MANUEL JOÃO RAMOS
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A Loucura Líquida

24/1/2026

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No capítulo de abertura do seu livro Into That Darkness, a escritora e jornalista austro-húngara Gitta Sereny descreve o episódio que, de alguma forma, inaugurou a obsessão de toda uma vida, a tentativa de compreender a moralidade do mal. Muito jovem, regressava em Setembro de 1934 de um internato em Inglaterra. O comboio que a levava de volta a Viena ficou parado na pequena cidade de Nuremberga, precisamente no dia final do congresso do Partido Nazi, imortalizado por Leni Riefenstahl no clássico propagandístico Triumph des Willens. Sem saber bem como nem porquê, acabou por ir ouvir Adolf Hitler discursar para uma plateia fanatizada num espectáculo nocturno iluminado por centenas de milhares de tochas. Conta que, não sabendo nada de Hitler e sem qualquer interesse pela política alemã, se surpreendeu a gritar e a cantar em uníssono com a multidão, chorando a ouvir as palavras do ditador. O que se tinha passado, como tinha acontecido que tivesse sido irresistivelmente absorvida pela loucura da multidão? As suas aturadas investigações do “trauma alemão” no pós-guerra, as suas longas entrevistas a personagens como Franz Stangl, o comandante de Sobibor e Treblinka, e a Albert Speer, o “arquitecto de Hitler”, são como que tentativas de compreender o que lhe tinha acontecido naquele estranho e longínquo dia.
A loucura das multidões, a submissão das massas, a força da propaganda, são temas que fascinam. Percebo a incredulidade e a perturbação que Gitta Sereny terá sentido, ao ver-se absorvida – dissolvida – por uma massa humana que lhe era completamente alheia. No mesmo café em que li, absorto do mundo, várias das suas obras, ouvi desprendidamente esta conversa:
 - Bem, ontem à noite às três, parecia uma festa. Eram uns porcos [javalis] a virar caixotes. Andam por todo o lado. Tá toda a gente velha de saber dos que vão tomar banho ao Creiro. Vão até lá baixo, vão à água, e voltam. Não chateiam a gente. Eles vão mas é aos caixotes, fuçar no lixo."
- O [...] deu conta de uns deles no terreno dele. Pegou da carabina e... pás! Quando foi ver, estavam dois estendidos, tava um ao lado do outro. Varou-os. Quando chegou lá, Olha, são dois. Foi bala de carabina. É uma bala que é uma coisa assim!. Eu também as tenho lá em casa.
- O porco mata-se é com zagalote. Com zagalote é que é! E não soubeste do rapaz, no topo das Necessidades? Há uns meses, pr'aí. Ficou todo esfacelado mas é, e mota foi p’á sucata. Bateu num e ia-se partindo todo."
- Às vezes tou na minha casa, lá no [...], e é um zumbido de balas, que faz favor. O [...] organiza montadas, e estão os homes no mato, nos esconderijos, ou nos postos ou lá o que é, à coca da saída das varas. Quando os cães começam a correr para os porcos, é só tiros por todo o lado. Não dá para dormir a noite toda!
- Parece qu'agora a licença é todo o ano, p'rós porcos.
Após um silêncio:
"O cunhado do [...], quando foi isto do apagão, dizia que vinham aí os russos. O gajo queria ir para a serra qu'a gente tinha lá as armas. Olha, pera aí, a gente pega na G3 e limpa os russos todos. Isto não há luz, eles vão atacar...
- A outra também dizia que o apagão era os russos que já tavam a invadir a Alemanha. Eles andaram p'raí com os navios à procura dos cabos da internet, isso andaram. Vamos a ver s'isto do apagão não tem mão deles. Se calhar é um aviso, é os russos a fazer testes!
- Sim, isto pode ter sido um ataque que apaga a luz! Eu ouvi dizer que foi. Ouvi tanta coisa. O que é que eles ainda não disseram que não foi?
Como é que a conversa, que girava em torno dos javalis, passou tão imperceptivelmente para o “apagão” e para o “perigo dos russos”? Terá sido a ideia de invasão? Afinal, os javalis, que andavam extintos há muitas décadas, ressurgiram e têm-se multiplicado na serra. São “porcos”, mas “porcos selvagens”, que roubam, destroem, danificam, e contra os quais, como ucranianos em trincheiras, os caçadores disparam. As histórias locais, os rumores sobre os javalis, entrecruzam-se com as notícias do mundo, e os ecos do tiktok. Elias Canetti, no seu livro Masse und Macht, categorizou as multidões pelos seus impulsos emocionais: de caça, de fuga, de festa. Ali no café, porém, estas categorias fundem-se numa tessitura ambígua. Canetti via na caça um acto de união, mas aqui, a cacofonia de métodos e motivações revela uma ansiedade difusa, onde o verdadeiro alvo não é o javali, mas o espectro da desordem. Do inimigo tangível a conversa derrapou para o inimigo intangível, o fantasma geopolítico, o espectro da Guerra Fria redivivo em tempos de fake news. A preparação para “limpar os russos” com G3, como se fossem a personificação de javalis, é uma narrativa líquida, nas palavras de Zygmunt Bauman.
A genialidade perversa destas "multidões discursivas" reside na sua capacidade de metabolizar ansiedades estruturais (o declínio rural, a dependência tecnológica) em inimigos palpáveis. Os javalis que reviram caixotes de lixo personificam a rebelião da natureza contra a domesticação da serra. Já os russos, cortando cabos no fundo do mar, encarnam o medo do invisível, do que sabota à distância. Ambos funcionam como bodes expiatórios metafóricos, absorvendo culpas que ninguém ousa nomear. A análise, porém, esbarra numa contradição. Para Canetti (e para Sereny), a multidão requer proximidade física, densidade corporal. Na Arrábida, porém, a “multidão” é etérea, dispersa em conversas de café, posts de Facebook e sussurros nas esquinas. É uma multidão que enlouquece não pela partilha de espaço, mas pela circulação de rumores.

Jornal de Azeitão, Junho 2025
O Público, 28 Maio 2025

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    Manuel joão ramos

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