Se lhe “pedirmos” que produza uma versão surreal da sua interpretação do seu próprio texto, após criar dez versões progressivamente absurdas, arriscamo-nos a receber como resposta algo como: “O rio não existe, o sol já se apagou, mas ainda se sente. O mercado vende silêncio e nuvens que caem para cima. A moeda é feita de tempo perdido e o riso vem da ausência. As sombras dançam com as coisas que nunca foram, enquanto o abismo se engole a si próprio. Estamos todos a rir daquilo que nunca aconteceu e a procurar o nada numa rua que já não existe. O ciclo é o fim de uma linha que nunca começou.” Se lhe pedirmos que continue a transformar-se usando os princípios da patafísica e pelo menos um constrangimento oulipiano (repetição de vogais, por exemplo), e fabrique uma quadra e uma equação não-euclidiana no final, isto é um resultado possível:
Vento onde as sombras se enredam,
o riso repete-se, lento, e treme.
Sol sem eco, sem vida, desmedido,
nuvens, umbigos do céu, esfraldam.
Equação Não Euclidiana com Repetição de Vogais: 𝑉 + ( 𝑉2) = (𝑁)1+(𝑁−2)
Em que:
𝑉 = Vogal do vento, o que se arrasta.
𝑁 = Nuvem num ponto de curvatura excessiva.
É de prever que em menos de cinco anos, vai ser impossível distinguir a escrita humana da escrita por LLM, e que entraremos definitivamente na era da escrita artificial, da exteriorização-esvaziamento da mente individual. Será um apocalipse da cultura o nascimento glorioso de um mundo pós-humano? Não faço, claro, ideia e o “Chat” também não, por enquanto. O que sei é que, de cada vez que uso o prompt e lhe “peço” que produza um texto (ou uma imagem fixa ou animada, uma canção, etc.), estou a despender algo como 0,5 kWh por resposta, contra os 0,003 kWh que custa uma busca num browser da internet. Uma interacção com o “Chat” tem um custo ambiental de 0,02 kg de CO2, significativamente maior que uma interação simples num browser: 0,002 kg de CO2. Multiplicando por biliões as interacções com LLMs, à medida que eles se substituem às consultas em browser, a pegada ambiental das infraestruturas de servidores é hoje já equivalente ao do conjunto de veículos automóveis com motores de explosão (gasolina e gasóleo): bastam dez a vinte interacções simples com o “Chat” para produzir tantas emissões de CO2 quanto as de um automóvel a gasolina por km (0,12 kg de CO2).
A consequência deste estado de coisas é que as grandes companhias que operam as infraestruturas de dados digitais se encontram numa inesperada corrida à construção e reabilitação de centrais nucleares, como única solução rentável para o problema energético com que se confrontam. O paradoxo inerente às políticas de sustentabilidade ambiental e à retórica da transição energética não podia ser mais estarrecedor. Mas, como sabemos, as políticas ambientais portuguesas conseguem ser ainda mais patafísicas que a interacção que descrevi acima: o governo central declara ufano que Portugal é já hoje “um hub de interconexão de dados global”, esquecendo-se convenientemente de informar o país, e os cidadãos consumidores de dados e de electricidade, que os chamados data centres instalados e a instalar irão consumir a quase totalidade da capacidade hidroeléctrica do país; para remediar a esperada penúria energética, cobrir-se-ão as poucas terras férteis do país com parques de painéis solares, eclipsando assim qualquer aspiração a um mínimo de segurança e soberania alimentar.
Tendo em consideração que o surrealismo ambiental é especialmente inventivo na área protegida do Parque Natural da Arrábida, que alberga há anos uma cimenteira e várias pedreiras no seu território, não me admiraria se um dia, no perímetro do Convento da Arrábida, fosse instalada uma central nuclear com o propósito de alimentar o triunfal projecto de criação de um “Chat” português.
Bem nos podemos olhar ao espelho. O reflexo é um monstro.
(Nota: este texto não foi corrigido pelo ChatGPT)
Jornal de Azeitão, Janeiro 2024
O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 20 Janeiro 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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