MANUEL JOÃO RAMOS
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A Loucura Líquida

24/1/2026

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No capítulo de abertura do seu livro Into That Darkness, a escritora e jornalista austro-húngara Gitta Sereny descreve o episódio que, de alguma forma, inaugurou a obsessão de toda uma vida, a tentativa de compreender a moralidade do mal. Muito jovem, regressava em Setembro de 1934 de um internato em Inglaterra. O comboio que a levava de volta a Viena ficou parado na pequena cidade de Nuremberga, precisamente no dia final do congresso do Partido Nazi, imortalizado por Leni Riefenstahl no clássico propagandístico Triumph des Willens. Sem saber bem como nem porquê, acabou por ir ouvir Adolf Hitler discursar para uma plateia fanatizada num espectáculo nocturno iluminado por centenas de milhares de tochas. Conta que, não sabendo nada de Hitler e sem qualquer interesse pela política alemã, se surpreendeu a gritar e a cantar em uníssono com a multidão, chorando a ouvir as palavras do ditador. O que se tinha passado, como tinha acontecido que tivesse sido irresistivelmente absorvida pela loucura da multidão? As suas aturadas investigações do “trauma alemão” no pós-guerra, as suas longas entrevistas a personagens como Franz Stangl, o comandante de Sobibor e Treblinka, e a Albert Speer, o “arquitecto de Hitler”, são como que tentativas de compreender o que lhe tinha acontecido naquele estranho e longínquo dia.
A loucura das multidões, a submissão das massas, a força da propaganda, são temas que fascinam. Percebo a incredulidade e a perturbação que Gitta Sereny terá sentido, ao ver-se absorvida – dissolvida – por uma massa humana que lhe era completamente alheia. No mesmo café em que li, absorto do mundo, várias das suas obras, ouvi desprendidamente esta conversa:
 - Bem, ontem à noite às três, parecia uma festa. Eram uns porcos [javalis] a virar caixotes. Andam por todo o lado. Tá toda a gente velha de saber dos que vão tomar banho ao Creiro. Vão até lá baixo, vão à água, e voltam. Não chateiam a gente. Eles vão mas é aos caixotes, fuçar no lixo."
- O [...] deu conta de uns deles no terreno dele. Pegou da carabina e... pás! Quando foi ver, estavam dois estendidos, tava um ao lado do outro. Varou-os. Quando chegou lá, Olha, são dois. Foi bala de carabina. É uma bala que é uma coisa assim!. Eu também as tenho lá em casa.
- O porco mata-se é com zagalote. Com zagalote é que é! E não soubeste do rapaz, no topo das Necessidades? Há uns meses, pr'aí. Ficou todo esfacelado mas é, e mota foi p’á sucata. Bateu num e ia-se partindo todo."
- Às vezes tou na minha casa, lá no [...], e é um zumbido de balas, que faz favor. O [...] organiza montadas, e estão os homes no mato, nos esconderijos, ou nos postos ou lá o que é, à coca da saída das varas. Quando os cães começam a correr para os porcos, é só tiros por todo o lado. Não dá para dormir a noite toda!
- Parece qu'agora a licença é todo o ano, p'rós porcos.
Após um silêncio:
"O cunhado do [...], quando foi isto do apagão, dizia que vinham aí os russos. O gajo queria ir para a serra qu'a gente tinha lá as armas. Olha, pera aí, a gente pega na G3 e limpa os russos todos. Isto não há luz, eles vão atacar...
- A outra também dizia que o apagão era os russos que já tavam a invadir a Alemanha. Eles andaram p'raí com os navios à procura dos cabos da internet, isso andaram. Vamos a ver s'isto do apagão não tem mão deles. Se calhar é um aviso, é os russos a fazer testes!
- Sim, isto pode ter sido um ataque que apaga a luz! Eu ouvi dizer que foi. Ouvi tanta coisa. O que é que eles ainda não disseram que não foi?
Como é que a conversa, que girava em torno dos javalis, passou tão imperceptivelmente para o “apagão” e para o “perigo dos russos”? Terá sido a ideia de invasão? Afinal, os javalis, que andavam extintos há muitas décadas, ressurgiram e têm-se multiplicado na serra. São “porcos”, mas “porcos selvagens”, que roubam, destroem, danificam, e contra os quais, como ucranianos em trincheiras, os caçadores disparam. As histórias locais, os rumores sobre os javalis, entrecruzam-se com as notícias do mundo, e os ecos do tiktok. Elias Canetti, no seu livro Masse und Macht, categorizou as multidões pelos seus impulsos emocionais: de caça, de fuga, de festa. Ali no café, porém, estas categorias fundem-se numa tessitura ambígua. Canetti via na caça um acto de união, mas aqui, a cacofonia de métodos e motivações revela uma ansiedade difusa, onde o verdadeiro alvo não é o javali, mas o espectro da desordem. Do inimigo tangível a conversa derrapou para o inimigo intangível, o fantasma geopolítico, o espectro da Guerra Fria redivivo em tempos de fake news. A preparação para “limpar os russos” com G3, como se fossem a personificação de javalis, é uma narrativa líquida, nas palavras de Zygmunt Bauman.
A genialidade perversa destas "multidões discursivas" reside na sua capacidade de metabolizar ansiedades estruturais (o declínio rural, a dependência tecnológica) em inimigos palpáveis. Os javalis que reviram caixotes de lixo personificam a rebelião da natureza contra a domesticação da serra. Já os russos, cortando cabos no fundo do mar, encarnam o medo do invisível, do que sabota à distância. Ambos funcionam como bodes expiatórios metafóricos, absorvendo culpas que ninguém ousa nomear. A análise, porém, esbarra numa contradição. Para Canetti (e para Sereny), a multidão requer proximidade física, densidade corporal. Na Arrábida, porém, a “multidão” é etérea, dispersa em conversas de café, posts de Facebook e sussurros nas esquinas. É uma multidão que enlouquece não pela partilha de espaço, mas pela circulação de rumores.

Jornal de Azeitão, Junho 2025
O Público, 28 Maio 2025

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O Mundo Reenquadrado

24/1/2026

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Da cáustica pena de Mark Twain nasceu um retrato inolvidável: Tom Sawyer, obrigado pela tia a pintar a cerca do quintal, sabia que iria ser alvo de chacota do seu grupo de amigos; por isso, quando estes se aproximaram dele para lhe fazer inveja por não poder ir brincar nas margens do rio, ele decidiu reenquadrar a situação dizendo que a tia lhe tinha dado o privilégio exclusivo de pintar a cerca; imediatamente, os amigos lhe começaram a pedir que os deixasse também pintar e ele, após múltiplas súplicas, acabou por aceder, cobrando a cada um pelo privilégio de colaborar na tarefa; no final, não apenas os amigos fizeram todo o trabalho por ele, como arrecadou um pequeno tesouro: um papagaio de papel, um rato morto, doze berlindes, um giz, uma harmónica, um soldado de chumbo, dois girinos, entre outras preciosidades.
Paul Watzlawick, brilhante psicólogo da comunicação humana, ilustra com este episódio a sua tese sobre a “gentil arte do reenquadramento” como forma criativa de resolução de problemas, que ele contrapõe à prática do “mais do mesmo”, que pode ser descrita também como “insistir em soluções que não funcionam na expectativa de vir a obter resultados diferentes”. Não temos de concordar com Donald Trump para admitir que há nele algo de Tom Sawyer. Nestes três anos de guerra mortífera no leste da Ucrânia, o mundo pareceu estar, em várias ocasiões, perto do apocalipse; e durante este tempo os líderes europeus e norte-americanos foram repetindo o mantra do apoio ao governo ucraniano as long as it takes. À medida que os seus arsenais e recursos financeiros se esgotavam e que, simetricamente, a máquina industrial militar russa se fortalecia, começaram a tornar-se evidentes as desvantagens logísticas e a escassez de recursos humanos do lado ucraniano. A fantasia auto-complacente da guerra económica à Rússia com o objectivo último de conseguir uma “mudança de regime” e uma fragmentação do maior e mais auto-suficiente país do mundo, acabou por revelar sobretudo a fragilidade dos pilares das economias europeias e acelerar o desmantelamento há muito previsto da hegemonia unilateral norte-americana.
Durante três anos, a insistência em “soluções que não funcionam” lançou para mortes horríveis centenas de milhar de ucranianos e de russos, sacrificados na “luta pelos nossos valores”, preservando-se assim cinicamente as valiosas vidas europeias e norte-americanas – dos privilegiados habitantes do “jardim”, na tristemente memorável descrição do estulto ex-vice-presidente da Comissão Europeia, Josep Borrell. Pressenti em Fevereiro de 2022 que a vítima última desta guerra seria a “Europa”; escrevi até que a consequência do confronto seria, não a europeização da Ucrânia, mas a ucranização da Europa (ukraijna significa, nas línguas eslavas, “periferia” ou “terra de fronteira”). Três anos passados de elevadas expectativas, insuficiente capacidade de auto-análise, e inenarrável déficit de realismo, eis onde estamos: o centro nevrálgico do mundo deslocou-se inexoravelmente para leste, a Europa perdeu uma oportunidade de ouro de aceitar que não passa de uma modesta península da massa euroasiática, a interferência norte-americana nos assuntos europeus tornou-se um resquício do aparelho imperial anglo-saxónico.
Perante a evidência de que os equilíbrios resultantes do sistema geopolítico nascido da 2ª Guerra Mundial estavam a estalar, e de que o pêndulo da política norte-americana começava a cair para o lado da chamada doutrina Monroe, o aparelho da oligarquia burocrata de Bruxelas revelou não ter capacidade intelectual e anímica para produzir outra coisa que não “mais do mesmo”. E eis que Donald Trump regressa ao palco da política mundial e tira da manga a carta Tom Sawyer: com um telefonema ao seu homólogo russo, o problema das ligações transatlânticas foi reenquadrado no contexto do grande quebra-cabeças das relações russo-sino-americanas. O peão ucraniano foi sacrificado, o cavalo europeu foi chutado para um canto do tabuleiro, e o rei fez roque. O grande jogo prossegue agora, com os pusilânimes belicistas europeus sentados no banco dos suplentes.
Há uma expressão popular na Rússia cuja origem se encontra na comédia de Gogol, O inspector governamental: англичанка гадит, traduzível como “a inglesa caga”. Na essência, remete para a ideia comum de que os estrangeiros são sempre a causa dos problemas russos. No final do século XIX, a “inglesa” era a Rainha Vitória, e a sugestão era de que a Grã-Bretanha recorria aos bons ou maus ofícios dos turcos e dos franceses para conseguir os seus objectivos estratégicos de invadir as zonas de influência do império russo. De acordo com o historiador Alexander Dolinin, nesta e noutras expressões russas ecoa um tema perene no pensamento filosófico russo: o da decadência do Ocidente. Desde pelo menos a guerra da Crimeia de meados do séc. XIX que as correntes anglofóbicas na Rússia se alimentam em espelho da russofobia britânica. Não admira que, na visão do Kremlin, a guerra da Ucrânia seja vista, em grande medida, como um ardiloso projecto britânico para o qual tanto a União Europeia como os EUA foram estupidamente arrastados. Não admira também que a chegada de Donald Sawyer Trump à Casa Branca seja vista com alívio, como sinal de que a ressurreição da velha anglofobia inerente à identidade norte-americana desde a independência pode congelar temporariamente as eternas ambições territoriais anglo-europeias face à Rússia.
Face a este grande reenquadramento, juro que não me admirarei se alguém me disser que os EUA poderão vir a aderir aos BRICS e que a União Europeia cessará funções antes de 2030.


Jornal de Azeitão, Janeiro 2025 ​
O Público, 26 Fevereiro 2025
L'Accent, 23 Março 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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conversa ao espelho

24/1/2026

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Olhei-me ao espelho e perguntei: “espelho, espelho meu, como é escrever como eu?” Explico-me: “fui ao Chat”. A tentação que é “pedir-lhe” que pense por mim é o princípio da mais global pandemia que o mundo dos humanos alguma vez experimentou. E foi isso mesmo que fiz, agora mesmo: introduzi na linha de prompt: “escreve uma crónica para O Público mais ou menos críptica, com uma nota de humor final. Escreve em português europeu, não brasileiro, e no estilo de Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”. Se é verdade que o algoritmo deste “modelo de linguagem grande” (LLG, o nome técnico do que, para efeitos de marketing, nos é impingido como “inteligência artificial”) modela o “estilo Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”, então devo uma sentida desculpa aos meus dois ou três incautos leitores porque parece evidente, pelo resultado obtido – em segundos –, que a minha escrita é banal e entediante. Não há dúvida que o texto obtido é competente, gramaticalmente correcto (valha-me Deus), e o argumento relativamente escorreito, embora sinuoso. “Pedi-lhe” de seguida que analisasse o texto que produziu: aparentemente, o meu espelho fantasma escreveu num “estilo marcado pela reflexão filosófica, poética e misteriosa, imbuída de uma linguagem profunda e cheia de simbolismo”, promovendo a ideia de que “questões como ‘Será que, na tentativa de percebermos o que é realmente importante, não estamos a perder tudo o que importa?’ são questões que destacam a inquietação de um mundo cheio de incertezas”; explorando a “contradição e a incerteza” numa “linguagem poética e ritmada”, o texto exprime uma “musicalidade peculiar” que encerra com uma nota de humor irónica”. Em resumo, “o tom é denso e multifacetado, mas também há uma leveza no final, que traz uma perspectiva humorística à seriedade da reflexão anterior.”
Se lhe “pedirmos” que produza uma versão surreal da sua interpretação do seu próprio texto, após criar dez versões progressivamente absurdas, arriscamo-nos a receber como resposta algo como: “O rio não existe, o sol já se apagou, mas ainda se sente. O mercado vende silêncio e nuvens que caem para cima. A moeda é feita de tempo perdido e o riso vem da ausência. As sombras dançam com as coisas que nunca foram, enquanto o abismo se engole a si próprio. Estamos todos a rir daquilo que nunca aconteceu e a procurar o nada numa rua que já não existe. O ciclo é o fim de uma linha que nunca começou.” Se lhe pedirmos que continue a transformar-se usando os princípios da patafísica e pelo menos um constrangimento oulipiano (repetição de vogais, por exemplo), e fabrique uma quadra e uma equação não-euclidiana no final, isto é um resultado possível:
Vento onde as sombras se enredam,
o riso repete-se, lento, e treme.
Sol sem eco, sem vida, desmedido,
nuvens, umbigos do céu, esfraldam.
Equação Não Euclidiana com Repetição de Vogais: 𝑉 + ( 𝑉2) = (𝑁)1+(𝑁−2)
Em que:
𝑉 = Vogal do vento, o que se arrasta.
𝑁 = Nuvem num ponto de curvatura excessiva.
 
É de prever que em menos de cinco anos, vai ser impossível distinguir a escrita humana da escrita por LLM, e que entraremos definitivamente na era da escrita artificial, da exteriorização-esvaziamento da mente individual. Será um apocalipse da cultura o nascimento glorioso de um mundo pós-humano? Não faço, claro, ideia e o “Chat” também não, por enquanto. O que sei é que, de cada vez que uso o prompt e lhe “peço” que produza um texto (ou uma imagem fixa ou animada, uma canção, etc.), estou a despender algo como 0,5 kWh por resposta, contra os 0,003 kWh que custa uma busca num browser da internet. Uma interacção com o “Chat” tem um custo ambiental de 0,02 kg de CO2, significativamente maior que uma interação simples num browser: 0,002 kg de CO2. Multiplicando por biliões as interacções com LLMs, à medida que eles se substituem às consultas em browser, a pegada ambiental das infraestruturas de servidores é hoje já equivalente ao do conjunto de veículos automóveis com motores de explosão (gasolina e gasóleo): bastam dez a vinte interacções simples com o “Chat” para produzir tantas emissões de CO2 quanto as de um automóvel a gasolina por km (0,12 kg de CO2).
A consequência deste estado de coisas é que as grandes companhias que operam as infraestruturas de dados digitais se encontram numa inesperada corrida à construção e reabilitação de centrais nucleares, como única solução rentável para o problema energético com que se confrontam. O paradoxo inerente às políticas de sustentabilidade ambiental e à retórica da transição energética não podia ser mais estarrecedor. Mas, como sabemos, as políticas ambientais portuguesas conseguem ser ainda mais patafísicas que a interacção que descrevi acima: o governo central declara ufano que Portugal é já hoje “um hub de interconexão de dados global”, esquecendo-se convenientemente de informar o país, e os cidadãos consumidores de dados e de electricidade, que os chamados data centres instalados e a instalar irão consumir a quase totalidade da capacidade hidroeléctrica do país; para remediar a esperada penúria energética, cobrir-se-ão as poucas terras férteis do país com parques de painéis solares, eclipsando assim qualquer aspiração a um mínimo de segurança e soberania alimentar.
Tendo em consideração que o surrealismo  ambiental é especialmente inventivo na área protegida do Parque Natural da Arrábida, que alberga há anos uma cimenteira e várias pedreiras no seu território, não me admiraria se um dia, no perímetro do Convento da Arrábida, fosse instalada uma central nuclear com o propósito de alimentar o triunfal projecto de criação de um “Chat” português.
Bem nos podemos olhar ao espelho. O reflexo é um monstro.

(Nota: este texto não foi corrigido pelo ChatGPT)

Jornal de Azeitão, Janeiro 2024 ​
O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 20 Janeiro 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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o rei trump

24/1/2026

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Duas obras que fornecem importantes pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45.o Presidente dos Estados Unidos da América:
Da quantidade de livros, artigos, podcasts e documentários que compõem a área multidisciplinar dos estudos trumpológicos, destacam-se duas obras de invulgar perspicácia e abrangência, ambas de 2016: Hypernormalisation, de Adam Curtis, e Trump, The Greatest Show on Earth, de Wayne Barrett.
A primeira é um retrato cáustico do maelstrom mundial espoletado pelo que o documentalista inglês descreve como a devastadora usurpação pela alta finança das actividades e funções próprias da acção política, no contexto da mundialização neoliberal. A segunda é um aturado estudo biográfico da família Trump, incidindo sobre os paralelos e contrastes entre a evolução do pai Fred e a do filho Donald. Tomadas em conjunto, as duas obras – um longo documentário de mais de duas horas e um livro de 525 páginas – fornecem boas pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45º Presidente dos Estados Unidos da América.
As duas obras revelam como é intelectualmente redutor retratá-lo seja como simples sobressalto extemporâneo na vida política norte-americana ou como manifestação proto-hitleriana dos fantasmas do nativismo, racismo e isolacionismo, e anunciador de futuros perigos cataclísmicos. Demonizá-lo poderá oferecer conforto psicológico e sentido de missão a quem vê na sua figura moralmente desprezível o íman de forças anti-liberais, xenófobas, ultra-conservadoras que urge combater, em nome da dignidade humana e de uma inabalável crença no progresso social. Mas o risco que corre quem o faz é perder de vista a magnitude do facto histórico de ele ocupar a sala oval da Casa Branca e, daí, lançar o caos fazendo descarrilar ordens estabelecidas, invertendo normas e valores, alterando, como um tufão, o curso esperado da história, mentindo, enganando, deturpando, desesperando, vitimizando.
Apesar das óbvias diferenças de personalidade e percurso, Donald Trump é como o seu pai um homem que floresceu e prosperou no insanável lodaçal da corrupção nova-iorquina, onde os tentáculos da criminalidade organizada abraçavam (e abraçam) os da política partidária, do aparelho judicial, do mundo empresarial e das instituições financeiras. Wayne Barrett, o falecido jornalista de investigação do Village Voice, desfia um extraordinário rosário de íntimas ligações dos Trump às máfias alemãs, italianas e judias, aos conglomerados impessoais, aos exércitos de advogados, às administrações públicas e ao enxame de ambições políticas que assolam a sociedade norte-americana. O não menos extraordinário rosário de transformações ideológicas e de progressivo descontrolo político e económico mundial a que Bill Clinton presidiu é a matéria do documentário de Adam Curtis. Juntos, dão-nos a ver um Trump simultaneamente mais humano e mais epopeico.
Um Trump mimado, temerário, frenético, cruel, vingativo, aldrabão, ganancioso e mesquinho. Mas também mais transcendente, e que não queremos reconhecer: a personificação monstruosa de tropos mitológicos cuja função é obrigar-nos a olhar ao espelho para ver o que não queremos ser, o horror ilógico que está em nós. Donald Trump, o ser híbrido onde a pessoa, o actor e o pesadelo se confundem, ocupa no ritual mediático em que estamos inelutavelmente submergidos a figura do personagem mítico do trickster, o enganador cuja energia criativa produz novos sentidos e dá a conhecer novas realidades. Improvável congregação do anão Rumpelstiltskin, do gigante Pantagruel e do eterno mestre Woland, Trump encarna num arrepiante registo kitsch a imagem do mundo ao contrário, o absurdo deleuziano que desmonta as ilusões do sentido. Da imensa galeria de tricksters fantasiados ao longo dos séculos pela literatura mundial, talvez nenhum assente melhor a Donald Trump do que a criação de Alfred Jarry: a do hediondo Rei Ubu. Confrontados com o teatro surreal em que ele tem imperado, somos como o revoltado público parisiense da noite de estreia da peça de Jarry, em 1896: atiramos-lhe memes à cara sem perceber que a anedota somos nós, as nossas expectativas utópicas e os nossos medos apocalípticos. 

O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 14 Outubro 2020
​MediaPart, 18 Outubro 2020

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A formiga à chuva

21/3/2025

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“A nova sensação da Internet é um ‘drone’ da Marinha que fez ‘plof’”. Era este o título da notícia d’O Público que, a 18 de Abril de 2014, dava conta da aparentemente pouco auspiciosa estreia do Tekever AR4 Light Ray, o primeiro veículo aéreo não tripulado da Marinha portuguesa na base naval do Alfeite. A segunda tentativa foi bem-sucedida e o então ministro da defesa Aguiar Branco “terá gostado do que viu”, prevendo mesmo um futuro de sucesso para o “drone” militar português.
Certamente que o ministro da altura, agora presidente da Assembleia da República, não antecipou que, quase exactamente 10 anos depois, dois drones AR3 VTOL da mesma empresa Tekever viriam a protagonizar um duplo ataque a estações de radar de alerta antecipado do sistema de defesa estratégica nuclear da Federação Russa, em Armavir e em Orsk, no sul do país. E quase ninguém poderia também prever que, após o mediático falhanço do primeiro lançamento do AR4 nos idos de 2014, um tão profundo manto de silêncio viesse pousar sobre o temerário (ou insensato) sucesso dos AR3 na guerra que opõe hoje a Rússia à Nato por interposta Ucrânia.
Ao desabilitar esses dois radares, o ataque dos “drones” teve como consequência cegar momentaneamente a parte do complexo estratégico nuclear russo que cobre o território iraniano e a base naval norte-americana no Golfo Pérsico. O ministério da defesa ucraniano assumiu de imediato, e orgulhosamente, o feito, mas sem se pronunciar sobre a irrelevância do ataque no que respeita aos níveis táctico e operacional do conflito (os radares – de longuíssimo alcance – não têm qualquer utilidade militar no campo de batalha ucraniano). E também não se pronunciou de todo sobre o facto de a programação e operação dos drones ter sido feita por especialistas militares britânicos, de a tecnologia AI que os conduziu até aos alvos ser norte-americana, e de a sua manufactura ser portuguesa.
Nenhuma destas informações é propriamente secreta ou confidencial. O ataque, as potencialidades dos “drones”, e a nacionalidade dos operadores são descritas em publicações internacionais dedicadas a assuntos militares. Também não é segredo que a fábrica da Tekever se situa nas Caldas da Rainha, que a sua sede fica num escritório partilhado no Largo do Duque de Cadaval, aos Restauradores, e que a empresa é não só fornecedora oficial da Marinha portuguesa, mas também do Ministério da Defesa britânico. Se até eu, que de jornalismo de investigação nada sei, consigo ter acesso a estas informações públicas, por que razão não foi este óbvio protagonismo luso no campo da alta tecnologia militar notícia de abertura de todos os telejornais nacionais no início de Maio passado?
Lê-se na página internet do Conselho Europeu de Relações Estrangeiras, onde se detalham as implicações da doutrina de dissuasão nuclear russa, que “o parágrafo 19c (da doutrina) enuncia que a Rússia retaliará usando armas nucleares contra um ataque convencional que desabilite as suas forças nucleares ou a sua estrutura de comando: esta provisão emula a postura nuclear norte-americana revista em 2018”. Tem sido deixado muito claro, nestes últimos tempos, pela presidência russa, e pelos seus ministros da defesa e dos negócios estrangeiros, que ataques a alvos críticos russos provenientes da Ucrânia que impliquem operação do armamento por parte de intervenientes de países ocidentais não os exima das responsabilidades e das suas consequências. Poderíamos discutir se se trata, por parte das autoridades russas, de uma ameaça ou de um alerta, mas pouco importa: o relevante é que a potencialidade, mesmo que mínima, de um tal acto causar um confronto nuclear de efeitos absolutamente devastadores para toda a humanidade merece estar sempre presente nas nossas consciências e que, para que isso, as nossas consciências não devem ser mantidas em total ignorância.
Temos, portanto, uma empresa portuguesa dedicada ao fabrico de “drones” de longo alcance e grande autonomia, listada como fornecedora oficial do ministério da defesa português que, em parceria com a indústria de defesa norte-americana e com o dispositivo operacional britânico na Ucrânia se encontra envolvida num duplo ataque das forças armadas ucranianas a instalações críticas do dispositivo nuclear estratégico da primeira potência nuclear do mundo. Seria risível o catarro da formiga, não tivesse o assunto os contornos de uma gravidade trágica. Há em Portugal, tradicionalmente, um certo embandeirar em arco com façanhas de gosto questionável e de efeitos imprevisíveis: a estalada fundadora de um filho na sua mãe, uma santa que transforma rosas em pão e pelo caminho destrói o sistema comunitário das irmandades do Espírito Santo, um navegador de dobra cabos da Boa Esperança e bombardeia indianos incautos para obter vantagens económicas, um almirante que concebe um plano para, em aliança com o soberano cristão etíope, tomar Meca e destruir a Caaba (o símbolo mais sagrado da religião muçulmana), o anúncio da chegada do Quinto Império comandado por um brangantino, um rei que declara a independência de uma colónia para evitar o fim do tráfico atlântico de escravos, uma pastorinha portadora de segredos geo-estratégicos... E, pelo meio, uma longa história entretecida de vassalagens às elites imperiais britânicas.
Gostamos de imaginar que vivemos alheados dos males do mundo, num poético pequeno “jardim à beira-mar plantado”, como cantou Tomás Ribeiro. Mas o refrão do “orgulhosamente sós” deixou de capitar há muito, e as guerras “do Ultramar” não puseram um ponto final na nossa costela bélica: participámos na guerra contra a Sérvia, envolvemo-nos na invasão e ocupação do Iraque e do Afeganistão, intervimos na Líbia e no Sahel, e agora, por via das nossas auto-impostas obrigações como membros da OTAN, estamos a ser, “como sonâmbulos”, engajados numa guerra imensamente complexa sem nos autorizarmos um debate infundido por um mínimo de sanidade. Mas, se apelarmos à musa da história, percebemos tudo: a noção de debate são, crítico, estruturado, consequente, é tão estranha ao carácter português como os alimentos o são ao estômago por onde passam. Por isso, estando em causa perguntarmo-nos sobre o bom senso de participarmos em ataques imprudentes a instalações críticas de um país que demonizamos instintivamente, respondemos metendo a viola no saco, deixando correr o marfim e tentando passar entre os pingos da chuva, na esperança de que ela não venha a ser demasiado radioactiva.

O Público, 13 Junho 2024

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​Reparações imBRICadas

4/6/2024

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Soaria bem clamar que “à história o que é da história, à política o que é da política”. Mas, sabemos, a apropriação da história é um dos mais concorridos truques do receituário da prestidigitação governativa. Não me consta que as teses de Antonio Gramsci ou de Mikhail Bakhtin tenham sido consultadas em preâmbulo ao presente processo de revisão da mitologia histórica nacional, cujas fagulhas foram recentemente agitadas pelo nosso estúrdio presidente e parecem estar a incendiar o pequeno nicho da burguesia bem-pensante lisboeta. Um e outro teriam de imediato feito notar que, no que respeita aos discursos auto-expiatórios favoráveis à reparação histórica que propugnam uma reforma radical da mensagem identitária do mito da expansão portuguesa, os seus arautos não se situam propriamente do lado de lá da cerca da “hegemonia cultural”. Não é o “povo” oprimido, excluído e marginalizado que, nos musseques, nas tabancas e nas favelas, reclama reparação, expiação e reescrita da história nacional lusa. Esse “povo”, lá longe, tem uma média de idade 25 anos e não revela preocupação em reavivar memórias do período colonial. O grito pela reparação provém das nossas paternais elites auto-proclamadas defensoras de direitos alheios. Pessoalmente, suscita-me fortes dúvidas a mensagem da redenção civilizacional pela expiação da consciência. Até ao dia em que Marcelo Rebelo de Sousa aceite ou seja forçado a trocar a sua mansão cascalense com uma família alargada da Cova da Moura, ou que os lustrosos académicos pró-reparação aprendam a manejar uma espátula e uma talocha de pedreiro, não vejo como dar crédito à celeuma.

Mas, havendo desejo urgente de reescrever, para efeitos políticos domésticos, a estafada história da glória da nação, então façamo-lo com maior desassombro e ensinemos logo nos bancos da escola primária que, identidade nacional à parte, a razão da continuada existência do estranho parcelamento territorial que delimita o rectângulo português no conjunto geográfico da Península Ibérica se deve, em grande medida, à perenidade da interferência geopolítica das elites anglo-britânicas nos assuntos da Hispânia. Perguntemo-nos se Portugal não será porventura o mais antigo domínio colonial britânico, e se não terá sido aqui que a técnica administrativa da indirect rule foi inicialmente afinada. Os cruzados ingleses saquearam Lisboa antes que Afonso Henriques pusesse um pé no castelo de São Jorge; o fundador dos “Descobrimentos” era mais Henry que Henrique; e, de todos os Braganças, só D. Maria I fez realmente frente aos interesses britânicos, ao acordar com a Czarina Catarina da Rússia a nossa entrada na Liga dos Neutros; não há como explicar as misérias do séc. XX português sem contabilizar a dívida catastrófica do período da Regeneração à banca britânica – dívida que só foi liquidada, diz-se, em 2015. Matéria, diria, para reclamar reparações históricas a Downing Street e a Westminster.

Se nos vamos dispôr a rever colectivamente o passado nacional, e não há mal nenhum nisso, devemos então, para manter um módico de coerência e sanidade, aceitar repensar o presente e reimaginar o futuro. Que eu saiba, o “povo” de cá, de Cevide à Culatra e do Corvo à Paradela, não foi nem tido nem achado no processo de adesão à CEE, nem indagado à boca do Tratado de Lisboa. No discurso oficial de glorificação da União Europeia não consta uma palavra sobre as evidências da dominação política, financeira e económica do sul da Europa pelo Norte protestante, e muito menos um reconhecimento de que a Península Ibérica é tanto o extremo sul do Atlântico Norte como o extremo ocidental do milenar mundo mediterrânico. O projecto “europeu” é, desde a nascença, uma lobotomização ideológica de continuidades históricas e geográficas, seja para sul, seja para leste. A bem dizer, a “Europa” não é um continente, é até menos subcontinente que a Índia: é um anexo estridente e ególatra da grande massa asiática.

Actualmente, perante a transformação evidente da União Europeia em organização vassala dos interesses geoestratégicos da NATO, e da perda da sua função original de instrumento de resolução de conflitos, é legítimo perguntarmo-nos se vale mesmo a pena continuarmos a vender tão barato a nossa soberania aos interesses do atlantismo anglo-saxónico.

Não há um economista honesto que, sem se rir, possa dizer que Portugal é um “país desenvolvido”. Numa curiosa inversão da mensagem de Thomas Moore, que imaginou os habitantes da ilha da Utopia a transitar do estado de barbárie ao estado de perfeição social sem ter de sofrer as dores das desigualdades civilizacionais, os portugueses transmutaram-se de pobres subdesenvolvidos a pós-industrializados, sem terem verdadeiramente experimentado um momento de contrato social rousseauniano. Com um passe de mágica, Bruxelas convenceu-nos que, se e enquanto formos “bons alunos da Europa”, aclaramos a pele, azulamos os olhos e alouramos o cabelo. E, com complacente paternalismo, os “verdadeiros europeus” aceitam-nos no clube e até acedem a vir cá comprar o melhor que temos para oferecer: sol, mansões e pastéis de nata.
​
Seria engraçado acordarmos uma manhã e reconhecermos que, náufragos de uma jangada feita de pedra-pomes, nos agarramos irreflectidamente à boia da União Europeia sem repararmos que os seus furos aumentam de tamanho a cada dia que passa. Talvez então nos olhássemos ao espelho e nos perguntássemos por que razão é tabu nacional discutir uma possível adesão à parceria dos BRICS+ como parceiro júnior do “país irmão” e abraçar assim, de forma positiva, a história imbricada das nossas ligações a África, à Ásia e à América Latina. Seria uma maneira mais razoável de proceder a uma reparação histórica que andarmos a gastar hóstias em murmúrios de auto-expiação.
 
Diário de Notícias, 5 Maio 2024
O Público, 7 Maio 2024


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A suportável irrealidade da guerra

4/6/2024

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Mais quilómetro, menos quilómetro, a Faixa de Gaza tem uma extensão equivalente ao território que, de norte a sul, vai do estuário do Tejo à linha de costa da Arrábida e, de oeste para leste, dos areais da Costa da Caparica ao curso da Ribeira de Coina. Mais ou menos os mesmos 365 quilómetros quadrados. Não é difícil imaginar que dois milhões de pessoas possam viver nesta fatia da Margem Sul do estuário do Rio Tejo. Têm ambas uma longa linha de praias, a mesma hidrografia escassa, e uma orografia parecida – se exceptuarmos as arribas sedimentares da serra da Arrábida. E, claro, a sul, Gaza confina com o vasto deserto do Sinai e não a imensidão do oceano Atlântico.
 
Imaginemos que eram largadas, em três semanas, 30 mil bombas e mísseis sobre esta faixa da Margem Sul, que era mobilizado em seu redor um número de soldados equivalente à capacidade de cinco estádios do Benfica, mortas 10 mil pessoas e feridas outras 20 mil. Independentemente das emoções políticas, do horror ético e da mobilização social que um tal acontecimento catastrófico suscitaria, não custa pensar que as rotinas da vida em Lisboa ou em Alcoentre – a escassos quilómetros da fronteira da Ribeira de Coina –, continuariam a decorrer com normalidade. Malgrado o incómodo ruído dos bombardeamentos e o desagradável cheiro da pólvora, dos incêndios e dos corpos calcinados, os cafés e restaurantes para além dessa faixa continuariam abertos, as escolas continuariam a funcionar, e o combustível continuaria disponível nas estações de serviço.
 
O sentimento de irrealidade da guerra não seria muito distinto daquele que um europeu sente hoje face à tragédia de Gaza. Seria também um sentimento de impotência e de alheamento, independentemente da solidariedade, ou ausência dela, para com as vítimas do desastre humanitário. Não se trata de uma questão de insensibilidade porque “não é nada comigo”, mas de necessária compartimentação mental entre, por um lado, difusas emoções e racionalizações políticas e, por outro, as prementes necessidades de prover o dia-a-dia.
 
Estive, há anos, a poucos quilómetros de uma frente de batalha no norte da Etiópia. Vi hospitais sobrelotados, gente mutilada, mobilizações apressadas de milhares de jovens arrancados das famílias, e o crocitar das armas para além do horizonte. E, aí, confrontei-me com esta mesma irrealidade e com esta mesma dissonância cognitiva entre a terrível violência da guerra e a normalidade possível da vida do lado de fora do perímetro da batalha. As crianças continuavam a ir para a escola, as lojas continuavam abertas, e as rotinas diárias adaptavam-se às inúmeras restrições impostas – dos blackouts aos cortes de água, das estradas cortadas à penúria de mantimentos, do choro e da raiva individual à lavagem cerebral colectiva levada a cabo pela propaganda governamental.
 
Quem, em Lisboa, no Cairo ou em Reiquiavique, se emociona hoje com a tragédia de Gaza porque ela entra pelos olhos dentro graças à profusão de notícias provenientes de múltiplas plataformas de comunicação social, tem normalmente a quase certeza de que ela não altera os seus ciclos de vida diária (pelo menos, até ao dia em que sim). Poderá racionalizar e emitir opiniões, manifestar a sua indignação ou não, mas, não havendo transbordar do perímetro ritual da guerra para a sua zona de conforto, não deixará de estar atento às promoções do supermercado da sua vizinhança.
 
Tal como podemos duvidar que uma folha de árvore tenha caído se ninguém a vir cair, desdenhamos das tragédias que ocorrem todos os dias quando a comunicação social não nos oferece num prato de morbidez o testemunho da sua violência. Por extraordinário passe de magia, o horror de Gaza (complementado pelo horror menor da Cisjordânia) eclipsou nas nossas mentes o horror da Ucrânia. Mas esses horrores existem para nós porque no-los injectam. Todos os outros simultâneos horrores que pontuam a vida humana no planeta não têm direito à nossa comiseração ou sequer ao nosso reconhecimento.
 
Agora que o ano de 2023 se aproxima do seu termo, o inefável manto da irrealidade desce sobre várias outras guerras e conflitos violentos silenciados e, por isso, desconhecidos dos europeus. Não é concedido nem um momento de pânico moral pelos mais de 10 mil mortos em Myanmar, no Magrebe e no Sahel, no México, na Etiópia ou no Sudão; nem para os menos de 10 mil mortos na Colômbia, no Afeganistão, na Somália, na Nigéria, no Congo, no Iraque, no Sudão do Sul, na Síria, no Iémen ou no Haiti. Tudo porque morreram sem reportagens em directo, e longe da tribalização geoestratégica.
 
O Público, 6 Novembro 2023

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MARODERS e Pelourinhos

6/10/2022

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​Em 26 de Outubro de 2019, durante uma mediática visita à frente de batalha no Donbass, o recentemente eleito presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, envolveu-se numa dura troca de palavras com Denys Yantar, um veterano do Batalhão Azov, na vila de Zolote, no Oblast de Luhansk. O Batalhão, que nessa altura estava em vias de ser incorporado na estrutura regular de defesa territorial, lançou a campanha pública “Não à capitulação”, com o declarado objectivo de sabotar as incipientes iniciativas de pacificação entre o governo ucraniano e os revoltosos de Donetsk e Luhansk.
 
O momento em que Zelensky, surgindo pela primeira vez perante as câmaras em uniforme militar, implorava a Yantar que depusesse as armas foi mostrado na televisão nacional ucraniana, e causou uma tempestade de comentários e ameaças nas redes sociais do país. Yantar tinha previamente insinuado perante Zelensky que uma rebelião estava a ser preparada caso ele não desistisse de buscar soluções negociadas para o fim dos combates no Donbass, a promessa eleitoral que lhe tinha garantido a eleição, meses antes. Este episódio enterrou simbolicamente os chamados Acordos de Minsk, e esteve na origem de uma viragem de 180 graus na postura política de Zelensky. Mais tarde, o batalhão Azov acabou por se retirar de Zolote e concentrar-se em Mariupol, mas, como os então revoltados os meios de comunicação ocidentais não deixaram de notar, a guerra no Donbass intensificou-se dramaticamente.
 
Os discursos dos nacionalistas contra o jovem presidente tornaram-se cada vez mais inflamatórios. No seu canal Youtube, Andriy Biletsky, o líder do Batalhão Azov e do seu ramo político, o Corpo Nacional, jurou levar para Zolote milhares de militantes caso o presidente tentasse recuar a linha da frente, como previsto. Sofia Fedyna, deputada do Partido Solidariedade Europeia, ameaçou o presidente de morte. Poder-se-ia dizer que o estado de graça de Zelensky tinha terminado, mas na verdade ele nunca tinha chegado a existir. Em 27 de Maio de 2019, apenas uma semana após a investidura de Zelensky na Rada, Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário Ucraniano, em entrevista ao Obozrevaltel, reafirmou a tese do anterior presidente, Petro Porochenko, de que os Acordos de Minsk não eram para ser cumpridos mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia e, que se o presidente não concordasse com este plano e “traísse a Ucrânia”, não seria demitido mas morto: “ele perderá a vida. Será atado contra uma árvore em Khreschatyk (a principal avenida de Kiev)”.

A riqueza de sentido desta expressão pode facilmente passar despercebida a quem não esteja familiarizado com as especificidades da tradição de punição extra-judicial – a chamada justiça popular – na Ucrânia, e com a sua progressiva politização nos últimos anos. É notável, desde o início da operação de cobertura mediática internacional da guerra da Ucrânia, como os correspondentes das inúmeras televisões e jornais ocidentais nas cidades ucranianas têm passado em silêncio a muito visível forma de punição pública dos chamados maroders (“pilhadores”, “ladrões”). A menos que um jornalista nunca saia do seu hotel, dificilmente deixará de se confrontar com exemplos desta prática, em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita cola ou, mais recentemente com película aderente, as calças ou saias baixadas, as nádegas fustigadas com chibatas ou varas, e a cara pintada com tinta verde indelével. Habitualmente, este castigo público, aplicável tanto a homens como a mulheres, a idosos e a adolescentes, era sobretudo direccionado a ladrões que se aproveitavam da ausência de policiamento para pilhar comida ou pequenos objectos de consumo. A partir do momento em que o uso da língua russa foi proibido no país, e as tensões contra os habitantes do Donbass aumentaram de intensidade, esta forma de punição pública começou a ser dirigida contra quem fosse suspeito de ser russófilo, ou simplesmente quem fosse ouvido a, por exemplo, falar ao telemóvel em russo. Se originalmente a punição era praticada de forma espontânea por populares para castigar marginais, a partir de 2014 as milícias nacionalistas adoptaram esta forma de punição como meio de perseguição política. A violência dos actos aumentou, e o sadismo foi como que normalizado. Não é, portanto, difícil de entender o sentido das palavras ameaçadoras do Comandante Yarosh contra Zelensky: tendo este sido eleito em parte graças ao voto  das populações russófonas da Ucrânia, e sendo ele próprio russófono (como admitiu, apenas aprendeu a falar ucraniano dois anos antes da sua candidatura à presidência do país), ameaçar atá-lo a uma árvore na avenida principal de Kiev foi uma forma colorida de o identificar como potencial traidor ao ideal nacionalista ucraniano.
 
O simbolismo do atar alguém a uma árvore ou poste como punição de um acto de traição política tem uma imensa profundidade histórica nos imaginários ucraniamo e russo. Foi desta forma que em 945 D.C., de acordo com a Crónica Primária do Rus, o Príncipe Igor de Kiev, marido de Olga, a santa padroeira da Ucrânia, foi punido e morto pelos eslavos drevilianos, em revolta contra a colecta de impostos por parte do Rus de Kiev. Este episódio – assim como a chamada vingança de Olga –, sendo praticamente desconhecido no Ocidente, é, no entanto, informação tão normativa na Ucrânia quanto a putativa bofetada de Afonso Henriques à sua mãe. A corrente punição pública dos maroders na Ucrânia tem assim um efeito de actualização ritual de uma história milenar complexa e fortemente contestada por russos e ucranianos, e que se reporta à reclamação nacionalista das origens do Rus, e à miscigenação entre eslavos, vikings e tártaros.
 
Uma boa parte das cidades e vilas portuguesas ostenta, orgulhosamente preservados, postes de punição pública medieval: os pelourinhos. Não nos ocorre presentemente recorrer a eles para castigar delinquentes, mas, à força de nos convencerem que a solidariedade com a Ucrânia é um passo essencial na defesa dos valores tradicionais europeus, não é difícil imaginar que os pelourinhos venham a ser reactivados. Um dia destes.
 
O Público, 27 Agosto 2022
L'Accent, 28 Agosto 2022
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O Princípio de Eleutério

11/11/2021

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O Menino Eleutério é, nas “habilitações necessárias para ser ministro”, uma d’As Farpas de Eça Queiroz e Ramalho Ortigão, o jovem promissor que, ao falhar sucessivamente na escola primária, no liceu, na universidade, consegue atrair a atenção do “poder moderador”, vendo a sua incompetência premiada com vários cargos governamentais até finalmente chegar a primeiro-ministro. Ao contrário do “princípio de Peter”, segundo o qual uma pessoa competente no seu trabalho é elevada a posições para as quais é incompetente, o muito mais radical “princípio de Eleutério” enunciado por Eça de Queirós estipula que a incompetência demonstrada por uma pessoa  no seu trabalho é critério essencial para a sua promoção.

Os analistas políticos mais cínicos têm avançado a tese de que o ainda primeiro-ministro António Costa, ao despoletar a crise do chumbo do orçamento e a consequente dissolução do parlamento, tinha na mira pensar primeiro em si, depois no PS, e finalmente no país, e que há muito se prepara para dar o salto para novas paisagens. Com o balanço de seis anos de convívio com a política internacional, especula-se até quão longe conseguirá pular e onde irá aterrar. Parlamento europeu, Comissão Europeia, Nações Unidas? Sabemos apenas que esta modalidade de trampolim está há muito instituída nas olimpíadas da política nacional. Os casos mais mediáticos do “princípio de Eleutério” são os de António Guterres e de Durão Barroso. Tendo falhado na sua função governativa, durante a qual acumularam contactos telefónicos de Peters externos, catapultaram-se para lugares de grande responsabilidade na política internacional. O país ficou não apenas aliviado, mas reconhecido por este exercício de ginástica individual, por estes golos dignos de botas de ouro contribuírem para a ilusão de que Portugal é mais que um irrelevante e marginal pedaço de terra infértil encravado entre a Europa e o mar salgado.

Do que faz Durão Barroso hoje em dia, à sombra de Bill Gates, não temos muita informação. Já Guterres não passa um dia sem estar nas bocas do mundo. No passado dia 5 de Novembro, ao fim de um ano de desentendimentos internos, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou finalmente uma tíbia declaração conjunta apelando ao cessar-fogo na Etiópia. Esta declaração surge na sequência da publicação de um relatório conjunto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e da Comissão Etíope dos Direitos Humanos sobre múltiplos massacres, execuções sumárias, violações em série e intenções de extermínio étnico, que evidenciam práticas constantes de atentado aos direitos humanos e configuram crimes contra a humanidade. O relatório foi parcialmente aceite pelo governo etíope, mas liminarmente recusado pelos rebeldes da região do Tigré, que alegam que a participação de um órgão dependente do governo na sua redacção lhe retira legitimidade e neutralidade. As Nações Unidas alegam que, sem a participação da comissão etíope, não teriam tido possibilidade de acesso à informação, mas passam sobre silêncio o facto de a investigação ter descartado totalmente o contributo do governo regional tigrino e cedido à pressão do governo federal etíope para estender aos rebeldes as acusações de crimes praticados essencialmente pelas tropas etíopes e eritreias, e retirar do texto quaisquer palavras que possam sugerir intenções genocidas.

Durante um ano, a mortífera e brutal guerra civil na Etiópia desenrolou-se longe dos olhares do mundo, conduzida por uma figura enigmática: Abiy Ahmed Ali, primeiro-ministro do governo federal, saudado internacionalmente como democrata reformador, nomeado prémio Nobel da paz em 2019, doutorado em resolução de conflitos, coronel do exército federal, ex-responsável pelos serviços de “inteligência” etíopes, muçulmano convertido ao evangelismo milenarista, ex-guerrilheiro de um grupo aliado dos tigrinos que tomaram o poder em 1991, após a deposição do regime militar comunista liderado por Mengistu Haile Maryam. Poucas pessoas para além do júri de doutoramento leram a sua tese, segundo a qual o “capital social” de uma população sai reforçado através da guerra contra o inimigo interno ou externo. E por isso ainda menos pessoas perceberam por que razão, no último ano, ele se tinha aliado com o vizinho inimigo, o regime eritreu, para eliminar os rebeldes tigrinos, segundo ele as “ervas daninhas”, o “cancro”, que invade a Etiópia e ameaça a sua destruição.

Muitas responsabilidades pela dramática situação e pela enorme crise humanitária na Etiópia têm sido assacadas aos diversos intervenientes internos. Mas as responsabilidades das Nações Unidas e, em última análise, as que cabem ao seu secretário-geral só pontualmente têm sido referidas publicamente. A relação das várias agências das Nações Unidas a operar no país com o governo federal tem sido, no mínimo, tumultuosa: em certos casos cúmplice, noutros irresponsável e autofágica, noutros ainda submissa aos interesses de certas grandes potências. A sua acção tem sido minada pelo governo etíope, posta em causa por desentendimentos entre quem opera no terreno e quem decide em Genebra e em Nova Iorque, paralisada por ausência de autoridade central e de financiamento local. Entre os vários escândalos reportados conta-se o da incapacidade de providenciar ajuda humanitária e alimentar a várias regiões afectadas pela guerra, a evidência de caos e desregulamento nas operações de logística e transporte, conflitos internos, desautorizações e suspeitas de inconfidencialidade que resultaram na expulsão de vários altos funcionários, etc. Num país tão habituado à presença de organizações internacionais, este caos não pode deixar de ter um responsável máximo: o secretário-geral das Nações Unidas, que, sempre vestido com o manto da moralidade missionária católica, não admite a sua pusilanimidade face a uma situação interna complexa que lhe é opaca, nem o facto de que a displicência com que se permitiu uma resposta falhada ter contribuído para o agravar do conflito e para colocar aquela organização sob a suspeita de estar a ser manipulada pelos interesses de certas potências ocidentais.
​
Gostamos de acreditar que a incompetência de Eleutério se transforma magicamente em competência além-fronteiras. É um pouco como acreditar em unicórnios. Pena é que Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão não estejam hoje disponíveis para nos elucidar sobre as habilitações necessárias para roçar ombros com as elites internacionais – para ser secretário-geral, presidente de comissão, administrador de banco, director de fundação ou alto representante. Estou certo de que nos ajudariam a adivinhar em que prateleira estrangeira iremos em breve encontrar António Costa.
 
 O Público, 9 Novembro 2021
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Etiópia: uma nova página na guerra civil

6/9/2021

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Lamento vir perturbar-vos a rentrée, os dramas das lojas do cidadão, das lanchas da GNR encalhadas em Carcavelos, e dos cartões amarelos de Cristiano Ronaldo.

No passado dia um de Setembro, uma mudança de fase ocorreu na tremenda guerra civil que grassa na Etiópia. O presidente do estado regional Amhara declarou oficialmente o recrutamento dos jovens a partir dos 13 anos (sim, 13 anos – não é uma gralha do jornal), para lutar contra o exército da Frente de Libertação da região vizinha do Tigré, que lançou em Julho um movimento de cerco à região Amhara e um ataque na direcção da capital do país, Adis Abeba. Enquanto por aqui nos queixávamos do verão pouco cálido e do incómodo das máscaras faciais, um sem número de batalhas sangrentas dilacerava o norte da Etiópia. Esta ofensiva militar dos rebeldes tigrinos foi lançada após o humilhante desbaratamento do exército do governo federal às mãos dos rebeldes, em início de Junho, num súbito e devastador contra-ataque que interrompeu o curso de oito meses de massacres e violações em massa perpetrados pelos militares e milícias etíopes e eritreias sobre a população do Tigré.

Incapaz de suster o ataque tigrino, o governo federal apelou às regiões para que recrutassem centenas de milhares de jovens e os jogassem praticamente sem treino contra as balas inimigas nas várias frentes de batalha. O resultado tem sido um morticínio não reportado porque as cadeias de televisão internacionais se encontram impedidas de filmar o horror. Nenhum dos beligerantes pode hoje alegar inocência perante a evidência de massacres, violações, e assaltos à ajuda humanitária internacional. Enquanto os rebeldes avançam, o governo etíope lança-se na compra apressada de armamento e munições junto de velhos e novos parceiros. Na impossibilidade de fazer cumprir acordos de vendas de armas com os países ocidentais, apelou a russos, iranianos, azerbaijanos e sobretudo turcos, esperando que o uso de enxames de drones letais possa alterar o destino de uma guerra que parece não poder parar antes da derrota total do adversário.

Nem a União Africana nem o IGAD têm instrumentos diplomáticos para encontrar soluções mediadas para o conflito. E o Conselho de Segurança das Nações Unidas encontra-se de tal maneira dividido que nem um projecto de resolução chega a tomar forma. Os Estados Unidos, tradicional aliado da Etiópia, deixaram de ter capacidade de pressão desde que se posicionaram do lado egípcio no surdo conflito regional em torno da barragem etíope no Nilo Azul, presentemente em curso de enchimento. O colapso afegão teve como efeito imediato um pusilânime retraimento da administração Biden no que toca ao Corno de África, no que é acompanhado – obedientemente - pela União Europeia. Até onde a Turquia puxará a corda, enviando operadores de drones para a Etiópia, é assunto que as próximas semanas poderão vir a esclarecer. Para já, esta influente presença no Corno de África é motivo de regozijo para Erdogan, averbando vitórias importantes sobre egípcios e árabes.

A guerra civil foi internacionalizada no momento em que o exército eritreu entrou secretamente em solo etíope, a 3 de Novembro último. Neste momento, ameaça a fragilíssima estabilidade do Sudão, da Somália e do Djibuti. A intervenção indirecta de turcos, azerbaijanos e russos aumenta exponencialmente a espiral de volubilidade geostratégica em torno da margem ocidental do principal canal de circulação do comércio internacional que é o Mar Vermelho. Os desafios são importantes e os europeus – e por maioria de razão, os portugueses – enfiam inconvenientemente a cabeça da areia.

A evidência dos massacres e das violações em massa no norte da Etiópia está documentada. As suspeitas de acção genocidária por parte dos exércitos e milícias etíopes e eritreias amontoam-se – a crueza das directivas dos comandos é arrepiante: exterminar quem urina contra a parede (matar os homens) e eliminar a semente nas mulheres (através da violação). Os crimes de uns são justificados pelos crimes anteriores dos outros, numa voragem suicidária. Mas a um de Setembro, uma nova página foi virada: se antes, quem queria saber sabia que todas as forças militares usam jovens e crianças na guerra, agora este nefando crime foi oficialmente admitido. Um leitor português não fará nada porque não pode. Mas um euro-deputado ou um governante podem fazer a diferença. Infelizmente, em Portugal a ideia de que um cidadão eleitor pode pressionar o seu representante eleito na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu não chega sequer a ser uma ficção.
​
Se eu venho incomodar-vos a rentrée, é talvez por egoísmo. Silenciando-me, sinto-me cúmplice de um imenso crime. Falando dele, imagino pelo menos que estou a lançar um pouco desta pesada responsabilidade sobre os ombros do eventual leitor.
 
 O Público, 4/09/2021
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    Manuel joão ramos

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