MANUEL JOÃO RAMOS
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​Como cozer uma lagosta

4/6/2024

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Eu sei que é egoísta pensar assim, mas esta coisa do aquecimento global tem por vezes efeitos locais simpáticos. Poder disfrutar de céu limpo e temperatura amena às portas do inverno é um deles. Também sei, claro, que as lagostas e as rãs só se dão conta de que estão a cozer quando já é demasiado tarde para espernearem, e que a espécie humana não parece mais inteligente ou previdente que os batráquios e os crustáceos.
 
Assim estou, à beira da época do Natal, a apreciar o burburinho do fim de semana numa esplanada da vila, sem casaco de penas, barrete ou luvas. Como se fora passerelle de um filme de Fellini, vejo desfilar pela rua direita magotes de licrociclistas, enxames de motoqueiros de cabedal, ranchos de enoturistas gringos, e cardumes de SUVs negros. As amitas alfacinhas chilreiam à volta das mesas, os nepotes azeitonenses aborrecem-coçando esquinas, e os pés-descalços aguardam a carreira buzina na paragem do Rossio. Omnipresente nas mãos, nas bolsas e nas orelhas, lá está o rectângulo telemóvel a lembrar que o que vemos é apenas parte do que se passa à nossa volta. A dimensão oculta da matrix conecta tudo e todos, fazendo transbordar o iminentemente pessoal para o globalmente colectivo – através dos servidores que, no Nebraska, lançam ondas de ar quente para as correntes convectivas dos ventos alísios.
 
É uma platitude dizer que o telemóvel entrou nas nossas vidas e que, a par com óbvios benefícios, trouxe uma multitude de novos problemas para os quais não estamos cognitivamente preparados e cuja resolução dependeria de consensos sociais que estão longe de existir – parcialmente porque a discussão pública é, ou mal dirigida, ou demasiado fragmentária. Filhos que são mais filhos do tiktok que dos seus pais naturais, casais que se desunem perante a palavra-passe que interdita o acesso à intimidade do parceiro, gente de costumes suaves que se transforma em turba injuriosa no ventre das “redes sociais”, roubos de identidade, exploração comercial de dados pessoais, espiolhamento por governos estrangeiros... Problemas que as regulamentações estatais e supra-estatais não resolvem, apenas mitigam.
 
Viktor Mayer-Schönberger, um investigador de nome improvável, escreveu há uns anos um livro que marcou o meu olhar sobre o mundo contemporâneo: Delete, the virtue of forgetting in a digital age. Delete é uma palavra inglesa polissémica: significa tanto “apagar”, “suprimir”, “anular” como “cancelar”. O sentido, no contexto do livro, é referência directa à ubíqua tecla de qualquer keyboard de computador, aquela que se encontra no topo direito dos teclados e serve para, precisamente, “apagar” ou “anular” uma acção de digitação. A ideia central do livro é que a humanidade tem vivido há muitos milhares de anos numa idade estritamente analógica, afinando e modelando formas culturalmente variadas para garantir que, das múltiplas acções humanas, algumas possam ser memorizadas e passadas de geração em geração, e outras sejam esquecidas para sempre. Nesta perspectiva, a cultura é vista como um processo de selecção da memória colectiva, de escolha do que cada sociedade prefere lembrar – porque os meios de preservação da memória são (eram) limitados. A invenção dos computadores, da internet, dos telemóveis, etc., inaugurou uma nova idade do Homem: a idade digital, em que o esquecimento deixou de ser possível, ou pelo menos deixou de ser controlado por processos de selecção cultural, e pelos indivíduos-utilizadores. Os servidores não apagam nada, não esquecem nada, a não ser por decisão empresarial discricionária, ordem governamental irrevogável, ou avaria técnica irresolúvel. O passado reverte-se sem controlo sobre o presente, ameaçando a relevância e a sobrevivência da transmissão cultural analógica.
 
Porque a espécie humana não é mais inteligente ou previdente que os batráquios e os crustáceos, quando nos apercebermos da dimensão da tragédia que é o nosso sonambúlico mergulho colectivo na era digital será tarde demais. Vamos cozer em águas de “inteligência artificial”, se é que não grelhamos antes sob o inclemente estio de Dezembro.
 
 Jornal de Azeitão, Dezembro 2023​
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O cheiro da pólvora

4/6/2024

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Mais quilómetro, menos quilómetro, a Faixa de Gaza tem a mesma extensão que o território que, de norte a sui, vai do estuário do Tejo à linha de costa da Arrábida e, de oeste para leste, dos areais da Costa da Caparica ao curso da Ribeira de Coina. Mais ou menos os mesmos 365 quilómetros quadrados. Não é difícil imaginar dois milhões de pessoas nesta fatia da Margem Sul. Mesma linha de praias, mesma hidrografia, e mesma orografia – se exceptuarmos as arribas sedimentares da serra da Arrábida. Para sul, num caso, a vastidão do deserto do Sinai e, no outro, a imensidão do oceano Atlântico.
 
Imaginemos que eram largadas, em três semanas, 30 mil bombas e mísseis sobre esta faixa da Margem Sul, mobilizado em seu redor um número de soldados equivalente à capacidade de cinco estádios do Benfica, mortas 10 mil pessoas e feridas outras 20 mil. Independentemente das emoções políticas, do horror ético e da mobilização social que um tal acontecimento catastrófico teria, não custa pensar que as rotinas da vida em Azeitão – a escassos quilómetros da fronteira da Ribeira de Coina –, continuariam a decorrer com normalidade. Malgrado o incómodo ruído dos bombardeamentos e o cheiro da pólvora, dos incêndios e dos corpos calcinados, os cafés e restaurantes para cá dessa faixa continuariam abertos, as escolas continuariam a funcionar, e o combustível continuaria disponível nas estações de serviço.
 
O sentimento de irrealidade da guerra não seria muito distinto daquele que um azeitonense sente hoje, face à tragédia de Gaza. Seria igualmente um sentimento de impotência e alheamento, independentemente da solidariedade ou ausência dela perante as vítimas e o desastre humanitário. Não se trata de uma questão de “não é nada comigo”, mas de necessária compartimentação mental entre difusas emoções e racionalizações políticas e prementes necessidades de prover o dia-a-dia.
 
Estive, há anos, a poucos quilómetros de uma frente de batalha no norte da Etiópia. Vi hospitais sobrelotados, gente mutilada, mobilizações apressadas de milhares de jovens arrancados das famílias, e o crocitar das armas para lá do horizonte. E, aí, confrontei-me com esta mesma irrealidade e esta mesma dissonância cognitiva entre a terrível violência da guerra e a normalidade possível da vida do lado de fora do seu perímetro. As crianças continuavam a ir para a escola, as lojas continuavam abertas, e as rotinas diárias adaptavam-se às inúmeras restrições impostas – dos black-outs aos cortes de água, das estradas cortadas à penúria de mantimentos, do choro e da raiva individual à lavagem cerebral colectiva da propaganda governamental.
 
Quem, em Azeitão, no Cairo ou em Reiquiavique, se emociona hoje com a tragédia de Gaza – seja a poucos ou a muitos quilómetros de distância –, porque ela entra pelos olhos dentro graças à profusão de notícias provenientes de múltiplas plataformas de comunicação social, tem normalmente a quase certeza de que ela não altera os seus ciclos de vida diária. Poderá racionalizar e emitir opiniões, manifestar a sua indignação ou não, mas, não havendo transbordar do perímetro ritual da guerra para a sua zona de conforto, não deixará de estar atento às promoções do supermercado da sua vizinhança.
 
Tal como podemos duvidar que uma folha de árvore tenha caído se ninguém a vir cair, desdenhamos das tragédias que ocorrem todos os dias quando a comunicação social não nos oferece num prato de morbidez o testemunho da sua realidade. Por extraordinário passe de magia, o horror de Gaza (complementado pelo horror menor da Cisjordânia) eclipsou nas nossas mentes o horror da Ucrânia. Mas esses horrores existem para nós porque no-los injectam. Todos os outros simultâneos horrores que pontuam a vida humana no planeta não têm direito à nossa comiseração ou sequer ao nosso reconhecimento.
 
Nota: no ano de 2023, estes foram os conflitos violentos de que resultaram mais de 10 mil mortes: Myanmar, Magrebe e Sahel, México, Ucrânia, Etiópia e Sudão. Os conflitos de que resultaram até 10 mil mortes foram: Colômbia, Afeganistão, Somália, Nigéria, Congo, Iraque, Sudão do Sul, Síria, Iémen e Haiti.
 
Jornal de Azeitão, Novembro 2023​
 

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Redução a pó

4/6/2024

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 Habituei-me, nestas páginas, a reportar instantâneos de Azeitão, vila, freguesia e região; a relatar impressões sobre rituais do presente e memórias do passado, a partir do que vejo, ouço e leio.
 
Vou procurando acompanhar, tal astronauta, as labutas, as festividades, e os diz-que-disse de quem por cá vive, por cá passa e, por vezes, quem trespassa. O casario, as pedras, árvores e caminhos têm histórias para contar, e faço-me disponível para os observar e tentar compreender. Diverte-me inquirir os sinais fugazes de passados longínquos, que se manifestam em coisas que se dizem, em pedras que se preservam, e espaços que se sacralizam. Séculos, milénios, de vidas vividas, aspirações, esperanças e desenganos, engajam-nos, inspiram-nos e assombram-nos como fantasmas imateriais.
 
Trazê-los à vida e dar-lhes sentido, convocando-os pela palavra, é ajudar a dar-nos a nós mesmos sentido.
 
Ao admirar a serra, ao apreciar o arvoredo, e ao perscrutar os vários estratos da mancha urbana construída, cismo frequentemente sobre o que restará do passado e do presente no futuro. Há por aí pedras seculares que nos prometem perseverar caso a mão da natureza ou da iconoclastia não as derrubem abruptamente. Há árvores e geografias que, tendo muito presenciado, se mostram disponíveis para continuar sendo testemunhas mudas e paradas do fervilhar da vida em sua roda. E há provérbios e narrações que, escritas ou contadas, nos irão sem dúvida sobreviver. Mas, e tudo o mais? Quanto do que julgamos hoje ser tão importante e valioso estará cá depois de depois de amanhã?
 
O século XXI não reverteu, antes reforçou, a natureza efémera do que marcou a acção humana no século anterior. Somos muitos, muitos mais do que éramos antes, a reclamar o direito a bens materiais, e a um módico de conforto. Uma exigência colectiva que a ideologia do consumo de massas abraçou e exponenciou. O tempo da contemporaneidade – do hoje – é o da produção imparável de lixo – que é o estado final dos desejos, aspirações, produções, aquisições, transações de coisas materiais. Um carro durará 15 anos com um pouco de sorte, uma casa feita de cimento 75. O plástico degrada-se a partir dos 7 anos. O asfalto soçobra aos 30. As telhas – se não forem em placa sanduiche – durarão muito mais, mas quem quer um telhado sem casa por baixo?
 
De património físico, os nossos antepassados deixaram-nos muito pouco, para além do que os ricos e poderosos quiseram que ficasse: paços senhoriais celebrando a assimetria social, igrejas opulentas consagrando o poder do sacerdócio, caminhos consolidados com o suor e o sangue do povo e das muares. Deixaram-nos também intocado o gentil recorte da serra da Arrábida. E nós, que vamos deixar para quem – se é que alguém haverá – nos sobrerrestará? Vidros partidos, estradas esburacadas, paredes arruinadas pela degenerescência do cimento, microplásticos omnipresentes, invisíveis a olho nu, e uma serra ferida de morte por cimenteiras e pedreiras que – como o carcinoma explosivo – se alastram pelas encostas e reduzem a pó a pedra do tempo dos dinossauros e das conchas marinhas. E, por seu lado, a voragem das redes sociais, o tumor da internetização da comunicação humana, reduzirão sem dúvida a pó algorítmico as memórias, os hábitos, os costumes, os saberes que herdámos de quem nos precedeu neste pedaço de superfície terrena. O símbolo maior do mundo de hoje não é, como alguém escreveu, o deleite, mas sim o “delete”.
 
Jornal de Azeitão, Outubro 2023​

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Divagações termais

4/6/2024

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Não me consigo lembrar do nome do café fronteiro ao Clube Sesimbrense (agora Grémio), no Largo José António Pereira, em Sesimbra. Era ali que o Rafael Monteiro tomava o seu café, quando não estava a cirandar pela vila ou por Santana. A barba longa albergava migalhas das torradas de vários dias, e os dedos que seguravam o cigarro sem filtro tinham uma tonalidade castanho-nicotina. Não havia segredo que ele não conhecesse, nem opinião que não tivesse, pelo menos no que a Sesimbra concernia. Foi ele que descobriu, na Quinta da Aiana de Baixo, uma lápide de seis medalhões igual à que ostenta a fonte de Aldeia Rica, em Oleiros, e a uma outra, proveniente da Quinta da Arca de Água, em Alferrar, Setúbal, que entretanto foi vendida por um sobrinho do visconde de Montalvo ao coleccionador Jorge de Brito nos anos sessenta.
A Fonte de Aldeia Rica é contemporânea da Fonte dos Pasmados, cuja construção, ordenada pelo juíz de fora Agostinho Machado de Faria em 1787, esteve envolta em polémica. Originalmente, a fonte situava-se num pátio interior da Quinta da Nogueira, que hoje é das Caves José Maria da Fonseca, mas o “Pombal Azeitonense”, como o juíz ficou conhecido, ordenou a sua deslocação para o espaço público, tendo a população trabalhado “de noite e em dias feriados não auferindo qualquer remuneração”. A obra causou controvérsia, tendo o proprietário da quinta apresentado queixa contra o juíz por a deslocação ter “causado graves prejuízos para o cunhal e muro da casa nobre da Quinta” e “o dito ministro” foi denunciado pelo “malévolo animo” de ter explorado “o suor e trabalho dos pobres”, e “para o efeito de que não faltem (...) são presos e manietados todos aqueles que faltem”.
Ainda assim, o chafariz causou tal impressão de pasmo na população que daí resultou o seu nome. Já quanto à “lenda” que conta que “quem das suas águas beber não deixa de Azeitão regressar”, creio que devemos dar certo desconto, já que essa parece ser uma frase feita usada para caracterizar um sem-fim de fontes e chafarizes em Portugal e no mundo.
Hoje, estão secas ou insalubres muitas das nascentes, fontes e olhos de água de onde antigamente fluíam as águas subterrâneas das serranias da Península de Setúbal. E, no entanto, elas foram a um tempo apreciadas e louvadas pela sua qualidade. A de São Simão, a da Quinta do Anjo, a cisterna do “Castelo dos Mouros” em Coina Velha, até a da Califórnia, na praia de Sesimbra... Uma das mais desconhecidas e misteriosas é a Fonte da Rocha, anichada na encosta sul do Vale dos Barris, perto de Palmela e ainda mais perto do Convento das Irmãs da Apresentação de Maria. Foi, em tempos, uma fonte férrea, com efeitos curativos. Em Portugal são raros estes pontos de água, de características termais. Quase nada se sabe hoje da história da Fonte da Rocha, vítima da perda da capacidade de retenção das águas de uma Serra da Arrábida cada vez mais árida.
As águas férreas são especialmente indicadas para tratar problemas da circulação sanguínea, curando anemias e restituindo o equilíbrio das plaquetas. Pelo que aprendi ao visitar a fonte de Vale da Mó, nas faldas do Luso, era hábito os pastores procurarem nascentes férreas porque tinham um efeito miraculosamente reconstituinte para o gado. Não custa imaginar que a Fonte da Rocha tivesse sido um ponto de paragem de rebanhos de ovelhas e cabras – como acontecia em Vale da Mó, antes da expulsão das ordens religiosas no final da monarquia, quando as irmãs ursulinas doaram à aldeia os terrenos do mosteiro e o célebre químico francês Charles Lepierre analisou as águas da fonte e determinou a sua qualidade como água termal.
Não provei a água da Fonte da Rocha, no Vale dos Barris, mas provei a da Fonte do Vale da Mó. Posso assegurar que sabe muito mal, e que a sua cor me fez lembrar os dedos do Rafael Monteiro, de saudosa memória.

Jornal de Azeitão, Setembro 2023​
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a miopia infantil

8/9/2023

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O capítulo 35 do livro 3 das Viagens de Marco Polo, onde se descreve o Reino de Abash (Abissínia, a antiga Etiópia), refere que aí os cristãos, para se distinguirem dos vizinhos muçulmanos, exibem uma cruz na testa, marca que seria feita com ferro em brasa no acto do baptismo. Ainda que possamos duvidar da informação de que a cruz fosse feita com ferro em brasa, a verdade é que ainda hoje, nas zonas rurais do norte da Etiópia, não é raro encontrar quem a exiba na testa, mas executada como tatuagem.
Também não é rara a existência de outro tipo de marcas na testa de muitos etíopes, mas estas não são sinal de fervor ou adesão religiosa. Muitas mulheres exibem tatuagens ornamentais em volta do pescoço, e é comum observar uma dupla escarificação em cada uma das fontes, tanto em homens como em mulheres: estas são o resultado de sangrias praticadas por médicos tradicionais, que têm como objectivo proteger as crianças de certo tipo de doenças. Para além destas marcas religiosas, ornamentais e rituais, é também muito habitual a existência de cicatrizes na cabeça. A origem destas cicatrizes advém de uma prática educacional curiosa, actualmente em recessão mas à qual eu assisti em diversas ocasiões: para castigar crianças desobedientes ou insolentes, os familiares mais velhos atiram-lhes pedras à cabeça. O efeito pavloviano deste castigo é tal que as mais das vezes basta fazer o gesto de apanhar uma pedra e ameaçar atirá-la para que a criança obedeça à ordem dada.
Não pretendo discutir a bondade ou perversidade desta forma de castigo corporal, tal como não venho aqui comentar a publicitação de correctivos radicais (como, por exemplo, submergir uma filha na água fria de uma piscina) contra birras infantis como forma de angariar seguidores em redes sociais. Pretendo apenas dar conta do meu pasmo permanente face aos comportamentos públicos de crianças e adultos na região de Azeitão – microscópico espelho do que, suspeito, acontece um pouco por todo o lado, dentro e fora do rectângulo luso. Não passa um dia em que não observe – seja no restaurante, no café, na loja, no parque, ou na praia – pais, tios e avós a silenciar filhos, sobrinhos e netos pondo-lhes telemóveis ou tablets na mão, para melhor poderem conviver sem interferências infantis. Quando não estão entorpecidos pelas imagens do ecrã, transformam-se em feras ditatoriais e inaturáveis a exigir toda a atenção do mundo, gritando, esperneando e correndo em círculos viciosos.
Ligar uma criança ao ecrã de um telemóvel é uma forma de hipnotismo fácil e prático no imediato, mas é também uma demissão de responsabilidades parentais cujas consequências são temíveis. Esta miopia educacional resulta, por um lado, em efectiva miopia precoce dos jovens – antigamente, havia um “caixa de óculos” na turma da escola; hoje, o elemento de distinção na turma é a cor do aro e a graduação da lente de cada aluno. Por outro lado, e muito mais preocupante, a consequência deste novo hábito é a progressiva miopia mental e emocional da juventude: desabituados do saudável balanço entre manifestação de afecto e a exigência de cumprimento de regras, resvalam para um autismo imoral, para o absoluto desrespeito, não apenas dos pais que não conseguiram fazer-se por eles respeitar, e dos professores que, na escola, com eles se confrontam impotentes, mas de todos quantos se encontram do lado de cá do ecrã. A única autoridade destes novos “meninos selvagens” é o algoritmo que gere as redes sociais e os seus avatares, conhecidos como influencers, youtubers, tiktokers, instakings e instaqueens.
Entrevistado em sua casa pouco tempo antes da sua morte aos 101 anos, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss referiu o seu profundo pesar pelo fim da diversidade cultural da humanidade e a sua repugnância pela monocultura que hoje impera. Terminou a entrevista notando que, agora que a sua existência estava perto do fim, deixava um mundo de que (já) não gostava, habitado por uma humanidade a viver num regime de envenenamento interno.
É, claro, possível duvidar desta visão apocalíptica e supor que a globalização monocultural não passa de um projecto utópico euro-americano em vias de derrapar na sua meta final. Mas não deixo de me perguntar como vão as novas gerações de azeitonenses gerir a pesada herança que vão ter de carregar.
 
Jornal de Azeitão, Agosto 2023​
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Inteligência natural

1/9/2023

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Sentado à mesa do café da aldeia, ouço correr histórias sobre vidas passadas...

John Kegan, no seu reputado livro The History of Warfare, sublinha que não existe um conceito universal de “guerra”, porque a prossecução, percepção e compreensão da guerra é sempre ditada e condicionada culturalmente, apesar de, em si, a “guerra” ser um diálogo intercultural (geralmente violento) de transferência de ideias e tecnologias.
A dado passo da sua obra, apresenta-nos um caso raro de sageza na recusa de uma nova tecnologia militar, em função da preservação de um modo de conceber e fazer a guerra: a introdução de armas de fogo no Japão, no séc. XVI, foi entusiasticamente acolhida e os senhores da guerra japoneses lançaram-se numa verdadeira corrida às armas, produzindo versões cada vez mais aperfeiçoadas de arcabuzes, em quantidades cada vez maiores. O arcabuz mudou a face da guerra no Japão, causando carnificinas tais que, finalmente, levaram os senhores da guerra a reunir-se e decidir proibir a produção e uso de armas de fogo. Regressaram à forma tradicional japonesa de fazer a guerra, com arcos, flechas, sabres e paus, até que, no final do séc. XIX, britânicos e norte-americanos as reintroduziram, quando começaram a interferir na vida política e económica japonesa, em nome da modernização e ocidentalização do país.
Vem isto a propósito de uma nova tecnologia digital e do seu potencial destrutivo: a chamada “inteligência artificial”. Dizem alguns críticos que o termo é enganador porque sugere que os modelos de linguagem artificial são fruto de pensamento consciente. Pouco importa para o caso que quero aqui discutir: o uso cada vez mais generalizado destes modelos, em particular do muito bem-sucedido ChatGPT, na vida quotidiana, e em particular no ensino. Apresentando-se como uma ferramenta neutra e bem-intencionada de suporte informativo, tem, no entanto, duas faces sombrias. Por um lado, está longe de ser um suporte neutro e de valor público, já que os seus algoritmos são de uma companhia privada, sujeitos a instruções e condicionamentos que nos são inacessíveis, e dependentes de uma base de dados que é sobretudo norte-americana. Por outro, coloca o seu utilizador perante um paradoxo de difícil resolução: como simula ser uma entidade pensante, que responde com frases complexas e oferece uma mediana de informações convencionais, oferece-nos a ilusão de que estamos perante uma entidade pensadora que concede, a pedido do utilizador, acesso gratuito a textos organizados, que este pode “roubar”, fazendo-os passar como seus sem ser acusado de plágio.
É possível fazer uso criativo e crítico desta ferramenta, como bem mostra, por exemplo, a poetiza alemã Monika Rinck. Mas, no geral, o que promove é profunda preguiça mental e – o que é particularmente grave no processo de ensino – uma alteração profunda e com consequências imprevisíveis na aprendizagem e uma possível redução das capacidades de construção de textos e argumentos, para além de limitar a compreensão crítica da informação disponibilizada, que se apresenta como sumamente confiável. No estado actual, não prevejo que seja exequível fazer como os senhores da guerra japoneses: decidir por consenso suspender o uso desta tecnologia, cujos malefícios facilmente arriscam ser muito maiores que os benefícios.
O ChatGPT é um novo instrumento de imersão no mundo digital que pode ter efeitos devastadores. Arriscamo-nos a estar a prender as nossas capacidades intelectivas no interior de um batiscafo que se afunda no oceano com uma quantidade limitada de oxigénio e pouca ou nenhuma possibilidade de regresso à superfície.
Por mim, vejo a redenção no desligarmo-nos do mundo digital, como profetiza E. M. Foster no conto The machine stops, e na valorização do que podemos aprender no (que resta do) mundo analógico. Sentado à mesa do café da aldeia, ouço correr histórias sobre vidas passadas: os miúdos que se reuniam junto ao poço a jogar ao berlinde, os bailaricos no Verão e a matança do porco no Outono, os beijos roubados no virar da esquina, o labor nos campos e os tratamentos da bruxa com novelo e agulha para tirar o mau-olhado, o cheiro da urze e do estrume, as queimaduras do ferro de engomar aquecido a carvão, as zangas entre primos, o rapaz que fugiu para ir trabalhar na cidade, a tia que fazia milagres com a máquina Singer e um metro de chita estampada, os burros albardados a passar a ribeira no Porto de Cambas a caminho da feira de Azeitão...
O que vemos e o que imaginamos, o que ouvimos contar, o que cheiramos e saboreamos é essencial para conhecermos o mundo que está para além e para aquém dos “modelos de linguagem”. É parte fundamental da nossa inteligência natural e eficaz vacina contra a estupidez de nos submetermos à “inteligência artificial”.

PS: li agora que, nos céus da Ucrânia, voam drones kamikaze que, graças à “inteligência artificial”, funcionam de forma totalmente autónoma, identificando e destruindo alvos sem intervenção de operadores humanos.
 
Jornal de Azeitão, Julho 2023​
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esta terra não é para estranhos

3/8/2023

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Li há pouco uma curiosa (auto)reflexão sobre o carácter russo.  A tradução dizia mais ou menos isto:
 
Quando as pessoas no Ocidente falam dos russos e da Rússia, citam frequentemente a célebre frase de Churchill: “A Rússia é uma charada, envolvida em mistério, dentro de um enigma”. É uma citação elucidativa: a Rússia era e é incompreensível para um ocidental.
Como lutavam os europeus na Idade Média? O meu primo Ludovico, proprietário da quinta vizinha, embebedou-se e chamou-me idiota. Não posso aceitar o insulto, por isso junto os meus quatro vassalos, distribuo paus e forquilhas aos habitantes do meu domínio, e parto em guerra contra ele. Hurra!... Vitória. E, quando estou prestes a cortar a cabeça do maldito Ludovico, o bispo meu primo, as minhas tias e os meus tios, e mais não sei quantas pessoas intervêm, dizendo que a minha resposta não é proporcional – ele só me chamou imbecil. Em resultado, eu não mato o Ludovico.
Esta moderação feita por parentes da classe dirigente funcionava a todos os níveis, dos conflitos entre quintas vizinhas às guerras entre estados. Daí, um estranho culto da proporcionalidade desenvolveu-se no Ocidente: se eu te esfaqueio mas não te mato, tu não me cortas a cabeça.
Os eslavos e, em particular, os russos nunca lutaram assim. A guerra era “ou nós ou eles”. Sem alternativas, era uma guerra com os infiéis, sem “proporcionalidade”. Era uma guerra pela sobrevivência. Em resultado, os eslavos desenvolveram uma tradição diametralmente oposta: ou não reagir de todo ou então resolver o problema de uma vez por todas. A transição da primeira opção para a segunda é instantânea, sem aviso, definitiva e irrevogável. A linha vermelha, ela própria, para além da qual está o “matem os sobreviventes e tenham um bom dia” variava, do “é para já” dos polacos ao “quando o sol se transformar num gigante vermelho” dos búlgaros.
Os russos estão algures no meio e, para quem nasceu na tradição cultural ocidental, este “meio” é precisamente “uma charada, envolvida em mistério, dentro de um enigma”. O ocidental não se consegue impedir de espicaçar o urso com um pau para ver onde está a linha vermelha. E fará isto apesar de todas as histórias que o seu avô lhe contou sobre o seu próprio avô, que também espicaçou o urso em Estalinegrado ou em Borodino.
A este respeito, o Ocidente não é nunca capaz de aprender. A memória histórica da Idade Média é mais forte que a memória do que se passou nos últimos três séculos. (@Slaviangrad)
 
Em Sesimbra, era comum um pexito dizer que as gentes do Campo se batem por um metro quadrado do terreno do vizinho, que respondem violentamente aos seus abusos, embora estejam sempre prontos a cobiçar, eles próprios, a sua propriedade. O espírito do mar não permite estes luxos. No mar é fácil morrer porque a natureza é infinitamente mais inclemente que os humanos. Por isso, talvez, os pescadores apreciam mais a vida e respeitam mais o outro. Não que não haja competição pelo bem comum que é o peixe, mas precisamente o bem é comum, não privado.
 
O Campo é agora, em grande medida, a Vila. Ainda assim, como dizia o russo, a memória dos tempos antigos é muito forte, encastra-se, encasqueta-se, como uma marca indelével. Hoje em dia, na Vila, os conflitos do metro quadrado de terreno passaram para as moradias geminadas sem que a memória do comportamento ancestral se perca. Abusa-se de novas maneiras: subindo muros e construindo anexos ilegais, disfarçando puxadas de água, fazendo barulho, estacionando o carro sobre o passeio público, fazendo cavalinhos em cima de motas, deixando os cães a ladrar dia e noite no quintal. O resultado é uma constante tensão colectiva, nascida de um sobranceiro desinteresse pelo direito privado dos outros e pelo bem comum que são os espaços públicos (e pelo ar que se respira).
 
Quem vem de fora desespera com esta maneira de viver agressiva e disfuncional. Ao fim de algum tempo a tentar socializar e conviver nesta Vila em permanente estado de bulha de aldeia de gauleses, acaba por desistir e rumar a outras paragens. Mas há que ver as coisas pelo lado positivo: é bom para o comércio imobiliário porque há sempre casas à venda para o próximo forasteiro incauto, e garante que a tradição cultural não se perde. Quem não gosta dela, que vá para Sesimbra.
 
 
 Jornal de Azeitão, Junho 2023​
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Quando um velho morre

21/7/2023

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“Quando um velho morre, é toda uma biblioteca que arde”. Esta frase é habitualmente referida como sendo “um antigo provérbio africano” que valoriza a importância da transmissão oral do conhecimento nas sociedades tradicionais daquele continente. 
 Os provérbios são fontes interessantes para quem investiga história oral na medida que é assumido que tendem a ser reproduzidos de geração em geração sem modificações palpáveis, sugerindo assim uma certa estabilidade dos valores éticos e das tradições culturais. São também tomados como exemplificações da sabedoria popular cuja mensagem é frequentemente capaz de sobreviver intacta a traduções em línguas diferentes e a apropriações culturais várias. Também é possível que, mesmo na ausência de contactos directos, populações longínquas formulem frases com sentidos semelhantes. Embora certos provérbios portugueses não encontrem correspondente noutras línguas europeias, é perfeitamente admissível que a expressão “a mulher quer-se pequenina como a sardinha”, que tanto quanto sei não viajou sequer até Espanha, possa ser independentemente formulada pelas populações de pigmeus das florestas do Congo ou pelos bosquímanos da Namíbia (com algumas modificações, dada a inexistência de sardinhas na floresta de M’buti e no deserto de  Kalahari). 
 No caso do “provérbio africano” acima mencionado, quem o ouve (ou lê) poderá duvidar se ele é efectivamente “antigo” e supôr, ao invés, que se trata de um pseudo-provérbio, falsamente atribuído a uma indefinida africanidade. Parece, à partida, espúria a ideia de que um provérbio “antigo” possa referir-se à existência de “bibliotecas” na África subsahariana em período pré-colonial, período em que a escrita e o uso do livro eram desconhecidos em grande parte do continente. Há, evidente, excepções – que confirmam a regra: os arquivos bibliográficos do norte do Mali, as bibliotecas no deserto marroquino, a biblioteca de Gondar, na Etiópia, por exemplo. Mas supôr uma familiaridade antiga das sociedades tradicionais africanas com o conceito de biblioteca é, no mínimo, problemático. 
 Parecerá mais provável que este “provérbio” tenha sido, na origem, uma expressão bem sucedida autorada por alguém que pretendeu manifestar legítima reverência pelas formas de produção e reprodução do conhecimento nas sociedades tradicionais de base oral em África – que confia(va)m grande parte da tarefa de preservação das memórias colectivas em anciãos conhecedores – fossem eles assim identificados por via informal ou, como por exemplo no Reino do Ruanda, explicitamente nomeados para essa função como dignatários reais. 
 Sabemos de casos em que, de facto, bibliotecas inteiras arderam. O mais famoso incêndio ocorreu, de facto, em África: o Mouseion, ou “Assento das Musas”, como era conhecida a Biblioteca Real de Alexandria no Egipto, fundada por Alexandre o Grande em 283 a.C., e contendo meio milhão de documentos escritos provenientes de lugares tão distantes como a Assíria, Grécia, Pérsia e Índia. Os historiadores não concordam com a data nem com a autoria do incêndio: Júlio César em 48 a.C., o Patriarca Teófilo em 391 d.C. e o Califa Omar em 640 d.C são habitualmente dados como os responsáveis pela tragédia – note-se a divergência de datas; é curioso que um tão famoso acontecimento não tenha sido registado por escrito, e que sete séculos separem o primeiro suspeito do terceiro. 
 Pode ser que o incêndio da Biblioteca de Alexandria tenha sobrevivido nas memórias orais africanas que, através de um “provérbio”, procuraram equiparar a morte de anciãos detentores de conhecimentos tradicionais ao desaparecimento daquela instituição egípcia. Mas, mais provavelmente, trata-se de uma expressão que ganhou foros de “antigo provérbio africano” porque quem o reproduz desconhece que Amadou Hampâté-Bâ, um escritor e antropólogo maliano de origem Peul, nascido nas encostas de Bandiagara, nomeado embaixador do Mali na UNESCO, foi o seu provável autor, quando procurava alertar as instituições internacionais para o efeito que as profundas transformações que a urbanização e a modernização do continente estavam – e estão - a ter na destruição dos saberes e conhecimentos tradicionais de várias comunidades rurais e pastoris africanas. 
 É em coisas destas que penso, quando falo com idosos – anciãos – na vila de Azeitão e nas aldeias circundantes. Sinto-os tratados como descartáveis, irrelevantes, desligados de um mundo que se confia cada vez mais cegamente a mecanismos exteriores a preservação da memória colectiva – telemóveis e terminais de computador ligados a servidores informáticos alojados em terras norte-americanas, através de micro-ondas, satélites e cabos de fibra submarinos.  
O que com eles aprendo prefiro não partilhar por via informática, para evitar alimentar ainda mais o algoritmo da chamada “inteligência artificial” que progressivamente lança a humanidade que o abraça e dele depende num estado geral de “estupidez natural”. 
 
 Jornal de Azeitão, Maio 2023​
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À Escuta no Café

19/7/2023

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A figura da velha de lenço negro que espreita pela janela e controla tudo o que se passa na vizinhança é um estereótipo famoso sobre o qual assenta uma longa história de coscuvilhice e censura social. Menos conhecida é a figura do etnógrafo que, com um ar fingidamente cândido e distraído, ouve tudo o que se diz à sua volta. Leite de Vasconcellos, ele próprio, conta que de modo a poder recolher elementos do dialecto barranquenho que os locais se recusavam a falar na presença de estranhos, se encostava às portas e colocava a orelha junto à madeira para os poder ouvir sem que eles se apercebessem.
 
Não tenho os dotes e a persistência do grande etnógrafo, mas volta não volta surpreendo-me a mim próprio a olhar para o vazio do ecrã do telemóvel enquanto aprecio o sol sentado na esplanada do café e – involuntariamente, claro – fico de ouvido à escuta do que se diz na mesa do lado. Basta que um tom de voz destoe do burburinho geral ou que uma palavra solta me prenda a atenção para que eu entre em modo velha de lenço negro.
 
Há alguns dias, bebia eu o meu café matinal numa esplanada ensolarada da vila quando, atrás de mim, ouvi alguém falar do ladrar de cães por trás de portões. A voz era pausada, feminina, e relatava um episódio ainda fresco. Pelo que percebi, a senhora tinha assentado arraiais na vila há dois ou três anos, vinda da metrópole, e adquiriu o hábito de levar o seu cão ao parque das oliveiras. O que seria normalmente um passeio higiénico e quase pastoral é, pelo que me pareceu, uma dolorosa expiação. Para chegar ao parque tem de atravessar uma zona de moradias, a maior parte das quais guardada por cães que, mal pressentem uma presença na rua, desatam a ladrar e a rosnar em coro, infernalizando-lhe o passeio porque o seu cão é tomado de pânico.
 
Naquela mesma manhã, ao passar com ele numa rua onde, por trás de um muro alto, vivem cinco cães de ladrar especialmente vigoroso, foi subitamente abordada pela dona da casa fronteira. Agitada, a senhora, que se exprimia num forte sotaque gálico, pediu-lhe por tudo que deixasse de passar por ali. A cara da viandante lisboeta terá evidenciado tal pasmo que a moradora francesa se desfez então em explicações e justificações. Teria chegado à vila, como a passeadora, há coisa de três anos, na expectativa de poder aproveitar uma imagino que legítima reforma tranquila em terras azeitonenses. Tinha comprado aquela moradia, feito obras, trazido de França os seus haveres e o marido, mais que disposta a viver entre os berberes católicos que nós, portugueses, somos.
 
O problema da compra de casa é que, ao contrário do que acontece com a compra de carro, não dá para fazer um test run, isto é, dormir nela um par de noites antes de entregar o cheque para sinalizar o contrato de compra e venda. Comprada, restaurada e mobilada a casa, só quando para lá foi viver se apercebeu que tinha chegado, não ao paraíso, mas ao inferno: faça dia ou noite, verão ou inverno, o ladroar dos três cães da moradia em frente nunca pára e multiplica-se quando alguém, particularmente alguém que passeia incauto o seu cão, passa pela rua. Há três anos que a senhora se queixa em vão aos vizinhos, à junta de freguesia, à GNR e, mais recentemente, à psicoterapeuta.
 
Cansada de tanto encolher de ombros das autoridades e de tanto receituário de anti-depressivos, optou desesperada por aquele inaudito último recurso: pedir a quem passa pela rua que por ali não passe, para que os cães enclausurados na moradia fronteira não se manifestem tanto; suplicar aos viandantes que aceitem prescindir do seu direito ao espaço público porque os vizinhos não prescindem de abusar de um mais que duvidoso direito privado a prender cães ruidosos no seu quintal.
 
Fiquei sem perceber qual a resposta ao pedido porque, entretanto, um grupo de motoqueiros chegou ao café e as conversas foram abafadas pelo ronronar dos motores de grande cilindrada. O ruído e o cheiro que as motas exalavam ditaram a minha fuga precipitada do local. Contente por não ter cão que entrasse em pânico com as motas, fui passear pela rua direita cogitando sobre o pedaço de história que tinha ouvido. Até que alguém me apresente argumento em contrário, vou assumir que Azeitão é uma vila onde, com dificuldade, coabitam três castas: os “locais”, os “lisboetas” e os “estrangeiros”, que interagem mas não se confundem, se confrontam mas não dialogam. Vou também assumir que esta dinâmica social é bem conhecida das “autoridades” que, face às tensões que a coabitação gera, optam por fazer o que os enforcers do Estado costumam sempre fazer: alhear-se quando as normas legais ameaçam alterar o frágil equilíbrio das relações de força entre as castas em confronto.
 
 
Jornal de Azeitão, Abril 2023
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​Dos Cães e de outros objectos

21/3/2023

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Não é só o título que chama a atenção do leitor. A primeira frase é também crucial. É um apelo à imaginação, uma indicação do tom, do género e do estilo da escrita. E é também a presença material da intencionalidade criativa do autor. Ele há muitas maneiras de começar a contar uma história. Há o “Era uma vez, há muitos, muitos anos...” dos contos tradicionais, e o “No tempo em que os animais falavam...” das fábulas infantis. A partir daqui a literatura tornou possíveis infinitas variantes. O “Chamem-me Ishmael”, do Moby Dick de Melville, e o camusiano “A minha mãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não tenho a certeza”, anunciam relatos pseudo-autográficos. O pressagiante “Era um dia frio de Abril, e os relógios batiam as treze” do 1984 de Orwell, contrasta com o afirmativo “É uma verdade universal que um homem de fortuna necessita uma esposa”, do Orgulho e Preconceito de Jane Austen. O “Quando Gregor Samsa despertou na sua cama uma manhã após uma noite de pesadelo, descobriu que se tinha transformado num insecto gigante” oferece logo a chave do que vem a seguir. O “Numa galáxia muito, muito longe...” e o “Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia de irredutíveis gauleses resiste ainda e sempre ao invasor...” estabelecem de imediato o contexto temporal e espacial da história que se vai desenrolar.
Imagino que, para muitos urbanos lisboetas, uma viagem a Azeitão possa ter o refrescante sabor do exótico ao lado de casa. É, em pequena escala, equivalente à descoberta dos aromas e cores de Marrocos. Perto, mas ainda assim muito longe. Azeitão, tão plácida e incaracterística, parece, em certas coisas, um minúsculo planeta vogando numa galáxia, muito, muito longínqua. E, nessas certas coisas, evoca também o espírito irredutível dos companheiros de Asterix, o famoso herói da banda desenhada de linha clara franco-belga.
Uma viagem a Marrocos – ou a qualquer outro lugar excêntrico – é sempre um jogo de selecção do olhar e da atenção, um balanço frágil entre o apetecível e o repulsivo, que forma a nossa experiência do lugar. Dependendo do nosso gosto, da nossa tolerância à diferença, da nossa adaptabilidade, é uma experiência que, em casos extremos, pode levar-nos ao êxtase (e ao desejo de eterno retorno) ou ao abismo da repugnância. Mais normalmente, leva-nos ao meio do caminho: um gosto amargo de pessoas e coisas que preferimos esquecer, a tingir o gosto doce das pessoas e coisas que queremos lembrar.
Assim também Azeitão: o urbano lisboeta regressa todos os primeiros domingos do mês ao terreiro da feira porque, mesmo que tenha sido enganado na qualidade da toalha ou na frescura do melão, deseja reinventar a experiência, e voltar a saborear a confusão da mole humana, os gritos do “Três slipes ao preço de um”, e as bifanas mal assadas. Regressa volta e meia à pastelaria que serve “as mais típicas” tortas, e à fonte dos pasmados de água eternamente insalubre. Faz alegre e regularmente o caminho da cruz que, pela serra, leva aos parques de estacionamento sem lugares vagos no Portinho e no Creiro. Se for audaz, aventura-se num trilho pedestre, entre a caruma, as ortigas, as lagartas do pinheiro e as carraças das ovelhas. E depois, ala, regressa à cidade, que não há muito mais que ver na terra que, pensa ele, tem mais fama que proveito.
 
Há, de facto, em Azeitão algo de aldeia que resiste ainda e sempre ao invasor. E, até certo ponto, tem também algo de galáxia muito, muito longínqua. Explico-me:
Há leis da capital que não têm valor ou obediência na vila, e muito do que lá é apreciado é cá liminarmente rejeitado. Presumo que não seja por isso que os turistas lisboetas fazem por reviver experiências de exotismo, mas ainda assim convido o leitor (e, como se diz agora, num cúmulo de redundância politicamente correcta, a leitora) a passear a pé pelo meandro de ruas onde se alinham moradias de geometria perturbante, versões lusas do sonho suburbano americano. Não é conveniente fazê-lo em dia de feira, porque aí só os loucos o conseguem fazer, tal é a dimensão do engarrafamento automóvel. Nos outros dias, passear a pé obriga a andar pela rua porque os passeios estão em permanência ocupados por uma multitude de carros cujos donos são demasiado preguiçosos para os estacionar nas garagens das suas moradias. É verdade que, ficando escondidos por trás dos portões, não servem como mostra do estatuto económico do morador. Ou, porventura, as garagens estão demasiado atafulhadas de motas de grande cilindrada, para uso nas reuniões do Lavadouro e na estrada do Portinho.
Por outro lado, andar pelo meio da rua, pelo asfalto dessas ruas que, consciente ou inconscientemente, evocam o cenário do Eduardo-Mãos-de-Tesoura, é a melhor garantia de não ficar ensurdecido pelo arraial de cães de guarda das mesmas moradias, que se lançam raivosamente contra as grades e frestas dos portões, ameaçando abocanhar pernas, braços e traqueias dos viandantes. Cães que não saem à rua, e que não entram na porta. São uma espécie de imigrantes refugiados que comem e calam – quer dizer, não calam porque o seu trabalho escravo é ladrar e uivar até à loucura ou ensurdecimento da vizinhança.
 
Azeitão é um minúsculo planeta de uma galáxia de maus costumes que resiste incompreensivelmente às leis da capital. Seja as leis do ruído (obrigado, motoqueiros), as normas do Código da Estrada (obrigado, donos de SUV mal-estacionados), e as regras básicas da protecção dos animais (obrigado, donos de cães abandonados em casa própria). Talvez a razão pela qual os urbanos lisboetas gostem de regressar regularmente a Azeitão seja para ver se conseguem entrever, no topo de uma escada de alumínio, o Eduardo-Mãos-de-Tesoura, ele próprio, a desbastar violentamente as oliveiras da vila. Mas ai deles se se metem a andar a pé pela vila.
 
 ​Jornal de Azeitão, Março 2023

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