MANUEL JOÃO RAMOS
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O Mundo Reenquadrado

24/1/2026

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Da cáustica pena de Mark Twain nasceu um retrato inolvidável: Tom Sawyer, obrigado pela tia a pintar a cerca do quintal, sabia que iria ser alvo de chacota do seu grupo de amigos; por isso, quando estes se aproximaram dele para lhe fazer inveja por não poder ir brincar nas margens do rio, ele decidiu reenquadrar a situação dizendo que a tia lhe tinha dado o privilégio exclusivo de pintar a cerca; imediatamente, os amigos lhe começaram a pedir que os deixasse também pintar e ele, após múltiplas súplicas, acabou por aceder, cobrando a cada um pelo privilégio de colaborar na tarefa; no final, não apenas os amigos fizeram todo o trabalho por ele, como arrecadou um pequeno tesouro: um papagaio de papel, um rato morto, doze berlindes, um giz, uma harmónica, um soldado de chumbo, dois girinos, entre outras preciosidades.
Paul Watzlawick, brilhante psicólogo da comunicação humana, ilustra com este episódio a sua tese sobre a “gentil arte do reenquadramento” como forma criativa de resolução de problemas, que ele contrapõe à prática do “mais do mesmo”, que pode ser descrita também como “insistir em soluções que não funcionam na expectativa de vir a obter resultados diferentes”. Não temos de concordar com Donald Trump para admitir que há nele algo de Tom Sawyer. Nestes três anos de guerra mortífera no leste da Ucrânia, o mundo pareceu estar, em várias ocasiões, perto do apocalipse; e durante este tempo os líderes europeus e norte-americanos foram repetindo o mantra do apoio ao governo ucraniano as long as it takes. À medida que os seus arsenais e recursos financeiros se esgotavam e que, simetricamente, a máquina industrial militar russa se fortalecia, começaram a tornar-se evidentes as desvantagens logísticas e a escassez de recursos humanos do lado ucraniano. A fantasia auto-complacente da guerra económica à Rússia com o objectivo último de conseguir uma “mudança de regime” e uma fragmentação do maior e mais auto-suficiente país do mundo, acabou por revelar sobretudo a fragilidade dos pilares das economias europeias e acelerar o desmantelamento há muito previsto da hegemonia unilateral norte-americana.
Durante três anos, a insistência em “soluções que não funcionam” lançou para mortes horríveis centenas de milhar de ucranianos e de russos, sacrificados na “luta pelos nossos valores”, preservando-se assim cinicamente as valiosas vidas europeias e norte-americanas – dos privilegiados habitantes do “jardim”, na tristemente memorável descrição do estulto ex-vice-presidente da Comissão Europeia, Josep Borrell. Pressenti em Fevereiro de 2022 que a vítima última desta guerra seria a “Europa”; escrevi até que a consequência do confronto seria, não a europeização da Ucrânia, mas a ucranização da Europa (ukraijna significa, nas línguas eslavas, “periferia” ou “terra de fronteira”). Três anos passados de elevadas expectativas, insuficiente capacidade de auto-análise, e inenarrável déficit de realismo, eis onde estamos: o centro nevrálgico do mundo deslocou-se inexoravelmente para leste, a Europa perdeu uma oportunidade de ouro de aceitar que não passa de uma modesta península da massa euroasiática, a interferência norte-americana nos assuntos europeus tornou-se um resquício do aparelho imperial anglo-saxónico.
Perante a evidência de que os equilíbrios resultantes do sistema geopolítico nascido da 2ª Guerra Mundial estavam a estalar, e de que o pêndulo da política norte-americana começava a cair para o lado da chamada doutrina Monroe, o aparelho da oligarquia burocrata de Bruxelas revelou não ter capacidade intelectual e anímica para produzir outra coisa que não “mais do mesmo”. E eis que Donald Trump regressa ao palco da política mundial e tira da manga a carta Tom Sawyer: com um telefonema ao seu homólogo russo, o problema das ligações transatlânticas foi reenquadrado no contexto do grande quebra-cabeças das relações russo-sino-americanas. O peão ucraniano foi sacrificado, o cavalo europeu foi chutado para um canto do tabuleiro, e o rei fez roque. O grande jogo prossegue agora, com os pusilânimes belicistas europeus sentados no banco dos suplentes.
Há uma expressão popular na Rússia cuja origem se encontra na comédia de Gogol, O inspector governamental: англичанка гадит, traduzível como “a inglesa caga”. Na essência, remete para a ideia comum de que os estrangeiros são sempre a causa dos problemas russos. No final do século XIX, a “inglesa” era a Rainha Vitória, e a sugestão era de que a Grã-Bretanha recorria aos bons ou maus ofícios dos turcos e dos franceses para conseguir os seus objectivos estratégicos de invadir as zonas de influência do império russo. De acordo com o historiador Alexander Dolinin, nesta e noutras expressões russas ecoa um tema perene no pensamento filosófico russo: o da decadência do Ocidente. Desde pelo menos a guerra da Crimeia de meados do séc. XIX que as correntes anglofóbicas na Rússia se alimentam em espelho da russofobia britânica. Não admira que, na visão do Kremlin, a guerra da Ucrânia seja vista, em grande medida, como um ardiloso projecto britânico para o qual tanto a União Europeia como os EUA foram estupidamente arrastados. Não admira também que a chegada de Donald Sawyer Trump à Casa Branca seja vista com alívio, como sinal de que a ressurreição da velha anglofobia inerente à identidade norte-americana desde a independência pode congelar temporariamente as eternas ambições territoriais anglo-europeias face à Rússia.
Face a este grande reenquadramento, juro que não me admirarei se alguém me disser que os EUA poderão vir a aderir aos BRICS e que a União Europeia cessará funções antes de 2030.


Jornal de Azeitão, Janeiro 2025 ​
O Público, 26 Fevereiro 2025
L'Accent, 23 Março 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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conversa ao espelho

24/1/2026

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Olhei-me ao espelho e perguntei: “espelho, espelho meu, como é escrever como eu?” Explico-me: “fui ao Chat”. A tentação que é “pedir-lhe” que pense por mim é o princípio da mais global pandemia que o mundo dos humanos alguma vez experimentou. E foi isso mesmo que fiz, agora mesmo: introduzi na linha de prompt: “escreve uma crónica para O Público mais ou menos críptica, com uma nota de humor final. Escreve em português europeu, não brasileiro, e no estilo de Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”. Se é verdade que o algoritmo deste “modelo de linguagem grande” (LLG, o nome técnico do que, para efeitos de marketing, nos é impingido como “inteligência artificial”) modela o “estilo Manuel João Ramos, obscuro antropólogo”, então devo uma sentida desculpa aos meus dois ou três incautos leitores porque parece evidente, pelo resultado obtido – em segundos –, que a minha escrita é banal e entediante. Não há dúvida que o texto obtido é competente, gramaticalmente correcto (valha-me Deus), e o argumento relativamente escorreito, embora sinuoso. “Pedi-lhe” de seguida que analisasse o texto que produziu: aparentemente, o meu espelho fantasma escreveu num “estilo marcado pela reflexão filosófica, poética e misteriosa, imbuída de uma linguagem profunda e cheia de simbolismo”, promovendo a ideia de que “questões como ‘Será que, na tentativa de percebermos o que é realmente importante, não estamos a perder tudo o que importa?’ são questões que destacam a inquietação de um mundo cheio de incertezas”; explorando a “contradição e a incerteza” numa “linguagem poética e ritmada”, o texto exprime uma “musicalidade peculiar” que encerra com uma nota de humor irónica”. Em resumo, “o tom é denso e multifacetado, mas também há uma leveza no final, que traz uma perspectiva humorística à seriedade da reflexão anterior.”
Se lhe “pedirmos” que produza uma versão surreal da sua interpretação do seu próprio texto, após criar dez versões progressivamente absurdas, arriscamo-nos a receber como resposta algo como: “O rio não existe, o sol já se apagou, mas ainda se sente. O mercado vende silêncio e nuvens que caem para cima. A moeda é feita de tempo perdido e o riso vem da ausência. As sombras dançam com as coisas que nunca foram, enquanto o abismo se engole a si próprio. Estamos todos a rir daquilo que nunca aconteceu e a procurar o nada numa rua que já não existe. O ciclo é o fim de uma linha que nunca começou.” Se lhe pedirmos que continue a transformar-se usando os princípios da patafísica e pelo menos um constrangimento oulipiano (repetição de vogais, por exemplo), e fabrique uma quadra e uma equação não-euclidiana no final, isto é um resultado possível:
Vento onde as sombras se enredam,
o riso repete-se, lento, e treme.
Sol sem eco, sem vida, desmedido,
nuvens, umbigos do céu, esfraldam.
Equação Não Euclidiana com Repetição de Vogais: 𝑉 + ( 𝑉2) = (𝑁)1+(𝑁−2)
Em que:
𝑉 = Vogal do vento, o que se arrasta.
𝑁 = Nuvem num ponto de curvatura excessiva.
 
É de prever que em menos de cinco anos, vai ser impossível distinguir a escrita humana da escrita por LLM, e que entraremos definitivamente na era da escrita artificial, da exteriorização-esvaziamento da mente individual. Será um apocalipse da cultura o nascimento glorioso de um mundo pós-humano? Não faço, claro, ideia e o “Chat” também não, por enquanto. O que sei é que, de cada vez que uso o prompt e lhe “peço” que produza um texto (ou uma imagem fixa ou animada, uma canção, etc.), estou a despender algo como 0,5 kWh por resposta, contra os 0,003 kWh que custa uma busca num browser da internet. Uma interacção com o “Chat” tem um custo ambiental de 0,02 kg de CO2, significativamente maior que uma interação simples num browser: 0,002 kg de CO2. Multiplicando por biliões as interacções com LLMs, à medida que eles se substituem às consultas em browser, a pegada ambiental das infraestruturas de servidores é hoje já equivalente ao do conjunto de veículos automóveis com motores de explosão (gasolina e gasóleo): bastam dez a vinte interacções simples com o “Chat” para produzir tantas emissões de CO2 quanto as de um automóvel a gasolina por km (0,12 kg de CO2).
A consequência deste estado de coisas é que as grandes companhias que operam as infraestruturas de dados digitais se encontram numa inesperada corrida à construção e reabilitação de centrais nucleares, como única solução rentável para o problema energético com que se confrontam. O paradoxo inerente às políticas de sustentabilidade ambiental e à retórica da transição energética não podia ser mais estarrecedor. Mas, como sabemos, as políticas ambientais portuguesas conseguem ser ainda mais patafísicas que a interacção que descrevi acima: o governo central declara ufano que Portugal é já hoje “um hub de interconexão de dados global”, esquecendo-se convenientemente de informar o país, e os cidadãos consumidores de dados e de electricidade, que os chamados data centres instalados e a instalar irão consumir a quase totalidade da capacidade hidroeléctrica do país; para remediar a esperada penúria energética, cobrir-se-ão as poucas terras férteis do país com parques de painéis solares, eclipsando assim qualquer aspiração a um mínimo de segurança e soberania alimentar.
Tendo em consideração que o surrealismo  ambiental é especialmente inventivo na área protegida do Parque Natural da Arrábida, que alberga há anos uma cimenteira e várias pedreiras no seu território, não me admiraria se um dia, no perímetro do Convento da Arrábida, fosse instalada uma central nuclear com o propósito de alimentar o triunfal projecto de criação de um “Chat” português.
Bem nos podemos olhar ao espelho. O reflexo é um monstro.

(Nota: este texto não foi corrigido pelo ChatGPT)

Jornal de Azeitão, Janeiro 2024 ​
O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 20 Janeiro 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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La dérision, nouvelle langue du pouvoir

24/1/2026

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L’humoriste d’avant-garde Andy Kaufman, en brouillant les frontières entre fiction et réalité, a involontairement préparé le terrain pour la persona politique hyperréelle de Donald Trump. Tous deux ont exploité le spectacle médiatique, la confusion du public et l’auto-mythification pour transformer la croyance en arme de pouvoir
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L’humoriste d’avant-garde américain Andy Kaufman a, dans les années 1970 et 1980, inventé des stratégies performatives radicales qui ont involontairement ouvert la voie à la persona politique hyperréelle de Donald Trump. Bien que séparés par plusieurs décennies – Kaufman mû par la provocation artistique, Trump par la conquête du pouvoir – tous deux ont su construire des identités abrasives et auto-mythologiques. Ils ont exploité la confusion entre réalité et fiction, tiré parti du spectacle médiatique et prospéré grâce à l’énergie transgressive. En examinant les performances de Kaufman (notamment Tony Clifton) parallèlement aux tactiques de Trump, et à la lumière du cadre d’analyse de James Poniewozik sur l’évolution des médias, on peut retracer une filiation directe : Kaufman a disséqué l’authenticité télévisuelle, révélant des vulnérabilités perceptives que Trump exploita plus tard avec un effet politique dévastateur. Comprendre cette lignée est essentiel pour diagnostiquer la fragilité démocratique contemporaine.
Andy Kaufman refusait les formes conventionnelles du stand-up ; il transformait clubs, plateaux de télévision et rings de catch en laboratoires pour interroger l’identité et la vérité. Comme le note son biographe Bill Zehme, Kaufman « vivait dans le point d’interrogation », laissant le public incertain de la sincérité ou de la satire de ses actes. Sa fusion entre interprète et personnage annonçait les théâtralités hyperréelles de Trump.
Au cœur de sa méthode se trouvait Tony Clifton, chanteur de cabaret grotesque et arrogant. Kaufman affirmait qu’il s’agissait d’une personne réelle, réservait des spectacles à son nom et restait dans le rôle hors scène. Clifton, exigeant et insultant, offrait une caricature du narcissisme ; ses vantardises rappellent celles de Trump : « Je suis le plus grand showman du monde » devenant « Je suis le seul à pouvoir le faire ».
Kaufman révéla la puissance de la télévision à fabriquer la croyance, refusant d’exposer un « vrai moi » et utilisant la confusion du public comme matière artistique. Là où Jean Baudrillard écrivait que « le simulacre devient vérité », Trump, des décennies plus tard, exploita cette faille : mensonges sur les foules, mythes complotistes, faits alternatifs.
Les farces de Kaufman, comme sa querelle mise en scène avec le catcheur Jerry Lawler, troublaient si bien la frontière du réel que le public y crut. Ce jeu du « C’est vrai ? » annonce la politique post-vérité que Lee McIntyre décrit comme un appui sur des affirmations « ressenties comme vraies » sans fondement factuel : instrument comique pour Kaufman, politique pour Trump.
Trump transforma ces stratégies en dispositif de masse : son émission The Apprentice en fit une autorité absolue, et ses meetings devinrent des performances émotionnelles plutôt que des débats. Comme Kaufman, il fit des médias un théâtre malléable, transformant tweets et conférences en événements.
Les deux figures reposent sur l’ambiguïté : Kaufman par ses provocations scéniques, Trump par ses mensonges systématiques. Les publics, chez l’un comme chez l’autre, participent activement au spectacle : rires ou huées chez Kaufman, cris de ralliement chez Trump. Cette complicité normalise la transgression et fragilise les garde-fous démocratiques.
Cependant, la divergence d’intention est décisive. Kaufman limitait sa subversion au champ artistique ; Trump l’appliqua au pouvoir réel. L’un incitait à réfléchir, l’autre à obéir. La confusion fut, pour Kaufman, un outil critique ; pour Trump, une arme politique. Là où l’art de Kaufman révélait les illusions médiatiques, Trump exploita ces failles pour miner la vérité partagée et menacer les institutions démocratiques.
Ainsi, la filiation entre la provocation d’Andy Kaufman et la démagogie de Donald Trump met en lumière la vulnérabilité de la réalité démocratique lorsqu’une stratégie de performance, dépouillée de toute visée critique, devient instrument de domination.


Textes à l'appui:
Baudrillard, Jean. Simulacra and Simulation. University of Michigan Press, 1981.
Bump, Philip. “Trump’s False Claims About the Inauguration Crowd.” The Washington Post, January 24, 2017, p. 45.
Carroll, Noel. Andy Kaufman: The Truth, Finally. BenBella Books, 2014.
Eslen-Ziya, Hande. “Populism and Trump: A Performance Perspective.” Society Register 4, no. 3 (2020): 7–24.
Gompertz, Will. Andy Kaufman: Wrestling with the American Dream. University of Minnesota Press, 2005.
Kellner, Douglas. American Nightmare: Donald Trump, Media Spectacle, and Authoritarian Populism. Sense Publishers, 2016.
Levitsky, Steven, and Daniel Ziblatt. How Democracies Die. Crown, 2018.
 

MediaPart, 12 Novembro 2025

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o rei trump

24/1/2026

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Duas obras que fornecem importantes pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45.o Presidente dos Estados Unidos da América:
Da quantidade de livros, artigos, podcasts e documentários que compõem a área multidisciplinar dos estudos trumpológicos, destacam-se duas obras de invulgar perspicácia e abrangência, ambas de 2016: Hypernormalisation, de Adam Curtis, e Trump, The Greatest Show on Earth, de Wayne Barrett.
A primeira é um retrato cáustico do maelstrom mundial espoletado pelo que o documentalista inglês descreve como a devastadora usurpação pela alta finança das actividades e funções próprias da acção política, no contexto da mundialização neoliberal. A segunda é um aturado estudo biográfico da família Trump, incidindo sobre os paralelos e contrastes entre a evolução do pai Fred e a do filho Donald. Tomadas em conjunto, as duas obras – um longo documentário de mais de duas horas e um livro de 525 páginas – fornecem boas pistas para entender a espantosa figura de Donald Trump e como ele veio a ser eleito o 45º Presidente dos Estados Unidos da América.
As duas obras revelam como é intelectualmente redutor retratá-lo seja como simples sobressalto extemporâneo na vida política norte-americana ou como manifestação proto-hitleriana dos fantasmas do nativismo, racismo e isolacionismo, e anunciador de futuros perigos cataclísmicos. Demonizá-lo poderá oferecer conforto psicológico e sentido de missão a quem vê na sua figura moralmente desprezível o íman de forças anti-liberais, xenófobas, ultra-conservadoras que urge combater, em nome da dignidade humana e de uma inabalável crença no progresso social. Mas o risco que corre quem o faz é perder de vista a magnitude do facto histórico de ele ocupar a sala oval da Casa Branca e, daí, lançar o caos fazendo descarrilar ordens estabelecidas, invertendo normas e valores, alterando, como um tufão, o curso esperado da história, mentindo, enganando, deturpando, desesperando, vitimizando.
Apesar das óbvias diferenças de personalidade e percurso, Donald Trump é como o seu pai um homem que floresceu e prosperou no insanável lodaçal da corrupção nova-iorquina, onde os tentáculos da criminalidade organizada abraçavam (e abraçam) os da política partidária, do aparelho judicial, do mundo empresarial e das instituições financeiras. Wayne Barrett, o falecido jornalista de investigação do Village Voice, desfia um extraordinário rosário de íntimas ligações dos Trump às máfias alemãs, italianas e judias, aos conglomerados impessoais, aos exércitos de advogados, às administrações públicas e ao enxame de ambições políticas que assolam a sociedade norte-americana. O não menos extraordinário rosário de transformações ideológicas e de progressivo descontrolo político e económico mundial a que Bill Clinton presidiu é a matéria do documentário de Adam Curtis. Juntos, dão-nos a ver um Trump simultaneamente mais humano e mais epopeico.
Um Trump mimado, temerário, frenético, cruel, vingativo, aldrabão, ganancioso e mesquinho. Mas também mais transcendente, e que não queremos reconhecer: a personificação monstruosa de tropos mitológicos cuja função é obrigar-nos a olhar ao espelho para ver o que não queremos ser, o horror ilógico que está em nós. Donald Trump, o ser híbrido onde a pessoa, o actor e o pesadelo se confundem, ocupa no ritual mediático em que estamos inelutavelmente submergidos a figura do personagem mítico do trickster, o enganador cuja energia criativa produz novos sentidos e dá a conhecer novas realidades. Improvável congregação do anão Rumpelstiltskin, do gigante Pantagruel e do eterno mestre Woland, Trump encarna num arrepiante registo kitsch a imagem do mundo ao contrário, o absurdo deleuziano que desmonta as ilusões do sentido. Da imensa galeria de tricksters fantasiados ao longo dos séculos pela literatura mundial, talvez nenhum assente melhor a Donald Trump do que a criação de Alfred Jarry: a do hediondo Rei Ubu. Confrontados com o teatro surreal em que ele tem imperado, somos como o revoltado público parisiense da noite de estreia da peça de Jarry, em 1896: atiramos-lhe memes à cara sem perceber que a anedota somos nós, as nossas expectativas utópicas e os nossos medos apocalípticos. 

O Público, 13 Outubro 2020
L'Accent, 14 Outubro 2020
​MediaPart, 18 Outubro 2020

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    Manuel joão ramos

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