entranhado para podermos imaginar a possibilidade de construir vida política para lá do seu âmbito. Mas, como também nota Agamben, a “União Europeia” é o principal obstáculo à materialização de uma Europa política.
Presos por votar, presos por não votar, lá nos encaminharemos para as cabines de voto a pensar como resolver os nossos problemas pessoais, familiares e comunitários: o fim do dinheiro antes do fim do mês, a espiral interminável da perda do poder de compra, a ausência de luzes no túnel infindável da nossa impotência. Assim como assim, acho mais bonito o acto de fé que é a missa dominical – aí, ao menos, sentimo-nos reconfortados na nossa pequenez pela natureza colectiva da comunhão ritual.
 
 Jornal de Azeitão, Junho 2024
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O cheiro da pólvora

4/6/2024

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Mais quilómetro, menos quilómetro, a Faixa de Gaza tem a mesma extensão que o território que, de norte a sui, vai do estuário do Tejo à linha de costa da Arrábida e, de oeste para leste, dos areais da Costa da Caparica ao curso da Ribeira de Coina. Mais ou menos os mesmos 365 quilómetros quadrados. Não é difícil imaginar dois milhões de pessoas nesta fatia da Margem Sul. Mesma linha de praias, mesma hidrografia, e mesma orografia – se exceptuarmos as arribas sedimentares da serra da Arrábida. Para sul, num caso, a vastidão do deserto do Sinai e, no outro, a imensidão do oceano Atlântico.
 
Imaginemos que eram largadas, em três semanas, 30 mil bombas e mísseis sobre esta faixa da Margem Sul, mobilizado em seu redor um número de soldados equivalente à capacidade de cinco estádios do Benfica, mortas 10 mil pessoas e feridas outras 20 mil. Independentemente das emoções políticas, do horror ético e da mobilização social que um tal acontecimento catastrófico teria, não custa pensar que as rotinas da vida em Azeitão – a escassos quilómetros da fronteira da Ribeira de Coina –, continuariam a decorrer com normalidade. Malgrado o incómodo ruído dos bombardeamentos e o cheiro da pólvora, dos incêndios e dos corpos calcinados, os cafés e restaurantes para cá dessa faixa continuariam abertos, as escolas continuariam a funcionar, e o combustível continuaria disponível nas estações de serviço.
 
O sentimento de irrealidade da guerra não seria muito distinto daquele que um azeitonense sente hoje, face à tragédia de Gaza. Seria igualmente um sentimento de impotência e alheamento, independentemente da solidariedade ou ausência dela perante as vítimas e o desastre humanitário. Não se trata de uma questão de “não é nada comigo”, mas de necessária compartimentação mental entre difusas emoções e racionalizações políticas e prementes necessidades de prover o dia-a-dia.
 
Estive, há anos, a poucos quilómetros de uma frente de batalha no norte da Etiópia. Vi hospitais sobrelotados, gente mutilada, mobilizações apressadas de milhares de jovens arrancados das famílias, e o crocitar das armas para lá do horizonte. E, aí, confrontei-me com esta mesma irrealidade e esta mesma dissonância cognitiva entre a terrível violência da guerra e a normalidade possível da vida do lado de fora do seu perímetro. As crianças continuavam a ir para a escola, as lojas continuavam abertas, e as rotinas diárias adaptavam-se às inúmeras restrições impostas – dos black-outs aos cortes de água, das estradas cortadas à penúria de mantimentos, do choro e da raiva individual à lavagem cerebral colectiva da propaganda governamental.
 
Quem, em Azeitão, no Cairo ou em Reiquiavique, se emociona hoje com a tragédia de Gaza – seja a poucos ou a muitos quilómetros de distância –, porque ela entra pelos olhos dentro graças à profusão de notícias provenientes de múltiplas plataformas de comunicação social, tem normalmente a quase certeza de que ela não altera os seus ciclos de vida diária. Poderá racionalizar e emitir opiniões, manifestar a sua indignação ou não, mas, não havendo transbordar do perímetro ritual da guerra para a sua zona de conforto, não deixará de estar atento às promoções do supermercado da sua vizinhança.
 
Tal como podemos duvidar que uma folha de árvore tenha caído se ninguém a vir cair, desdenhamos das tragédias que ocorrem todos os dias quando a comunicação social não nos oferece num prato de morbidez o testemunho da sua realidade. Por extraordinário passe de magia, o horror de Gaza (complementado pelo horror menor da Cisjordânia) eclipsou nas nossas mentes o horror da Ucrânia. Mas esses horrores existem para nós porque no-los injectam. Todos os outros simultâneos horrores que pontuam a vida humana no planeta não têm direito à nossa comiseração ou sequer ao nosso reconhecimento.
 
Nota: no ano de 2023, estes foram os conflitos violentos de que resultaram mais de 10 mil mortes: Myanmar, Magrebe e Sahel, México, Ucrânia, Etiópia e Sudão. Os conflitos de que resultaram até 10 mil mortes foram: Colômbia, Afeganistão, Somália, Nigéria, Congo, Iraque, Sudão do Sul, Síria, Iémen e Haiti.
 
Jornal de Azeitão, Novembro 2023​
 

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MARODERS e Pelourinhos

6/10/2022

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​Em 26 de Outubro de 2019, durante uma mediática visita à frente de batalha no Donbass, o recentemente eleito presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, envolveu-se numa dura troca de palavras com Denys Yantar, um veterano do Batalhão Azov, na vila de Zolote, no Oblast de Luhansk. O Batalhão, que nessa altura estava em vias de ser incorporado na estrutura regular de defesa territorial, lançou a campanha pública “Não à capitulação”, com o declarado objectivo de sabotar as incipientes iniciativas de pacificação entre o governo ucraniano e os revoltosos de Donetsk e Luhansk.
 
O momento em que Zelensky, surgindo pela primeira vez perante as câmaras em uniforme militar, implorava a Yantar que depusesse as armas foi mostrado na televisão nacional ucraniana, e causou uma tempestade de comentários e ameaças nas redes sociais do país. Yantar tinha previamente insinuado perante Zelensky que uma rebelião estava a ser preparada caso ele não desistisse de buscar soluções negociadas para o fim dos combates no Donbass, a promessa eleitoral que lhe tinha garantido a eleição, meses antes. Este episódio enterrou simbolicamente os chamados Acordos de Minsk, e esteve na origem de uma viragem de 180 graus na postura política de Zelensky. Mais tarde, o batalhão Azov acabou por se retirar de Zolote e concentrar-se em Mariupol, mas, como os então revoltados os meios de comunicação ocidentais não deixaram de notar, a guerra no Donbass intensificou-se dramaticamente.
 
Os discursos dos nacionalistas contra o jovem presidente tornaram-se cada vez mais inflamatórios. No seu canal Youtube, Andriy Biletsky, o líder do Batalhão Azov e do seu ramo político, o Corpo Nacional, jurou levar para Zolote milhares de militantes caso o presidente tentasse recuar a linha da frente, como previsto. Sofia Fedyna, deputada do Partido Solidariedade Europeia, ameaçou o presidente de morte. Poder-se-ia dizer que o estado de graça de Zelensky tinha terminado, mas na verdade ele nunca tinha chegado a existir. Em 27 de Maio de 2019, apenas uma semana após a investidura de Zelensky na Rada, Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário Ucraniano, em entrevista ao Obozrevaltel, reafirmou a tese do anterior presidente, Petro Porochenko, de que os Acordos de Minsk não eram para ser cumpridos mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia e, que se o presidente não concordasse com este plano e “traísse a Ucrânia”, não seria demitido mas morto: “ele perderá a vida. Será atado contra uma árvore em Khreschatyk (a principal avenida de Kiev)”.

A riqueza de sentido desta expressão pode facilmente passar despercebida a quem não esteja familiarizado com as especificidades da tradição de punição extra-judicial – a chamada justiça popular – na Ucrânia, e com a sua progressiva politização nos últimos anos. É notável, desde o início da operação de cobertura mediática internacional da guerra da Ucrânia, como os correspondentes das inúmeras televisões e jornais ocidentais nas cidades ucranianas têm passado em silêncio a muito visível forma de punição pública dos chamados maroders (“pilhadores”, “ladrões”). A menos que um jornalista nunca saia do seu hotel, dificilmente deixará de se confrontar com exemplos desta prática, em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita cola ou, mais recentemente com película aderente, as calças ou saias baixadas, as nádegas fustigadas com chibatas ou varas, e a cara pintada com tinta verde indelével. Habitualmente, este castigo público, aplicável tanto a homens como a mulheres, a idosos e a adolescentes, era sobretudo direccionado a ladrões que se aproveitavam da ausência de policiamento para pilhar comida ou pequenos objectos de consumo. A partir do momento em que o uso da língua russa foi proibido no país, e as tensões contra os habitantes do Donbass aumentaram de intensidade, esta forma de punição pública começou a ser dirigida contra quem fosse suspeito de ser russófilo, ou simplesmente quem fosse ouvido a, por exemplo, falar ao telemóvel em russo. Se originalmente a punição era praticada de forma espontânea por populares para castigar marginais, a partir de 2014 as milícias nacionalistas adoptaram esta forma de punição como meio de perseguição política. A violência dos actos aumentou, e o sadismo foi como que normalizado. Não é, portanto, difícil de entender o sentido das palavras ameaçadoras do Comandante Yarosh contra Zelensky: tendo este sido eleito em parte graças ao voto  das populações russófonas da Ucrânia, e sendo ele próprio russófono (como admitiu, apenas aprendeu a falar ucraniano dois anos antes da sua candidatura à presidência do país), ameaçar atá-lo a uma árvore na avenida principal de Kiev foi uma forma colorida de o identificar como potencial traidor ao ideal nacionalista ucraniano.
 
O simbolismo do atar alguém a uma árvore ou poste como punição de um acto de traição política tem uma imensa profundidade histórica nos imaginários ucraniamo e russo. Foi desta forma que em 945 D.C., de acordo com a Crónica Primária do Rus, o Príncipe Igor de Kiev, marido de Olga, a santa padroeira da Ucrânia, foi punido e morto pelos eslavos drevilianos, em revolta contra a colecta de impostos por parte do Rus de Kiev. Este episódio – assim como a chamada vingança de Olga –, sendo praticamente desconhecido no Ocidente, é, no entanto, informação tão normativa na Ucrânia quanto a putativa bofetada de Afonso Henriques à sua mãe. A corrente punição pública dos maroders na Ucrânia tem assim um efeito de actualização ritual de uma história milenar complexa e fortemente contestada por russos e ucranianos, e que se reporta à reclamação nacionalista das origens do Rus, e à miscigenação entre eslavos, vikings e tártaros.
 
Uma boa parte das cidades e vilas portuguesas ostenta, orgulhosamente preservados, postes de punição pública medieval: os pelourinhos. Não nos ocorre presentemente recorrer a eles para castigar delinquentes, mas, à força de nos convencerem que a solidariedade com a Ucrânia é um passo essencial na defesa dos valores tradicionais europeus, não é difícil imaginar que os pelourinhos venham a ser reactivados. Um dia destes.
 
O Público, 27 Agosto 2022
L'Accent, 28 Agosto 2022
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    Manuel joão ramos

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