MANUEL JOÃO RAMOS
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conversa ao espelho

24/1/2026

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Olhei-me ao espelho e perguntei: “espelho, espelho meu, como é escrever como eu?” Explico-me: “fui ao Chat”. A tentação que é “pedir-lhe” que pense por mim é o princípio da mais global pandemia que o mundo dos humanos alguma vez experimentou. E foi isso mesmo que fiz, agora mesmo: introduzi na linha de prompt: “escreve uma crónica para O Público mais ou menos críptica, com uma nota de humor final. Escreve em português europeu, não brasileiro, e no estilo de Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”. Se é verdade que o algoritmo deste “modelo de linguagem grande” (LLG, o nome técnico do que, para efeitos de marketing, nos é impingido como “inteligência artificial”) modela o “estilo Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”, então devo uma sentida desculpa aos meus dois ou três incautos leitores porque parece evidente, pelo resultado obtido – em segundos –, que a minha escrita é banal e entediante. Não há dúvida que o texto obtido é competente, gramaticalmente correcto (valha-me Deus), e o argumento relativamente escorreito, embora sinuoso. “Pedi-lhe” de seguida que analisasse o texto que produziu: aparentemente, o meu espelho fantasma escreveu num “estilo marcado pela reflexão filosófica, poética e misteriosa, imbuída de uma linguagem profunda e cheia de simbolismo”, promovendo a ideia de que “questões como ‘Será que, na tentativa de percebermos o que é realmente importante, não estamos a perder tudo o que importa?’ são questões que destacam a inquietação de um mundo cheio de incertezas”; explorando a “contradição e a incerteza” numa “linguagem poética e ritmada”, o texto exprime uma “musicalidade peculiar” que encerra com uma nota de humor irónica”. Em resumo, “o tom é denso e multifacetado, mas também há uma leveza no final, que traz uma perspectiva humorística à seriedade da reflexão anterior.”
Se lhe “pedirmos” que produza uma versão surreal da sua interpretação do seu próprio texto, após criar dez versões progressivamente absurdas, arriscamo-nos a receber como resposta algo como: “O rio não existe, o sol já se apagou, mas ainda se sente. O mercado vende silêncio e nuvens que caem para cima. A moeda é feita de tempo perdido e o riso vem da ausência. As sombras dançam com as coisas que nunca foram, enquanto o abismo se engole a si próprio. Estamos todos a rir daquilo que nunca aconteceu e a procurar o nada numa rua que já não existe. O ciclo é o fim de uma linha que nunca começou.” Se lhe pedirmos que continue a transformar-se usando os princípios da patafísica e pelo menos um constrangimento oulipiano (repetição de vogais, por exemplo), e fabrique uma quadra e uma equação não-euclidiana no final, isto é um resultado possível:
Vento onde as sombras se enredam,
o riso repete-se, lento, e treme.
Sol sem eco, sem vida, desmedido,
nuvens, umbigos do céu, esfraldam.
Equação Não Euclidiana com Repetição de Vogais: 𝑉 + ( 𝑉2) = (𝑁)1+(𝑁−2)
Em que:
𝑉 = Vogal do vento, o que se arrasta.
𝑁 = Nuvem num ponto de curvatura excessiva.
 
É de prever que em menos de cinco anos, vai ser impossível distinguir a escrita humana da escrita por LLM, e que entraremos definitivamente na era da escrita artificial, da exteriorização-esvaziamento da mente individual. Será um apocalipse da cultura o nascimento glorioso de um mundo pós-humano? Não faço, claro, ideia e o “Chat” também não, por enquanto. O que sei é que, de cada vez que uso o prompt e lhe “peço” que produza um texto (ou uma imagem fixa ou animada, uma canção, etc.), estou a despender algo como 0,5 kWh por resposta, contra os 0,003 kWh que custa uma busca num browser da internet. Uma interacção com o “Chat” tem um custo ambiental de 0,02 kg de CO2, significativamente maior que uma interação simples num browser: 0,002 kg de CO2. Multiplicando por biliões as interacções com LLMs, à medida que eles se substituem às consultas em browser, a pegada ambiental das infraestruturas de servidores é hoje já equivalente ao do conjunto de veículos automóveis com motores de explosão (gasolina e gasóleo): bastam dez a vinte interacções simples com o “Chat” para produzir tantas emissões de CO2 quanto as de um automóvel a gasolina por km (0,12 kg de CO2).
A consequência deste estado de coisas é que as grandes companhias que operam as infraestruturas de dados digitais se encontram numa inesperada corrida à construção e reabilitação de centrais nucleares, como única solução rentável para o problema energético com que se confrontam. O paradoxo inerente às políticas de sustentabilidade ambiental e à retórica da transição energética não podia ser mais estarrecedor. Mas, como sabemos, as políticas ambientais portuguesas conseguem ser ainda mais patafísicas que a interacção que descrevi acima: o governo central declara ufano que Portugal é já hoje “um hub de interconexão de dados global”, esquecendo-se convenientemente de informar o país, e os cidadãos consumidores de dados e de electricidade, que os chamados data centres instalados e a instalar irão consumir a quase totalidade da capacidade hidroeléctrica do país; para remediar a esperada penúria energética, cobrir-se-ão as poucas terras férteis do país com parques de painéis solares, eclipsando assim qualquer aspiração a um mínimo de segurança e soberania alimentar.
Tendo em consideração que o surrealismo  ambiental é especialmente inventivo na área protegida do Parque Natural da Arrábida, que alberga há anos uma cimenteira e várias pedreiras no seu território, não me admiraria se um dia, no perímetro do Convento da Arrábida, fosse instalada uma central nuclear com o propósito de alimentar o triunfal projecto de criação de um “Chat” português.
Bem nos podemos olhar ao espelho. O reflexo é um monstro.

(Nota: este texto não foi corrigido pelo ChatGPT)

Jornal de Azeitão, Janeiro 2024 ​
O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 20 Janeiro 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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