A loucura das multidões, a submissão das massas, a força da propaganda, são temas que fascinam. Percebo a incredulidade e a perturbação que Gitta Sereny terá sentido, ao ver-se absorvida – dissolvida – por uma massa humana que lhe era completamente alheia. No mesmo café em que li, absorto do mundo, várias das suas obras, ouvi desprendidamente esta conversa:
- Bem, ontem à noite às três, parecia uma festa. Eram uns porcos [javalis] a virar caixotes. Andam por todo o lado. Tá toda a gente velha de saber dos que vão tomar banho ao Creiro. Vão até lá baixo, vão à água, e voltam. Não chateiam a gente. Eles vão mas é aos caixotes, fuçar no lixo."
- O [...] deu conta de uns deles no terreno dele. Pegou da carabina e... pás! Quando foi ver, estavam dois estendidos, tava um ao lado do outro. Varou-os. Quando chegou lá, Olha, são dois. Foi bala de carabina. É uma bala que é uma coisa assim!. Eu também as tenho lá em casa.
- O porco mata-se é com zagalote. Com zagalote é que é! E não soubeste do rapaz, no topo das Necessidades? Há uns meses, pr'aí. Ficou todo esfacelado mas é, e mota foi p’á sucata. Bateu num e ia-se partindo todo."
- Às vezes tou na minha casa, lá no [...], e é um zumbido de balas, que faz favor. O [...] organiza montadas, e estão os homes no mato, nos esconderijos, ou nos postos ou lá o que é, à coca da saída das varas. Quando os cães começam a correr para os porcos, é só tiros por todo o lado. Não dá para dormir a noite toda!
- Parece qu'agora a licença é todo o ano, p'rós porcos.
Após um silêncio:
"O cunhado do [...], quando foi isto do apagão, dizia que vinham aí os russos. O gajo queria ir para a serra qu'a gente tinha lá as armas. Olha, pera aí, a gente pega na G3 e limpa os russos todos. Isto não há luz, eles vão atacar...
- A outra também dizia que o apagão era os russos que já tavam a invadir a Alemanha. Eles andaram p'raí com os navios à procura dos cabos da internet, isso andaram. Vamos a ver s'isto do apagão não tem mão deles. Se calhar é um aviso, é os russos a fazer testes!
- Sim, isto pode ter sido um ataque que apaga a luz! Eu ouvi dizer que foi. Ouvi tanta coisa. O que é que eles ainda não disseram que não foi?
Como é que a conversa, que girava em torno dos javalis, passou tão imperceptivelmente para o “apagão” e para o “perigo dos russos”? Terá sido a ideia de invasão? Afinal, os javalis, que andavam extintos há muitas décadas, ressurgiram e têm-se multiplicado na serra. São “porcos”, mas “porcos selvagens”, que roubam, destroem, danificam, e contra os quais, como ucranianos em trincheiras, os caçadores disparam. As histórias locais, os rumores sobre os javalis, entrecruzam-se com as notícias do mundo, e os ecos do tiktok. Elias Canetti, no seu livro Masse und Macht, categorizou as multidões pelos seus impulsos emocionais: de caça, de fuga, de festa. Ali no café, porém, estas categorias fundem-se numa tessitura ambígua. Canetti via na caça um acto de união, mas aqui, a cacofonia de métodos e motivações revela uma ansiedade difusa, onde o verdadeiro alvo não é o javali, mas o espectro da desordem. Do inimigo tangível a conversa derrapou para o inimigo intangível, o fantasma geopolítico, o espectro da Guerra Fria redivivo em tempos de fake news. A preparação para “limpar os russos” com G3, como se fossem a personificação de javalis, é uma narrativa líquida, nas palavras de Zygmunt Bauman.
A genialidade perversa destas "multidões discursivas" reside na sua capacidade de metabolizar ansiedades estruturais (o declínio rural, a dependência tecnológica) em inimigos palpáveis. Os javalis que reviram caixotes de lixo personificam a rebelião da natureza contra a domesticação da serra. Já os russos, cortando cabos no fundo do mar, encarnam o medo do invisível, do que sabota à distância. Ambos funcionam como bodes expiatórios metafóricos, absorvendo culpas que ninguém ousa nomear. A análise, porém, esbarra numa contradição. Para Canetti (e para Sereny), a multidão requer proximidade física, densidade corporal. Na Arrábida, porém, a “multidão” é etérea, dispersa em conversas de café, posts de Facebook e sussurros nas esquinas. É uma multidão que enlouquece não pela partilha de espaço, mas pela circulação de rumores.
Jornal de Azeitão, Junho 2025
O Público, 28 Maio 2025
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