MANUEL JOÃO RAMOS
  • Home
    • English >
      • Blog
      • Publications
      • Graphics
      • Videos
      • About Me
      • Contact
    • Português >
      • Publicações
      • Arte Gráfica
      • Vídeos
      • Sobre Mim
      • Contacto
      • Politica de privacidade

o rei trump

24/1/2026

0 Comments

 
Picture
Duas obras que fornecem importantes pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45.o Presidente dos Estados Unidos da América:
Da quantidade de livros, artigos, podcasts e documentários que compõem a área multidisciplinar dos estudos trumpológicos, destacam-se duas obras de invulgar perspicácia e abrangência, ambas de 2016: Hypernormalisation, de Adam Curtis, e Trump, The Greatest Show on Earth, de Wayne Barrett.
A primeira é um retrato cáustico do maelstrom mundial espoletado pelo que o documentalista inglês descreve como a devastadora usurpação pela alta finança das actividades e funções próprias da acção política, no contexto da mundialização neoliberal. A segunda é um aturado estudo biográfico da família Trump, incidindo sobre os paralelos e contrastes entre a evolução do pai Fred e a do filho Donald. Tomadas em conjunto, as duas obras – um longo documentário de mais de duas horas e um livro de 525 páginas – fornecem boas pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45º Presidente dos Estados Unidos da América.
As duas obras revelam como é intelectualmente redutor retratá-lo seja como simples sobressalto extemporâneo na vida política norte-americana ou como manifestação proto-hitleriana dos fantasmas do nativismo, racismo e isolacionismo, e anunciador de futuros perigos cataclísmicos. Demonizá-lo poderá oferecer conforto psicológico e sentido de missão a quem vê na sua figura moralmente desprezível o íman de forças anti-liberais, xenófobas, ultra-conservadoras que urge combater, em nome da dignidade humana e de uma inabalável crença no progresso social. Mas o risco que corre quem o faz é perder de vista a magnitude do facto histórico de ele ocupar a sala oval da Casa Branca e, daí, lançar o caos fazendo descarrilar ordens estabelecidas, invertendo normas e valores, alterando, como um tufão, o curso esperado da história, mentindo, enganando, deturpando, desesperando, vitimizando.
Apesar das óbvias diferenças de personalidade e percurso, Donald Trump é como o seu pai um homem que floresceu e prosperou no insanável lodaçal da corrupção nova-iorquina, onde os tentáculos da criminalidade organizada abraçavam (e abraçam) os da política partidária, do aparelho judicial, do mundo empresarial e das instituições financeiras. Wayne Barrett, o falecido jornalista de investigação do Village Voice, desfia um extraordinário rosário de íntimas ligações dos Trump às máfias alemãs, italianas e judias, aos conglomerados impessoais, aos exércitos de advogados, às administrações públicas e ao enxame de ambições políticas que assolam a sociedade norte-americana. O não menos extraordinário rosário de transformações ideológicas e de progressivo descontrolo político e económico mundial a que Bill Clinton presidiu é a matéria do documentário de Adam Curtis. Juntos, dão-nos a ver um Trump simultaneamente mais humano e mais epopeico.
Um Trump mimado, temerário, frenético, cruel, vingativo, aldrabão, ganancioso e mesquinho. Mas também mais transcendente, e que não queremos reconhecer: a personificação monstruosa de tropos mitológicos cuja função é obrigar-nos a olhar ao espelho para ver o que não queremos ser, o horror ilógico que está em nós. Donald Trump, o ser híbrido onde a pessoa, o actor e o pesadelo se confundem, ocupa no ritual mediático em que estamos inelutavelmente submergidos a figura do personagem mítico do trickster, o enganador cuja energia criativa produz novos sentidos e dá a conhecer novas realidades. Improvável congregação do anão Rumpelstiltskin, do gigante Pantagruel e do eterno mestre Woland, Trump encarna num arrepiante registo kitsch a imagem do mundo ao contrário, o absurdo deleuziano que desmonta as ilusões do sentido. Da imensa galeria de tricksters fantasiados ao longo dos séculos pela literatura mundial, talvez nenhum assente melhor a Donald Trump do que a criação de Alfred Jarry: a do hediondo Rei Ubu. Confrontados com o teatro surreal em que ele tem imperado, somos como o revoltado público parisiense da noite de estreia da peça de Jarry, em 1896: atiramos-lhe memes à cara sem perceber que a anedota somos nós, as nossas expectativas utópicas e os nossos medos apocalípticos. 

O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 14 Outubro 2020
​MediaPart, 18 Outubro 2020

Tags:
0 Comments



Leave a Reply.

    Manuel joão ramos

    Breathing, talking, writing, drawing.

    Archives

    January 2026
    March 2025
    June 2024
    September 2023
    August 2023
    July 2023
    March 2023
    November 2022
    October 2022
    September 2022
    August 2022
    July 2022
    May 2022
    April 2022
    February 2022
    January 2022
    November 2021
    October 2021
    September 2021
    August 2021
    July 2021
    June 2021
    May 2021
    April 2021
    March 2021
    February 2021
    January 2021
    November 2020
    October 2020
    September 2020
    August 2020
    July 2020
    June 2020
    April 2020
    March 2020

    Categories

    All
    Ambiente
    Arrabida
    Arte
    Censura
    Comuns
    Conflito
    Diario De Noticias
    Digital
    Etiopia
    Gentrificacao
    Historia
    Jornal De Azeitao
    L'Accent
    MediaPart
    Mobilidade
    Mobility
    O Publico
    Oralidade
    Palestina
    Pandemia
    Pandemic
    Pesca
    Política
    Pollution
    Poluicao
    Portugal
    Risco Rodoviario
    Ritual
    Turismo
    Ucrania
    Universidade
    Urbanismo

    RSS Feed

Powered by Create your own unique website with customizable templates.