MANUEL JOÃO RAMOS
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Sonhos, ilusão e outras virtualidades

29/3/2025

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Em Fevereiro de 2014, a chamada “revolução da dignidade”, centrada na Praça Maydan, em Kiev, dominava os noticiários em todo o mundo ocidental. Mas na Índia, onde eu me encontrava a dar aulas, as televisões não reportavam nada sobre o que se estava a passar na Ucrânia. Estava-se no início da campanha eleitoral que viria a dar a vitória ao Bharatiya Janata Party (BJP), um partido nacionalista hindu, e consagrar como primeiro-ministro o ex-governador do Gujarate, Narendra Modi. Falava-se sobretudo dos projectos de construção de um templo dedicado a Rama em Ayodhya sobre as ruínas da mesquita Babri, destruída por hindus em 1992, e da destruição de todos os exemplares de um livro The Hindus, an Alternative History, da indianista norte-americana Wendy Doniger. A editora, a Penguin India, fê-lo para evitar ser condenada judicialmente na sequência de uma queixa criminal apresentada pelo “Movimento para Salvar a Educação” (Shiksha Bachao Aandolan Samiti, SBAS), um grupo fundamentalista hindu. 
O relativamente obscuro livro foi imediatamente pirateado, ganhando muitos milhares de leitores a partir do momento em que foi banido e a sua leitura proibida ao abrigo de uma lei de 1988 que proíbe a divulgação de conteúdos que ofendam a fé religiosa na Índia (promulgada por altura da publicação dos Versos Satânicos, de Salmon Rushdie). A tese central do livro é que o hinduísmo é historicamente uma religião tolerante e permissiva, argumento que ofendeu os fundamentalistas hindus do SBAS, que reclamavam o seu direito à intolerância religiosa. 
Uma outra obra da autora, Sonhos, Ilusão e outras Realidades, estuda a importância do paradoxo na construção do pensamento filosófico indiano, em particular no que respeita à relação, que ela vê como não-binária, entre o sonho e a realidade (ilusória) desperta. Ela vê este não-binarismo como oposto ao binarismo do pensamento ocidental, não se apercebendo, aparentemente, de que o seu ponto de vista é inerentemente ocidental, incapaz de relacionar o pensamento indiano, que ela toma por não-binário, com o ocidental, que ela assume como binário, sem recorrer ela própria a uma visão binarista e opositiva. 
Uma das histórias que ela reporta é a de um monge que imagina que um homem adormece e sonha com um brâmane que adormece e sonha que é um príncipe que sonha que é um rei que sonha que é uma mulher que sonha que é uma pomba que sonha que é uma vinha que sonha que é um elefante que sonha que é uma abelha que sonha que é um ganso que sonha que é um cisne que sonha que é o deus Rudra (mais conhecido como Shiva), o qual se surpreende por estar a ser sonhado por mortais, que ele próprio criou sonhando o mundo. 
Eu também poderia contar uma história assim, e não tem de se passar na Índia de há três mil anos:

Conheci há algum tempo o Fernando, um jovem de Brejos, que se perdeu no mundo das redes sociais. O Fernando éconhecido como um rapaz tranquilo, tímido, algo ensimesmado. Aparententemente, criou um perfil no Instagram, onde se transformou em "O Manel_da_Vila". Na pele de Manel, começou a viver uma vida completamente diferente, cheia de aventuras online. Mostrava viagens que nunca fez, partilhava fotos retocadas de lugares onde nunca esteve. Era fácil. Ninguém desconfiava do embuste. 
Cansado desta identidade, Manel decidiu criar uma nova persona. Inscreveu-se no Facebook como "Doutor Luís", um intelectual erudito, que gostava de se envolver em debates políticos e discussões filosóficas. Luís era quem Fernando nunca fora na vida real — alguém com opiniões fortes, admirado por outros utilizadores pela sua perspicácia. Com o tempo, o Doutor Luís cansou-se também dessa vida digital de debates sem fim. E foi assim que nasceu "#PríncipeDiogo", a nova identidade de Fernando no Twitter, onde se apresentava como um jovem vaidoso, extravagante, ligando a sua conta à de vários de influenciadores e conseguindo assim muitos seguidores. 
#PríncipeDiogo conquistou rapidamente o mundo do Twitter, divulgando frases motivacionais e mostrando uma vida de aparente glamour. Passado algum tempo, a personagem evoluiu novamente. No TikTok, Fernando tornou-se "MariLux", uma influenciadora que partilhava vídeos de dança e dicas de beleza. MariLux brilhava em vários feeds, acumulava likes, mas depois de longas horas a postar vídeos de 5 segundos, também ela começou a sentir-se esgotada. 
MariLux decidiu, então, fazer uma pausa. Desligou-se do TikTok e, ao regressar à vida fora das redes, passou a olhar as vinhas e os campos em torno de Azeitão com um novo olhar. Abriu um canal anónimo no YouTube onde partilhava vídeos de paisagens locais com mensagens poéticas sobre a vida pastoral. "MariLux" começou depois a partilhar os vídeos anónimos numa nova conta do Instagram. Reencontrou aí o "#PrincipeDiogo", um velho conhecido de outras redes, que a começou a seguir. O seu reencontro foi silencioso, sem diálogos, sem comentários, trocavam simplesmente emojis e corações. Partilhavam mutuamente os vídeos anónimos do Youtube. 
No entanto, não há para Fernando possibilidade de retorno definitivo à "vida real". Cada pausa que ele faz no mundo da internet leva-o a criar novas personagens, novas aventuras, novas plataformas. Fernando e as suas criações continuam hoje a flutuar entre a vida rotineira em Azeitão e as infinitas realidades possíveis das redes sociais. O paradoxo de viver entre o analógico e o digital não se resolve — apenas se multiplica. Fernando está virtualmente perdido. 
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Em resumo: o paradoxo não tem de ser visto como um atentado à racionalidade, mas como um instrumento criativo de conectar o nosso cérebro com o(s) mundo(s). De outra maneira, como compreender que a Criatura deu à luz o Criador, ou que o azeitonense Fernando possa estar, simultaneamente, a falar comigo no café e imaginar-se numa rede social da internet? 

Jornal de Azeitão, Outubro 2024 ​ ​
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Festarolas

27/3/2025

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No seu livro Os Jardins de Adónis, o historiador-antropólogo Marcel Detienne relata que, durante o solstício de Verão, os jovens atenienses ofereciam às suas amantes-amadas tabuleiros de ervas aromáticas a que chamavam, precisamente, “jardins de Adónis” em memória da lenda do amor entre o belo Adónis e a deusa Atenas. Proeminente entre essas ervas era o manjericão que, como sabemos é a erva rainha da cozinha mediterrânea. 
Durante a Idade Média, desenvolveu-se na Península Ibérica o hábito de os jovens oferecerem pequenos poemas amorosos às suas amadas acompanhados de uma pedra semi-preciosa, um tipo de granada avermelhada conhecida como “piropo” (do grego pyropos, “flamejante”). À medida que o culto e as festas de Santo António se começaram a sobrepor em popularidade à procissão do Corpo de Deus, que era a festa mais antiga e mais pomposa de Lisboa, estabeleceu-se o hábito de os jovens alfacinhas fazerem poemas às suas namoradas-noivas, acompanhados de um manjerico envazado. 
Em Córdova – e diz-se que também em Toledo -, a prática ancestral da decoração dos pátios comuns com flores e ervas aromáticas deu lugar, nos anos trinta do século passado, a um processo de folclorização e oficialização que redundou nos concursos para premiar o melhor pátio da cidade. Semelhante processo se deu com os arraiais dos largos do casco antigo da cidade de Lisboa, onde as decorações com flores de papel (um gosto desenvolvido durante o séc. XIX) se espraiaram em concursos de marchas populares oficializadas pela propaganda do Estado Novo, por iniciativa de António Ferro e do então presidente do município lisboeta Duarte Pacheco. 
Quem hoje compra um manjerico no supermercado durante as “festas de Lisboa” – uma reconceptualização do Santo António que muito contribuiu para a gentrificação da cidade velha e para a sua mercantilização para o consumo turístico internacional – não tem de se perguntar de onde vem tal hábito. Faz-se assim porque sim, e para que a tradição se mantenha e reinvente há que não a interrogar demasiado. 
Como tinha de ser e porque não há melhor que fazer, percorri este Verão as festas da região: a de Vila Fresca, a de Vendas, a de Vila Nogueira, e as de Coina a Velha e Pedreiras. Estas últimas, por sinal, coincidiram este ano porque a procissão a El Carmen foi antecipada). Quem opina publicamente tem uma grande responsabilidade, que vem com o poder de abusar do dever de estar calado. Por isso, hesito em dizer o que vou dizer (mas digo na mesma, esperançado em que ninguém esteja a ler estas palavas, aborrecido que ficou com o início do texto): a festa de que mais gostei foi a das Pedreiras porque é a menos gentrificada de todas; sem polos, calções e sapatos de vela, sem topes descascados e leggingues angustas, sem filas intermináveis para a ficha da cerveja, e um bilião de carros mal-estacionados nas bermas e valados. 
A festa de Nossa Senhora da Conceição, em Coina a Velha, já foi assim (na era A.C, Antes do Covid): pacata, com acordeonistas e casais dançantes, rifas de bibelots de cerâmica industrial que assim circulavam de casa em casa, e de família em família. Hoje em dia, transformou-se, como a de Vila Nogueira e outras, em versão miniaturizada das “Festas de Lisboa”, descaracterizada romaria que pouco mais oferece que batida do kuduro e borracheira de cerveja. É provável que o mesmo venha a acontecer à festa das Pedreiras, mais ano, menos ano. Mas, por enquanto, ainda oferece o prazer da viagem no tempo, o tempo em que as festas azeitonenses eram pacatas, tinham casais dançantes e rifas de bibelots. 
Ouvi dizer que, como em anos anteriores, os novos donos do palácio e convento d’El Carmen, nas faldas da serra, quiseram impedir a procissão e convívio que fecha a festa das Pedreiras, junto à igrejinha de Nossa Senhora d’El Carmen. Mas, interessante afirmação do direito comunitário do povo comum, os portões tiveram de ser abertos à passagem do andor, a igreja abriu-se para receber a santa, o acordeão tocou, e o piquenique aconteceu. No altar-mor da igreja seiscentista, lá estava a Senhora d’El Carmen cheia de notas de cinco euros na vestimenta, a cópia processional trazida das Pedreiras com o Menino cheio de anéis de ouro e pendentes de cérebro de corvina e, no altar lateral esquerdo, mais modesta e mais gótica, a santa original: a Nossa Senhora da Pinha. 
Conta a lenda que o seu milagre foi ter, ali no arvoredo da falda da serra, impedido um marido ciumento de matar a sua mulher adúltera, lançando-lhe uma pinha para a mão que segurava o punhal, quando ele preparava para desferir o golpe. Conta a história que as festas da procissão eram tão licenciosas que, no séc. XVIII, foram proibidas pelas autoridades eclesiásticas azeitonenses. Ninguém liga muito à Senhora da Pinha e fazem bem em esquecê-la, porque a tradição é assim mesmo.  Mas a imaginação cavalgante dos antropólogos exegetas não se consegue impedir de ver fios e laços a ligar o Verão às licenciosas intenções dos amantes atenienses, aos jardins de flores e ervas aromáticas, aos piropos medievais que a censura do politicamente correcto veio proibir, às noivas de Santo António e manjerico, à bebedeira e ao milagre algo malicioso da Senhora da Pinha. 

Jornal de Azeitão, Setembro 2024 ​ 
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O que está por baixo

24/3/2025

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​“Senhor Manuel! Venha aqui que eu quero comentar uma coisa. Já estava para lhe dizer isto há um tempo... Já reparou que ali depois da curva da oliveirinha foram tapar a boca de incêndio onde os ciclistas costumam parar para beber água na subida? Agora cimentaram aquilo, que deve de ser por causa da nova plantação dos que compraram o terreno baldio, dizem que é para vinha, mas as estacas são muito altas e os rebentos que lá estão são vermelhos, há-de ser outra coisa. O certo é que por baixo da pedra basta raspar um bocadinho e começa logo a subir a água, aquilo está ali uma obra mal feita!”
Calhou bem a conversa com a minha vizinha, agora mesmo. Eu estava para falar desta coisa que é raspar um bocadinho a superfície da pacatez aparente da vida na vila para descobrir um subterrâneo mar revolto. É ponto assente não se falar publicamente das dores e do sofrimento das vidas perdidas ou desgraçadas pelos desastres de mota que assolam a região, como o é não questionar o porquê do culto das quartas-feiras à noite que chama à vila chusmas de motoqueiros de aquém e além Coina. E, no entanto... basta raspar um bocadinho a face triste de pais, mães e irmãos, e lá está a memória de lutos mal resolvidos, o trauma de viver com uma dor que não desaparece, o enigma de um Deus que não responde às perguntas que assaltam a consciência.
E no entanto... basta dar o passo certo na direcção da empatia e partilhar. Não é coisa que azeitonenses, que portugueses no geral, diga-se, tenham por hábito fazer – que o hábito é o contrário: calar, reprimir, silenciar. Não é que eu esteja a advogar sermos como não somos, fazermos como não fazemos, só porque lá fora se é ou faz assim. Mas não faz mal nenhum trazer o assunto à baila da consciência, que pelo menos estamos avisados que somos e fazemos assado e não assim.
A serra é a mesma coisa: a pacatez feita suave rocha coberta de ralo manto vegetal. Mas raspe-se um pouco a superfície e logo saltam à vista casarões construídos com licenças mais que dúbias, querelas de extremas e abusos de posse; detestações familiares amamentadas de geração em geração; arreigadas desconfianças do que vem de fora, que hoje em dia suplanta já o que vem de dentro.
Raspar, raspo pouco, que sou discreto e nada inquisitivo. Mas, se ouço o que ouço, à mesa do café ou na curva do caminho, fico como a Virgem que, tendo concebido, pode continuar virgem mas não pode deixar de ter concebido (eu sei, é um aparte erudito: São Tomás de Aquino dixit, a páginas tantas da Summa Theologica). E, como não sou como Tomé, o Dídimo, acredito em tudo sem ter visto, porque sim. Acredito nas fantásticas histórias dos helicópteros que cirandam na serra e depositam caixotes de droga que são logo enterrados nas fragas, nos casinos ilegais onde se faz mais dinheiro que no Estoril, nos bandos juvenis que nunca são apanhados em flagrante assalto pelos militares da GNR, nas armas automáticas com silenciador que chegam à península por via de Odessa, na coca que está a suplantar a heroína na rebaldaria das festas nocturnas que, na profundeza dos vales arrabidinos, unem estrelas das novelas, futebolistas e acompanhantes de origens variadas. Acredito em tudo como o jornalista do filme The man who shot Liberty Valance – quando James Stewart lhe pergunta se vai publicar a verdade, ele responde com uma máxima que se tornou lenda: “This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend”. Raspar, sim, mas não demais.
 
​Jornal de Azeitão, Agosto 2024 

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O interregno

21/3/2025

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Não é coisa de todos os dias, subir a Serra da Arrábida palmilhando o carreiro que leva dos Picheleiros ao Alto do Formosinho. Com as pernas a doer, o coração a latejar e o fôlego a mingar, aqueles últimos metros que nos separam do cume testam o corpo e desafiam a vontade. A recompensa, entretanto, é valiosa e inolvidável. Lá em cima, entre o rochedo, o mar e o céu, podemos em paz fazer a paz com o mundo, lembrando a lição de Frei Agostinho da Cruz:
Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.
Ao fundo da longa estreita língua de terra arenosa, vislumbra-se em dia claro a ponta de Sines. E quem diria que ali, naquela ponta, naquele bico, os impérios do mar chocaram um dia tão desalmadamente com os impérios da terra? Meta final da laboriosa Nova Rota da Seda (Yidai Yilu, no original chinês) que atravessa a vastidão da imensa Eurásia, Sines é, também, a porta aberta à penetração do poderio marítimo anglo-saxónico na massa da “Ilha-Mundo”, na expressão de Harold Mckinder, o inventor britânico dos estudos de geoestratégia.
Foi há coisa de oito meses que, em drama farrusco e embaçado, se demitiu um primeiro-ministro, caiu um governo, e terminou uma legislatura. Com meia dúzia de escutas e envelopes de dinheiro escondidos numa qualquer estante, se fabricou o que aparentava ser uma farsa canhestra, mas na realidade foi um magistral passe de mágica com a força de mil Oudinis. No essencial, a intriga ditou que, em voz muito alta, se invetivassem políticos, se esgrimissem insultos e se escavassem suspeitas, para que o inocente público não visse, não apercebesse, a clamorosa batalha de titãs que se travava entre interesses multinacionais contraditórios em torno de fontes energéticas críticas, plataformas logísticas de transporte e redes de transmissão de dados. Como se fora o mostrengo de Pessoa, tinha subido à superfície da ponta de Sines um Golem, amálgama disforme feita de lítio, LNG, hidrogénio e fibras ópticas ostentando, tal Janus, duas faces antitéticas: uma oriental, e a outra ocidental, cada uma querendo comer a sua contraparte. E, maravilha das maravilhas, o magno manto da prestidigitação cobriu o monstro da cabeça aos pés de barro, e fê-lo esvanecer-se perante os nossos incrédulos olhos e apagar-se da nossa apequenada memória colectiva.
O restolhar excêntrico das ondas que se propalaram do remergulho do Golem na baía de Sines terá certamente atingido, ao de leve, o areal da praia do Creiro, cujo recorte em meia-lua se vislumbra a partir do quebrado marco geodésico do Alto do Formosinho. Mas o mar está manso, o ar é meigamente salgado e, lá ao fundo, a vila de Sines parece ter retomado a sua pacatez centenar. A muda paisagem conversa connosco aqui no cume da serra; sob o céu benevolente, o diálogo silencioso entre a fixura ctónica e o fluor pelágico ensina-nos a degustar o interregnum de que falava Gramsci, aquele longo momento em que o mundo velho definha e o novo aguarda por nascer.
O Portugal contemporâneo – que o era já na prosa das Farpas – é o lugar onde a crise assentou com tal conforto que se fez crónica. E, como nos “interregnos”, culminares de estados de crise, despontam sempre neutrões oportunistas, o nosso bojo tem sabido expelir para o mundo, nas últimas décadas, vários ínclitos personagens, que Eça e Ortigão designaram um dia como “Eleutérios”, gente que, tendo evidenciado sábia incompetência, era agraciada com postos sempre mais elevados na fazenda real. Salutar doutrina esta, que determina que um primeiro-ministro que tropece antes da meta e não complete o mandato da legislatura seja alçado a cargos de relevo internacional. Para um Eleutério, nenhum cargo é inalcançável: Durão na presidência da Comissão Europeia, Guterres como secretariado-geral das Nações Unidas, e agora Costa no Conselho Europeu… Mas a história recente também conta que o país produz génios para os quais nenhum cargo mundial é sapato suficientemente largo para a grandeza do pé: a estatura de um José Sócrates ou de um Pedro Santana Lopes é de tal munificência que as instituições internacionais não puderam ainda inventar agraciamento suficiente para os acolher.
Era nestes mistérios místicos da natureza humana que eu cogitava absorto, acariciado pela brisa marítima no cume da Arrábida, quando de súbito senti nas narinas abertas uma baforada de fish and chips.

 Jornal de Azeitão, Julho 2024 
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A formiga à chuva

21/3/2025

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“A nova sensação da Internet é um ‘drone’ da Marinha que fez ‘plof’”. Era este o título da notícia d’O Público que, a 18 de Abril de 2014, dava conta da aparentemente pouco auspiciosa estreia do Tekever AR4 Light Ray, o primeiro veículo aéreo não tripulado da Marinha portuguesa na base naval do Alfeite. A segunda tentativa foi bem-sucedida e o então ministro da defesa Aguiar Branco “terá gostado do que viu”, prevendo mesmo um futuro de sucesso para o “drone” militar português.
Certamente que o ministro da altura, agora presidente da Assembleia da República, não antecipou que, quase exactamente 10 anos depois, dois drones AR3 VTOL da mesma empresa Tekever viriam a protagonizar um duplo ataque a estações de radar de alerta antecipado do sistema de defesa estratégica nuclear da Federação Russa, em Armavir e em Orsk, no sul do país. E quase ninguém poderia também prever que, após o mediático falhanço do primeiro lançamento do AR4 nos idos de 2014, um tão profundo manto de silêncio viesse pousar sobre o temerário (ou insensato) sucesso dos AR3 na guerra que opõe hoje a Rússia à Nato por interposta Ucrânia.
Ao desabilitar esses dois radares, o ataque dos “drones” teve como consequência cegar momentaneamente a parte do complexo estratégico nuclear russo que cobre o território iraniano e a base naval norte-americana no Golfo Pérsico. O ministério da defesa ucraniano assumiu de imediato, e orgulhosamente, o feito, mas sem se pronunciar sobre a irrelevância do ataque no que respeita aos níveis táctico e operacional do conflito (os radares – de longuíssimo alcance – não têm qualquer utilidade militar no campo de batalha ucraniano). E também não se pronunciou de todo sobre o facto de a programação e operação dos drones ter sido feita por especialistas militares britânicos, de a tecnologia AI que os conduziu até aos alvos ser norte-americana, e de a sua manufactura ser portuguesa.
Nenhuma destas informações é propriamente secreta ou confidencial. O ataque, as potencialidades dos “drones”, e a nacionalidade dos operadores são descritas em publicações internacionais dedicadas a assuntos militares. Também não é segredo que a fábrica da Tekever se situa nas Caldas da Rainha, que a sua sede fica num escritório partilhado no Largo do Duque de Cadaval, aos Restauradores, e que a empresa é não só fornecedora oficial da Marinha portuguesa, mas também do Ministério da Defesa britânico. Se até eu, que de jornalismo de investigação nada sei, consigo ter acesso a estas informações públicas, por que razão não foi este óbvio protagonismo luso no campo da alta tecnologia militar notícia de abertura de todos os telejornais nacionais no início de Maio passado?
Lê-se na página internet do Conselho Europeu de Relações Estrangeiras, onde se detalham as implicações da doutrina de dissuasão nuclear russa, que “o parágrafo 19c (da doutrina) enuncia que a Rússia retaliará usando armas nucleares contra um ataque convencional que desabilite as suas forças nucleares ou a sua estrutura de comando: esta provisão emula a postura nuclear norte-americana revista em 2018”. Tem sido deixado muito claro, nestes últimos tempos, pela presidência russa, e pelos seus ministros da defesa e dos negócios estrangeiros, que ataques a alvos críticos russos provenientes da Ucrânia que impliquem operação do armamento por parte de intervenientes de países ocidentais não os exima das responsabilidades e das suas consequências. Poderíamos discutir se se trata, por parte das autoridades russas, de uma ameaça ou de um alerta, mas pouco importa: o relevante é que a potencialidade, mesmo que mínima, de um tal acto causar um confronto nuclear de efeitos absolutamente devastadores para toda a humanidade merece estar sempre presente nas nossas consciências e que, para que isso, as nossas consciências não devem ser mantidas em total ignorância.
Temos, portanto, uma empresa portuguesa dedicada ao fabrico de “drones” de longo alcance e grande autonomia, listada como fornecedora oficial do ministério da defesa português que, em parceria com a indústria de defesa norte-americana e com o dispositivo operacional britânico na Ucrânia se encontra envolvida num duplo ataque das forças armadas ucranianas a instalações críticas do dispositivo nuclear estratégico da primeira potência nuclear do mundo. Seria risível o catarro da formiga, não tivesse o assunto os contornos de uma gravidade trágica. Há em Portugal, tradicionalmente, um certo embandeirar em arco com façanhas de gosto questionável e de efeitos imprevisíveis: a estalada fundadora de um filho na sua mãe, uma santa que transforma rosas em pão e pelo caminho destrói o sistema comunitário das irmandades do Espírito Santo, um navegador de dobra cabos da Boa Esperança e bombardeia indianos incautos para obter vantagens económicas, um almirante que concebe um plano para, em aliança com o soberano cristão etíope, tomar Meca e destruir a Caaba (o símbolo mais sagrado da religião muçulmana), o anúncio da chegada do Quinto Império comandado por um brangantino, um rei que declara a independência de uma colónia para evitar o fim do tráfico atlântico de escravos, uma pastorinha portadora de segredos geo-estratégicos... E, pelo meio, uma longa história entretecida de vassalagens às elites imperiais britânicas.
Gostamos de imaginar que vivemos alheados dos males do mundo, num poético pequeno “jardim à beira-mar plantado”, como cantou Tomás Ribeiro. Mas o refrão do “orgulhosamente sós” deixou de capitar há muito, e as guerras “do Ultramar” não puseram um ponto final na nossa costela bélica: participámos na guerra contra a Sérvia, envolvemo-nos na invasão e ocupação do Iraque e do Afeganistão, intervimos na Líbia e no Sahel, e agora, por via das nossas auto-impostas obrigações como membros da OTAN, estamos a ser, “como sonâmbulos”, engajados numa guerra imensamente complexa sem nos autorizarmos um debate infundido por um mínimo de sanidade. Mas, se apelarmos à musa da história, percebemos tudo: a noção de debate são, crítico, estruturado, consequente, é tão estranha ao carácter português como os alimentos o são ao estômago por onde passam. Por isso, estando em causa perguntarmo-nos sobre o bom senso de participarmos em ataques imprudentes a instalações críticas de um país que demonizamos instintivamente, respondemos metendo a viola no saco, deixando correr o marfim e tentando passar entre os pingos da chuva, na esperança de que ela não venha a ser demasiado radioactiva.

O Público, 13 Junho 2024

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    Manuel joão ramos

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