Paul Watzlawick, brilhante psicólogo da comunicação humana, ilustra com este episódio a sua tese sobre a “gentil arte do reenquadramento” como forma criativa de resolução de problemas, que ele contrapõe à prática do “mais do mesmo”, que pode ser descrita também como “insistir em soluções que não funcionam na expectativa de vir a obter resultados diferentes”. Não temos de concordar com Donald Trump para admitir que há nele algo de Tom Sawyer. Nestes três anos de guerra mortífera no leste da Ucrânia, o mundo pareceu estar, em várias ocasiões, perto do apocalipse; e durante este tempo os líderes europeus e norte-americanos foram repetindo o mantra do apoio ao governo ucraniano as long as it takes. À medida que os seus arsenais e recursos financeiros se esgotavam e que, simetricamente, a máquina industrial militar russa se fortalecia, começaram a tornar-se evidentes as desvantagens logísticas e a escassez de recursos humanos do lado ucraniano. A fantasia auto-complacente da guerra económica à Rússia com o objectivo último de conseguir uma “mudança de regime” e uma fragmentação do maior e mais auto-suficiente país do mundo, acabou por revelar sobretudo a fragilidade dos pilares das economias europeias e acelerar o desmantelamento há muito previsto da hegemonia unilateral norte-americana.
Durante três anos, a insistência em “soluções que não funcionam” lançou para mortes horríveis centenas de milhar de ucranianos e de russos, sacrificados na “luta pelos nossos valores”, preservando-se assim cinicamente as valiosas vidas europeias e norte-americanas – dos privilegiados habitantes do “jardim”, na tristemente memorável descrição do estulto ex-vice-presidente da Comissão Europeia, Josep Borrell. Pressenti em Fevereiro de 2022 que a vítima última desta guerra seria a “Europa”; escrevi até que a consequência do confronto seria, não a europeização da Ucrânia, mas a ucranização da Europa (ukraijna significa, nas línguas eslavas, “periferia” ou “terra de fronteira”). Três anos passados de elevadas expectativas, insuficiente capacidade de auto-análise, e inenarrável déficit de realismo, eis onde estamos: o centro nevrálgico do mundo deslocou-se inexoravelmente para leste, a Europa perdeu uma oportunidade de ouro de aceitar que não passa de uma modesta península da massa euroasiática, a interferência norte-americana nos assuntos europeus tornou-se um resquício do aparelho imperial anglo-saxónico.
Perante a evidência de que os equilíbrios resultantes do sistema geopolítico nascido da 2ª Guerra Mundial estavam a estalar, e de que o pêndulo da política norte-americana começava a cair para o lado da chamada doutrina Monroe, o aparelho da oligarquia burocrata de Bruxelas revelou não ter capacidade intelectual e anímica para produzir outra coisa que não “mais do mesmo”. E eis que Donald Trump regressa ao palco da política mundial e tira da manga a carta Tom Sawyer: com um telefonema ao seu homólogo russo, o problema das ligações transatlânticas foi reenquadrado no contexto do grande quebra-cabeças das relações russo-sino-americanas. O peão ucraniano foi sacrificado, o cavalo europeu foi chutado para um canto do tabuleiro, e o rei fez roque. O grande jogo prossegue agora, com os pusilânimes belicistas europeus sentados no banco dos suplentes.
Há uma expressão popular na Rússia cuja origem se encontra na comédia de Gogol, O inspector governamental: англичанка гадит, traduzível como “a inglesa caga”. Na essência, remete para a ideia comum de que os estrangeiros são sempre a causa dos problemas russos. No final do século XIX, a “inglesa” era a Rainha Vitória, e a sugestão era de que a Grã-Bretanha recorria aos bons ou maus ofícios dos turcos e dos franceses para conseguir os seus objectivos estratégicos de invadir as zonas de influência do império russo. De acordo com o historiador Alexander Dolinin, nesta e noutras expressões russas ecoa um tema perene no pensamento filosófico russo: o da decadência do Ocidente. Desde pelo menos a guerra da Crimeia de meados do séc. XIX que as correntes anglofóbicas na Rússia se alimentam em espelho da russofobia britânica. Não admira que, na visão do Kremlin, a guerra da Ucrânia seja vista, em grande medida, como um ardiloso projecto britânico para o qual tanto a União Europeia como os EUA foram estupidamente arrastados. Não admira também que a chegada de Donald Sawyer Trump à Casa Branca seja vista com alívio, como sinal de que a ressurreição da velha anglofobia inerente à identidade norte-americana desde a independência pode congelar temporariamente as eternas ambições territoriais anglo-europeias face à Rússia.
Face a este grande reenquadramento, juro que não me admirarei se alguém me disser que os EUA poderão vir a aderir aos BRICS e que a União Europeia cessará funções antes de 2030.
Jornal de Azeitão, Janeiro 2025
O Público, 26 Fevereiro 2025
L'Accent, 23 Março 2025
MediaPart, 12 Novembro 2025
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